BEATRIZ BRACHER

ENTRE LIVROS E FILMES

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2010)

Beatriz Bracher / Foto Tomas RangelNuma silenciosa casa em São Paulo, a escritora Beatriz Bracher se recolhe para escrever suas histórias. Desde sua estreia com Azul e dura (2002), Bracher tem cultivado a disciplina necessária para trabalhar sua linguagem, o que rendeu livros como Não falei (2004) e Antonio (2007), todos bem recebidos pela crítica.

Nascida em 1961, em São Paulo, Beatriz Bracher começou seu trajeto literário na revista 34 Letras e como cofundadora da editora 34, onde trabalhou de 1992 a 2000. Além da dedicação à literatura, a escritora paulista mantém parcerias no cinema com Sérgio Bianchi e Karim Aïnouz, entendendo bem a diferença entre o ofício de escritor e o de roteirista.

Convidada para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Beatriz Bracher acaba de lançar mais um livro, Meu amor. A edição reúne contos que foram publicados em jornais (Correio Braziliense) e revistas literárias (Ficções e Bravo), com outros inéditos. A narrativa, embora de temática parecida com os romances, é apresentada de forma mais enxuta.

Em conversa exclusiva ao SaraivaConteúdo, Beatriz Bracher fala sobre cada um de seus projetos, sem deixar de se encantar com a descoberta das histórias.

Qual foi seu primeiro encontro com a literatura?

Beatri Bracher – Sempre adorei ouvir histórias, minha mãe contava muitas histórias da vida dela. Havia um anedotário familiar de quando ela era criança. Minha avó contava histórias clássicas brasileiras. Desde então, passei a gostar de contar histórias para meus primos, aos 9, 10 anos. Eu sempre fui muito sensível para os sotaques diferentes, em São Paulo, há pessoas do Brasil inteiro. Na minha casa, meu pai e minha mãe sempre chamaram muita atenção para o modo certo de falar, da maneira correta de usar os pronomes… Aos 10 anos, eu não era uma pessoa que lia muito, não. Eu lia muito história em quadrinhos… Aos 11 anos, fiz uma viagem para a Alemanha, fiquei dois meses por lá. Aprendi muito rápido o idioma, hoje em dia esqueci tudo. Mas senti saudades enormes dos meus, pais, irmãos… Alguém me arranjou um livro chamado Boi Aruá, de Luiz Jardim. Li várias vezes o livro, fiquei tão feliz. O que mais gostava era estar lendo em português, estar em contato com a língua. Outro livro que adorava ler era O pequeno Nicolau, uma série para crianças. Logo depois passei a ler livros mais adultos.

Foi nesse período que você sentiu vontade de escrever suas histórias?

BB – Eu escrevia histórias, contos, mas não para publicar. Quando participei do grupo que fez a revista 34 Letras, a ideia era fazer um espaço para publicar. Mas nunca publiquei as minhas coisas. E com a editora 34 eu fui sendo editora, no sentido de conversar com autores, ler manuscritos e avaliar, e ler muitos livros que eu não iria ler: ensaios de música, filosofia… Não sei qual a relação, quando fui editora parei de escrever. Eu parei com a editora para tirar um ano sabático e me propus a escrever um livro. Comecei a escrever, mas não acabei em um ano. Não tive dúvida que eu queria ser escritora. Esse livro era o Azul e dura, meu primeiro romance.

São três romances: Azul e dura (2002), Não falei (2004) e Antonio (2007)…

BBAzul e dura é a história de uma mulher de 42 anos, o livro começa com ela indo para a Suíça, com os dois filhos, esquiar. Na mala, ela leva papéis com anotações feitas ao longo da vida e romances que gostou de ler. Ela tem três semanas para reavaliar a vida, não sabe o que vai acontecer depois… É a história dessa mulher de classe média alta que faz cinema na faculdade, tem uma relação mais alternativa, mas se casa e fica alheia ao mundo. Até que ela se envolve num acidente, em que atropela e mata uma menina com deficiência mental. O segundo livro, Não falei, é sobre um professor universitário, aos 60 anos, que passou a vida inteira na mesma casa, que será vendida para dividir o dinheiro com os irmãos. Ele resolve que vai se aposentar da faculdade e se mudar para São Carlos para continuar com as pesquisas… Ele pensa muito sobre educação, foi preso em 1970 pelos militares, apesar de não fazer parte da luta armada. Logo que sai da prisão, onde fica por um mês ou dois, é morto o cunhado, que participava da luta armada. Fica a dúvida se ele havia denunciado o cunhado ou não. Isso acaba desestruturando a família dele. É um livro sobre uma pessoa de hoje revendo a trajetória, tanto ligada à política, quanto à educação. Ele tinha uma ligação muito forte com os livros. As leituras que você fez são experiências de vida, como fazer um amigo, uma viagem, ou ter um emprego. O terceiro, Antonio, é sobre um rapaz, Benjamin, que resolve saber sobre a vida do pai dele, Téo. Então, ele vai conversar com Isabel, mãe de seu pai; com Haroldo, amigo do avô Xavier; e Raul, amigo do pai. Nunca se ouve a voz do Benjamin, os três que falam sobre o Téo. Na verdade, se sabe muito sobre quem está falando, sobre quem se fala fica um pouco embaralhado. O Téo é o rapaz que nasceu em 1960 e aos 18 anos, ao invés de cursar uma faculdade, resolve seguir os caminhos de Guimarães Rosa. Dessa viagem, resolve que quer ficar e se emprega como vaqueiro. O livro começa com a revelação que nessa viagem ele conhece uma mulher mais velha que ficou grávida de um filho dele. Eles se casam, mas ela morre no parto do filho, o Benjamin. Essa mulher foi casada com o avô, com quem também teve um filho chamado Benjamin. O cara resolver ser um vaqueiro é diferente…

Como surgem suas histórias? Há disciplina em seu processo de escrita?

BB – Tenho uma disciplina de trabalho, escrevo quatro horas por dia. Depois trabalho em outras coisas. Quando começo um romance não sei onde ele vai acabar. Conforme vou escrevendo, ele vai escolhendo suas saídas. Trabalho muito na limpeza do livro, limpando a história. Nesse trabalho de edição, de limpar, de cortar, tem um trabalho criativo muito grande. Talvez seja diferente de quando escrevo, mas é de qualidade mais sofisticada. Sou mais dona do que estou fazendo quando revejo do que quando escrevo. Porque quando escrevo é quase uma matéria bruta.

E o livro de contos Meu Amor? Há diferença na escrita de uma narrativa curta?

BB – Metade do livro são contos que escrevi antes de fazer a editora. Há contos que publiquei em revistas e jornais. A outra metade são contos inéditos. Comecei lendo contos: Cortázar, Borges, Kafka… Pra mim, o conto sempre foi uma forma mais elevada do que o romance, mais pensada e burilada. Eu tinha mais medo de escrever conto do que romance. Ao contrário do romance que te diz o caminho, o conto nunca te diz, você tem descobrir. O romance é bom que seja um pouco sujo, o conto, não, precisa ser mais enxuto para ter mais força. Mesmo que mais enxuto seja uma verborragia muito grande, tem alguns contos que são assim.

Você também trabalha com cinema. Escreveu a ideia original do filme Cronicamente inviável e o roteiro de Os inquilinos, ambos de Sérgio Bianchi. Como é escrever roteiros? Há alguma relação com a literatura?

BB – O problema é que a gente acha que tem alguma coisa a ver (com literatura), quando não tem nada a ver. O roteiro está a serviço de uma coisa que não é escrita, que é o filme. Ninguém vai ler o que você está escrevendo. O filme não vai existir se não existir roteiro, mas depois que o filme estiver pronto, o roteiro desaparece, não existe mais o texto. E é um trabalho com muitas pessoas envolvidas. Primeiro é o roteirista e o diretor, que é o autor do filme. É quase insuportável para o escritor de literatura porque não posso escrever “ela estava triste”. Tenho de escrever “ela baixou os olhos e olhou para o lado”. Como assim, está triste? Não existe. O que tem de igual é a capacidade de fabulação, de criar histórias, de unir um personagem com outro. Além disso, no roteiro você está discutindo o tempo inteiro: “Qual a função dessa cena?” Quando escrevo literatura: “Qual a função desse capítulo?” Não sei. Talvez alguém vai descobrir e me contar. Só sei que funciona… E depois, quando está pronto, o roteiro é enviado para um monte de gente, que faz críticas. Reescreve. E ainda, vai vir o produtor, o fotógrafo, diretor de arte… Fica essa discussão sobre filme de autor. Todo filme é de autor, só que o autor é o diretor. Se há alguém que é quase autor do filme é o editor, que faz a edição final. Escrever um roteiro existe um “baixar a bola” muito grande para um escritor de literatura (risos). Você é um, o comecinho de uma etapa que vai se distanciar muito de você. Mas trate de apontar muito bem onde as pessoas devem chegar.

Atualmente você está trabalhando no roteiro de um filme do Karim Aïnouz…

BB – Ainda não sabemos o nome. É a história de uma moça, dentista, casada com um dublador, que acabou de se mudar para um apartamento com o marido e o filho de 14 anos. No intervalo do consultório, o marido liga para o celular dizendo que se separou, não sabe para onde vai… O roteiro você tem que deixar descansar, como o livro, como qualquer coisa. Depois é muito fácil ver o que é ruim, salta aos olhos. Mas se não se tem esse tempo, dependemos do que o outro tem a dizer, com olhos frescos.

Como autora e editora, o que você diria a um jovem que deseja ser escritor?

BB – Escrever, escrever, escrever… Obviamente, um escritor precisa escrever muito. Uma vez que já escreveu, ouvir o que outros têm a dizer é muito importante. É muito chato ler o que um amigo escreveu para avaliar. Tem de escolher bem o amigo, vai ser muito legal quem fizer a leitura, no aspecto de ele ser honesto. Vale a pena trabalhar bastante e insistir.

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BOTIKA

AUTOR

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2010)

 

Botika / Foto de Tomas RangelSeu nome de batismo é Bernardo Rinaldi Botkay, mas ele é conhecido por Botika, apelido de infância que se tornou nome artístico. Escritor e músico — vocalista da banda de rock Os Outros —, Botika tem imaginação fértil, terrível, seus personagens não perdoam nada, nem ninguém.

É possível vivenciar suas histórias no livro Búfalo, recém-publicado pela editora Língua Geral. Suas palavras duras e, por vezes, engraçadas, são cobertas de violência, pornografia e escatologia. Assim como o livro de estreia, Uma autobiografia de Lucas Frizzo (Azougue, 2004), o autor se apropria de personagens alegóricos para criticar o social, sem pudor.

Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Botika contou como passeia pela música e a literatura, além de falar sobre o próximo livro, Calendário.

Seu nome é Bernardo Botikay…

Botika – Minha mãe e meu pai me chamaram de Bernardo Rinaldi Botikay. É o nome que os pais deram. Eu acho bonito o nome, mas eu não me identifico muito com Bernardo mais não. Todo mundo me chama de Botika há muito tempo.

E Bernardo?

B – Só minha mãe me chama assim. E minha família lá de São Paulo.

Você os atende?

B – (risos) Atendo. Sacanagem, eles me viram nascer assim… Mas a minha carteira de motorista, ó, vou mostrar… Já pesquisei para mudar o nome no cartório, na certidão de nascimento. Tipo a Xuxa, mas ela é Xuxa Meneghel. E você não pode ter um nome só, eu queria que fosse só Botika. Eu renovei minha carteira de motorista, está oficialmente: Bernardo Rinaldi Botikay. Mas eu assinei Botika… (risos) Eu estou assinando como acho que tem que ser. Foi um amigo, Miguel Gandelman, filho do saxofonista Leo Gandelman, que me batizou. A história do nome é essa.

Além da literatura, você flerta com o teatro e com a música…

B – A música sempre rolou muito, principalmente de teatro, por causa do meu pai (Caique Botkay), que é músico de teatro. Ele também dirige de vez em quando, mas é especificamente músico. Nasci e cresci dentro de teatro, vendo ensaio ou meu pai compondo… Sempre vendo meu pai trabalhar. Aos 12 anos, acabei fazendo, como ator, uma peça com a Zezé Polessa, minha madrinha, Lúcia Coelho tinha feito a direção do infantil. Eu fiz um ano de experiência no palco de teatro, o suficiente para eu não me sentir ator. E logo comecei a compor música, na peça eu já tocava algumas coisas. Depois veio o negócio de banda, conheci o Vitor Paiva, conheci uma galera que fez uma banda chamada Aneurisma, que virou Neura. Depois acabou essa banda e fizemos Os Outros.

Recentemente vocês lançaram um CD…

BPacote felicidade. Os Outros: eu, Vitor Paiva, Eduardo Sodré, Papel e Fabiano Ribeiro.

Basicamente as letras são suas e do Vitor Paiva.

B – As bases das composições são nossas, letra e melodia. Só que a banda toda trabalha as músicas, com a liberdade de mudar, fazer tudo.

Você diferencia a letra de música da literatura?

B – Diferencio totalmente, são duas coisas extremamente diferentes para mim. O Vitor, por exemplo, fala que para ele tem uma aproximação. Eu vivo de duas formas, respiro de um jeito quando estou no meu quarto, escrevendo sozinho, e respiro de outro, quando estou compondo uma letra junto com uma melodia na minha cabeça. Ou a letra chama a melodia ou a melodia chama a letra. Mas quando paro para escrever livro, conto ou alguma coisa parecida com prosa, é outra sensação, outro sentimento, outra forma de lidar com a palavra.

Você escreve poemas?

B – Não. Não consigo escrever, tenho dificuldade de ler poesia. Acho difícil pra caralho! Sei que é lindo, genial. É um limite meu, com certeza. Terminei de ler o livro do Ericson Pires (Pele tecido) e fiquei emocionado, meu peito ficou estufado. Comecei a ler o do Pedro Rocha (Chão inquieto), também estou muito emocionado dentro do livro. Mas eu não sei, talvez porque sou amigo, eu “saco” eles, a gente se identifica… Poesia é muito bom, mas não entendo de poesia. Poesia é muito difícil.

Seu primeiro livro, Uma autobiografia de Lucas Frizzo (Azougue, 2004), é polêmico, utiliza nomes de personalidades em situações nada amistosas… Você foi processado por alguém?

B – (risos) Não me processaram, ainda bem, senão ia dar merda. Mas o Sérgio Cohn, editor da Azougue, me fez assinar um contrato que me responsabilizasse por possíveis danos. Cheguei a dar o livro para a Malu Mader, pessoalmente. Mas não sei se ela leu, ou se leu e jogou fora… Ou entendeu que é uma coisa louca, mas ela não me processou. E ela é a que mais sofre na mão do personagem. Mas comecei a escrever esse livro sem saber que queria ser escritor, sem me sentir escritor. Comecei numa necessidade de ter que botar para fora, de forma textual, um monte de coisa que estava sentindo… Eu estava vindo de uma relação que tinha acabado; uma merda… E quando vi foi virando um texto mesmo. E o Guilherme Zarvos (poeta), que sempre me acompanhou e me indicou várias direções, me disse: “Você está escrevendo uma parada, vai, considere isso um texto.” Então, levei mais a sério, virou um livro. Eu entreguei o livro para o Sérgio Cohn num avião, com um monte de poeta maluco indo participar de uma Bienal do Livro no Ceará… O Sérgio estava no meio da galera, leu o livro e topou publicar. Depois eu demorei um pouco mais para conseguir publicar o Búfalo (Língua Geral, 2010)… (risos)

A Língua Geral demorou a editar o seu livro…

B – Não só a editora, não. Para eu conseguir uma editora demorou. Escrevi a primeira versão e sai procurando editora, corri atrás… Não rolava. Até que o Rodrigo Bittencourt, que havia lançado pela Língua Geral, sugeriu para o (editor, na época) Eduardo Coelho, que é um cara da pesada. Ele topou, depois de um bom tempo. Além disso, o livro ficou parado um tempo por conta da crise…

O que é o Búfalo?

BBúfalo já um livro pensado, eu sabia que estava escrevendo um livro desde o início. Eu trabalhei muito o texto depois de achar que tinha terminado. Até por sugestões de pessoas como a Bia (Beatriz) Bracher, que foi a primeira a ler o livro. Ela me conhece desde criança, enviei o livro para ela, o livro impresso, xerocado, pensando que ela pudesse sugerir para a (editora) 34. E ela me devolveu anotado, página por página, lindamente anotado. Eu nunca tinha visto isso, fiquei até assim: “O que é isso? Como é que faz isso com meu livro?” No final das contas, me ajudou muito, cortei uns capítulos. Um processo completamente diferente do primeiro livro, onde não cortei nada. Lucas Frizzo é um livro sem parágrafo, sem capítulo, inspirado no Agripino (de Paula), no PanAmérica. Mas Búfalo, não. Este livro tem capítulos e parágrafos, é mais formal nesse sentido. Ele também vem do término de uma relação que estava pegando…

A falta de amor inspira?

B – O poço. O “poção” dá onda. Escrever quando há tensão sempre me dá leveza. Isso também acontece na música, quando estou muito fodido, consigo escrever letras alegres.

E o novo livro, Calendário?

B – Voltei a escrever depois que Búfalo finalmente saiu. Calendário é uma tentativa de sair desse tipo de prosa corrida, “linear”. Calendário é uma pesquisa que faço no tempo, escrevendo todos os dias do ano, o livro vai ter 365 páginas. Vou lá e dou um Google no dia, que me traz uma informação incerta porque é Internet, e detono isso. Mudo a informação que me interessa. É mudar a história a partir de informações incertas da Internet para ser uma espécie de livro de consulta, que a pessoa pode abrir em qualquer página e ter uma sacanagem ali.

A arte é a única saída?

B – Não tem outro jeito, depois que entrei nessa parada, que senti que tinha que me expressar, não tem mais saída. É uma coisa mesmo de sobrevivência. Se não fizesse essas coisas acho que não seria feliz. Seria infeliz, triste. É da nossa espécie, a gente gosta de se comunicar muito. Isso tem a ver com a necessidade de criação, de produção. Por que faço isso? Não é essa a pergunta? (risos) Por quê? Acho que eu consegui responder… (risos) Deve ter muito mais coisa… (risos)

CARLA FAOUR

TESÃO DE ESCUTAR (E LER)

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2009)

Carla Faour / Foto de Tomas Rangel“Tenho prazer com a palavra, tenho tesão de escutar como as pessoas constroem as frases, como dão forma aos pensamentos, os cacoetes da fala de cada um. Palavra é sonoridade, ritmo, significante, significado… Por isso que eu adoro poesia. Gosto de juntar sonoridades, palavra é para juntar, mexer, pisar… É uma relação de artesã, afetiva.” Essa declaração não explica o sucesso da peça A arte de escutar, de Carla Faour, que acaba de ser publicada como ficção pela editora Agir, mas faz compreender que para escrever bem é necessário — antes de tudo — saber ouvir.

O livro é um caso raro: nasceu de uma peça teatral quando o comum é o teatro adaptar textos literários. A peça A arte de escutar foi a estreia de Carla Faour como dramaturga, que, até então, vinha desempenhando os ofícios de atriz e diretora. O espetáculo, sucesso de crítica e público, indicado ao Prêmio Shell 2008, na categoria Melhor Texto, levou ao convite para transformar o texto teatral em ficção. Desafio superado através de uma escrita bem elaborada e precisa, um trabalho de artífice da palavra.

No romance (e na peça), diferentemente da autora, a personagem que possui o dom de escutar é anônima. E ela nem mesmo pode ser classificada como protagonista, já que, em cada história que relata, o foco está naqueles que falam, que contam suas histórias. Esses são os personagens principais. Ela limita-se a ouvir os desabafos, as confidências de pessoas encontradas por acaso. Na fila do banco, uma ex-hippie lembra seus tempos de sexo, drogas e rock‘n’roll ao mesmo tempo em que se revolta contra o desejo da filha de enquadrá-la. Na academia de ginástica, outra mulher a escolhe como ouvinte de suas aventuras extraconjugais. No metrô, ouve história de um homem atormentado. Escuta em silêncio, mas sempre atenta.

Nascida no Rio de Janeiro, integrante do grupo teatral Quem são esses caras?, Carla Faour não acredita na “crise da dramaturgia”, como tentam apontar alguns críticos. “Tem muita gente boa escrevendo. No próprio grupo de que participo tem o Henrique Tavares — que foi a primeira pessoa a me incentivar a escrever. Ele escreveu peças ótimas: Barbara não lhe adora, Cidade Vampira… Tem também o Pedro Brício, Daniela Pereira de Carvalho, Eduardo Rieche e muitos outros… Não acredito nessa crise de dramaturgia brasileira. O que há é uma dificuldade de o dramaturgo levar o texto à cena. Se ele não tem os meios de produção, fica muito difícil. Não há incentivos para dramaturgos, o que é lamentável”, defende a escritora e dramaturga que já adaptou para o teatro textos de Janete Clair e Nélida Piñon.

A arte de escutar é, principalmente, uma redefinição de caminho. Confirmou que tenho um caminho aberto para escrever, quero investir”, diz Carla. E o veterano ator Sérgio Britto, em declaração na contracapa do livro, aprova: “O livro que acontece depois do prefácio é caminho novo para essa moça tão talentosa, e, antes de tudo, para sempre uma escritora.”

Você é boa ouvinte?

Carla Faour – Sim. Acho que sou.

Faz análise?

CF – (risos) Já fiz, mas por seis ou sete meses. Não tive muita paciência para continuar. Sou boa ouvinte, mas falo muito (risos). Sempre que uma pessoa para e me conta uma história, eu escuto com atenção.

Eu poderia dizer que a palavra costura suas personas: atriz, dramaturga, escritora…

CF – Sim. A palavra.

Como lidar com as palavras?

CF – Como autora, eu sofro pela palavra. Principalmente se eu estiver em cena como atriz. Sou uma atriz que sempre teve muito cuidado com o texto. Sou uma autora que escreve e reescreve incessantemente, meu texto deve ter umas 50 versões. Então, quando um ator troca uma palavra eu sofro. Porque se um autor colocou aquela palavra no papel é porque ele queria dizer uma determinada coisa. Tenho prazer com a palavra, tenho tesão de escutar como as pessoas constroem as frases, como dão forma aos pensamentos, os cacoetes da fala de cada um. Palavra é sonoridade, ritmo, significante, significado… Por isso que eu adoro poesia. Gosto de juntar sonoridades, palavra é para juntar, mexer, pisar… É uma relação de artesã, afetiva.

Você conhece o livro Rumores imprecisos de conversas alheias, do escritor e ator Thiago Picchi? Fala sobre essa arte de ouvir.

CF – Não, não conheço.

É um romance que dialoga muito com a sua peça. Como é o processo de criação da autora?

CFA arte de escutar escrevi de uma forma absolutamente intuitiva. Como atriz e autora do espetáculo, tenho o prazer de completar o ciclo da obra; escrever, participar de todo o processo de ensaios, produção… E depois, durante a temporada, ouvir a resposta do público. É maravilhoso. O público procura e pergunta: “Você leu fulano? Leu sicrano? Conhece psicologia?” Eu não sei como, de alguma forma, toquei em vários conceitos de psicanálise, filosofia, antropologia… Mas tudo aconteceu de uma forma intuitiva, poética. O texto, ao mesmo tempo em que é poético, tem também uma coloquialidade na fala das personagens. Eu não quis ler sobre o assunto para escrever o livro, é uma observação do cotidiano. Como foi a peça. As pessoas falam muito de si e escutam pouco. Hoje em dia todo mundo tem blog, Orkut, fotolog… São ferramentas voltadas para a fala, para o externo, para se fazer notar pelo maior número de pessoas possível. Escutar é o contrário. É uma forma de voltar a si.

Você tem uma companhia de teatro há mais de 10 anos. E recentemente teve o reconhecimento na TV…

CF – Eu nunca tive muita ansiedade, porque senão eu já teria desistido. Adoro fazer televisão, sempre que me convidam eu vou com prazer. Mas é o teatro a minha realização. Tenho um trabalho de mais de 10 anos com uma companhia. O sucesso, em grande escala, pode vir agora ou daqui a cinco anos, não busco isso com ansiedade.

O que muda?

CF – Nada de importante. Muda o momento, coisas pequenas. Na verdade, os outros é que mudam. Quem não te conhece passa a te conhecer, a ser íntimo. É claro que aparecem mais oportunidades de trabalho. Eu não saio do eixo.

Seu trabalho foi elogiado pela crítica Barbara Heliodora, indicado ao Prêmio Shell de Melhor Texto…

CF – Isso foi ótimo porque começamos de uma forma muito despretensiosa, no porão da Casa de Cultura Laura Alvim e aos poucos a peça foi ganhando uma projeção maior e teve uma série de desdobramentos. Fui convidada para escrever esse livro, baseado no texto da peça, que sai agora pela Editora Agir, do grupo Ediouro. A peça foi traduzida para o inglês e estreou no Canadá, em julho. E ainda estamos viajando com o espetáculo pelo Brasil. Espero que ainda venha mais coisa por aí. Mas A arte de escutar é, principalmente, uma redefinição de caminho. Confirmou que tenho um caminho aberto para escrever, quero investir.

Como você avalia a produção dos dramaturgos brasileiros?

CF – Tem muita gente boa escrevendo. No próprio grupo que participo tem o Henrique Tavares – que foi a primeira pessoa a me incentivar a escrever. Ele escreveu peças ótimas: Barbara não lhe adora, Cidade Vampira… Tem também o Pedro Brício, Daniela Pereira de Carvalho, Eduardo Rieche e muitos outros… Não acredito nessa crise de dramaturgia brasileira. E acho muito louca essa coisa de safra. O que há é uma dificuldade do dramaturgo levar o texto à cena. Se ele não tem os meios de produção, fica muito difícil. Não há incentivos para dramaturgos, o que é lamentável. O teatro é uma arte efêmera, o que fica dele é o texto. Há pouco, li uma matéria sobre o Alcione Araújo, ele diz que está com vários textos na gaveta. O lugar do texto de teatro é no palco. Deveria ter um projeto, através do poder público, de apoio à dramaturgia brasileira.

Por que adaptar Nélida Piñon e Janete Clair para o teatro?

CF – Obedeço meu gosto pessoal. A Nélida Piñon é uma autora incrível, uma das mais importantes da língua portuguesa. O livro que adaptei, A força do destino, é extremamente teatral, usa metalinguagem e fala, justamente, da criação. Do ato de escrever. Da Janete, adaptei o único livro dela, Nenê Bonet, um folhetim que se passa no Rio de Janeiro, na década de 1920, e conta a história de uma moça de família tradicional que sai em busca de sua liberdade, seus direitos, numa época em que a sociedade era dominada pelo homem. Eu gosto muito de autores mais antigos, acabei de ler Eça de Queiroz. Nelson Rodrigues é sempre uma referência. Poesia, também: (T.S.) Eliot, (Fernando) Pessoa, Florbela Espanca, (Mário) Quintana, Manuel Bandeira e Cecília Meireles, que sou apaixonada.

Sobre o que você escreve?

CF – Sobre o que vejo e o que está a minha volta. Não sei…(risos) Tanta coisa. Cada dia escrevo sobre alguma coisa diferente, de uma forma diferente. Escrevo sobre o que sinto.

Sobre a relação com a Internet…

CF – A Internet é um suporte bacana para publicar textos. Não tenho blog. Mas estou com vontade de ter um. O blog é um lugar legal para postar textos, experimentar formatos, ideias, escrever sem ter o compromisso imediato de acertar. Mostrar textos que ficariam no fundo da gaveta. Além de poder ter contato direto com o leitor, saber o que pensam do seu texto, interagir com pessoas de outros lugares e tudo isso de uma forma rápida e direta.

O que você espera em 10 anos?

CF – Espero dar continuidade a esse trabalho: escrever, atuar, produzir… Mas, principalmente, avançar como escritora. Quem sabe, experimentar outros meios como o cinema, a TV…

O que diria para algum jovem que deseja trabalhar com a palavra?

CF – Leia muito. E seja uma antena das coisas que estão acontecendo. Leia os contemporâneos e os clássicos. E se arrisque, tenha coragem para vencer o desafio da página em branco. E não tenha preconceitos.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

ALGUMA POESIA

ESTREIA DE DRUMMOND COMPLETA 80 ANOS E GANHA EDIÇÃO LUXUOSA

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2010)

Alguma Poesia“Às vezes, as pessoas me perguntam que poeta jovem que estou lendo hoje… Drummond é o poeta jovem que estou lendo que me deixa impactado.” A afirmação do professor e poeta Eucanaã Ferraz é a prova de que os poemas de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) ainda têm muita vitalidade.

Alguma poesia, livro de estreia de Drummond lançado em 1930 pelo selo imaginário Edições Pindorama, criado por Eduardo Frieiro, ganhou uma edição fac-similar organizada por Eucanaã Ferraz. A publicação — Alguma poesia, o livro em seu tempo (Instituto Moreira Salles, 2010) — é baseada no volume que pertenceu ao próprio autor e contém anotações de Drummond, que tinha 28 anos quando o livro foi editado, além de correspondências trocadas com amigos e críticas publicadas nesse período.

“É um livro importante não só para compreender a obra do Drummond, mas o movimento da poesia moderna como um todo”, explica Eucanaã ao falar e ler poemas da edição comemorativa do poeta mais influente da literatura brasileira. Confira a entrevista e alguns dos poemas do livro.

Qual a importância de lançar a edição especial fac-similar do primeiro livro de Carlos Drummond de Andrade, Alguma poesia?

Eucanaã Ferraz – Esse ano se comemora 80 anos da edição do livro, lançado em 1930. É o primeiro livro do Drummond, um marco na poesia moderna brasileira. Em função desta data, pensei em fazer algum tipo de comemoração… Sugeri que fizéssemos alguma coisa no Instituto Moreira Salles, onde cuido da programação de literatura. Mas não sabia exatamente o que fazer. Conversando com Pedro Drummond, neto do poeta, ele deu a ideia: “Por que vocês não fazem uma edição fac-similar do Alguma poesia?” Eu achei a ideia muito boa, até que ele me mostrou o livro e vi que a ideia não era só boa, era excelente. Porque não era o fac-símile de um exemplar, mas o exemplar que pertenceu ao Drummond. Você não tem só uma primeira edição, mas a primeira edição anotada, com pequenas emendas que o Drummond incorporaria na edição seguinte, que é de 1942. Isso torna, de fato, esse livro um tesouro. E uma coisa que o Pedro gosta muito, esse exemplar do Drummond tem uma capa dura em couro azul e, em baixo relevo, desenho do (ilustrador) Santa Rosa (1909-1956). Achei a ideia excelente. “Vamos fazer!” A ideia do Pedro era fazer mesmo o livro, com mesmo tamanho, para se ter o próprio livro na mão. Achei que a ideia era boa, mas talvez fosse melhor crescer um pouco… É melhor que o leitor tenha uma orientação: “O que é o livro? O que o livro significa? Que livro foi esse?” Fazer simplesmente o fac-símile não era suficiente. Resolvemos fazer o fac-símile dentro e acrescentar as críticas que saíram na época. Isso é uma coisa muito curiosa porque eu sempre ouvi falar que o livro tinha sofrido ataques muito fortes. Você imagina que tipos de ataques seriam… Mas, na verdade, eu nunca tinha visto. Na (Fundação) Casa de Rui Barbosa, no Arquivo-Museu (de Literatura Brasileira) há um arquivo enorme, organizado pelo próprio Drummond, onde se tem muitos recortes de jornais. E, espalhadas ao longo, várias críticas do livro. Então, reuni essas críticas, a primeira recepção do livro, todas de 1930, duas ou três de 1931. De fato, é um levantamento histórico da recepção crítica. Além do interesse para conhecimento do livro, é curioso compreender a própria crítica. Como é que se escrevia em 1930? Como é que se recebia, em 1930, um livro tão impactante quanto esse, de fato, tão moderno, tão arrojado? Participam desse mesmo universo da recepção do livro, que descobri também na Casa de Rui Barbosa, trocas de correspondências do Drummond com seus amigos. O Drummond mandava o livro e os amigos escreviam de volta. Amigos e outros menos íntimos… Há também um quadro da recepção do livro pelas cartas. Eu já tinha montado, portanto, o livro e a recepção do livro. E fiz um prefácio, uma apresentação, contando um pouco como o livro se construiu. Na verdade, quando o livro se constrói, em 1930, o meu texto para.

Alguma poesia é fundamental para entender a obra de Carlos Drummond de Andrade, pois neste livro encontram-se características que permanecem em sua produção poética. O que há de tão impactante na poesia do Drummond?

Eucanaã Ferraz – É um livro importante não só para compreender a obra do Drummond, mas o movimento da poesia moderna como um todo. Em 1930, juntamente com Alguma poesia, tem o primeiro livro modernista do (Manuel) Bandeira (1886-1968), Libertinagem, e o primeiro livro (Poemas) de Murilo Mendes (1901-1965). Três livros que são definitivos para a poesia moderna. Em 1930, há uma consolidação do Modernismo, que vai se desenvolver na década de 1920, sobretudo na Semana de 1922, como “Festa de inauguração” — há quem não considere inauguração, mas um fio de um processo… De qualquer modo, em 1930 há o fechamento de um ciclo e o início de outro ciclo da poesia moderna. Várias questões que evoluíram, foram tramadas ao longo dos anos 1920, se resolvem. A questão do nacionalismo se resolve de outra maneira, o olhar é mais crítico, mais diferenciado. E, ao mesmo tempo, há o processo de amadurecimento de certas técnicas. Não tem mais uma certa ingenuidade do primeiro Modernismo… O livro do Drummond, na verdade, leva dez anos para ser feito. Ele vai mandando os poemas, trocando correspondência com os amigos, sobretudo com Mario de Andrade (1893–1945), que tem um papel fundamental na construção deste livro. Alguma poesia é um divisor de águas da própria poesia moderna no Brasil. Com relação ao Drummond, esse livro é fundamental porque já temos o Drummond neste livro. Quando você lê o “Poema de sete faces” — embora seja um poema muito específico, com um tipo de construção que não se encontra, por exemplo, ao longo do livro — tem todas as faces do Drummond. Você tem humor, dramaticidade, choques, ritmos e, ao mesmo tempo, o senso da medida, quase metrificada… Um jogo com as repetições, um distanciamento irônico, que é típico do Drummond: “Vai, Carlos! Ser gauche na vida.” Ele está se vendo de fora, ele chama a si mesmo de Carlos, ele inventa uma cena onde ele é o personagem… Têm vários jogos estilísticos, certas questões psíquicas e emocionais que vão continuar ao longo da obra do Drummond. É como se o livro fosse um grande balão de ensaio para a obra futura, mais madura, do Drummond. Então, quando você lê esse livro é muito surpreendente porque ele soa muito moderno hoje. Às vezes, as pessoas me perguntam que poeta jovem que estou lendo hoje… Drummond é o poeta jovem que estou lendo que me deixa impactado. Tem muito frescor, humor, erotismo, experimentação… É um livro muito corajoso formalmente. É um grande livro.

> Leia três poemas do livro de estreia de Drummond

Poema de sete faces

Quando nasci um anjo torto

desses que vive na sombra

falou: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

As casas espiam os homens

Que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

Não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:

Pernas brancas pretas amarelas.

Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos não perguntam nada.

O homem atrás do bigode

é sério, simples e forte.

Quase não conversa.

Tem poucos, raros amigos

o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste

se sabias que eu não era Deus

se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,

se eu me chamasse Raymundo

seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,

mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer

mas essa lua

mas esse conhaque

botam a gente comovido como o diabo.

Infância

A Abgar Renault

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.

Minha mãe ficava sentada cosendo.

Meu irmão pequeno dormia.

Eu sozinho menino entre mangueiras

lia a história de Robinson Crusoé,

comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu

a ninar nos longes da senzala – nunca se esqueceu

chamava para o café.

Café preto que nem a preta velha

café gostoso

café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo

olhando para mim:

– Psiu… Não acorde o menino.

Para o berço onde pousou um mosquito.

E dava um suspiro… que fundo!

Lá longe meu pai campeava

no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história

era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Coração numeroso

Foi no Rio.

Eu passava na Avenida quase meia-noite.

Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.

Havia a promessa do mar

e bondes tilintavam,

abafando o calor

que soprava no vento

e o vento vinha de Minas.

Meus paralíticos sonhos desgosto de viver

(a vida para mim é vontade de morrer)

faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente

na Galeria Cruzeiro quente quente

e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro,

nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso.

Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas

autos abertos correndo caminho do mar

voluptuosidade errante do calor

mil presentes da vida aos homens indiferentes,

que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram.

O mar batia em meu peito, já não batia no cais.

A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu

a cidade sou eu

sou eu a cidade

meu amor.

CAROLA SAAVEDRA

“A LÍNGUA PORTUGUESA É MINHA CASA”

Por Ramon Mello (Revista SaraivaConteúdo – 2010)

 

Carola Saavedra / Foto de Tomas RangelA escritora e tradutora Carola Saavedra nasceu no Chile, mas mora no Rio de Janeiro desde os três anos de idade. Escolheu a língua portuguesa como pátria, fazendo dela instrumento de transformação. A delicadeza das palavras de Carola emite o eco de autoras como Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles. A incomunicabilidade das relações afetivas costura as histórias de três de seus romances: Toda terça (2007), Flores azuis (2008) e Paisagem com dromedário (2010), ponto final dessa trilogia, todos editados pela Companhia das Letras. Mas o início dessa busca se iniciou com a publicação do livro de contos Do lado de fora (7Letras, 2005), metáfora para o “olhar estrangeiro” herdado dos pais, que marca sua escrita. Uma trajetória literária construída com a precisão de quem está disposta a vivenciar cada passo, devagar e sem medo.

Você nasceu no Chile e vive no Brasil desde os três anos de idade. De que forma essa relação com os dois países interfere na sua produção literária?

Carola Saavedra – Costumo sempre enfatizar que sou uma escritora brasileira, não sou uma escritora chilena que escreve em português. Nasci no Chile, meus pais são chilenos, mas fui voltar lá com 17 anos… Eu tinha a “ilha Chile”, que era a casa dos meus pais, com a música, a comida, a literatura. Me lembro que tive um choque muito grande ao perceber que havia diferença entre o “Chile, casa dos meus pais” e o “Chile, país”. Foi um choque cultural, emocional, existencial… Eu tinha uma ideia, quase que uma ilusão, que havia sido passada pelos meus pais. Percebi que aquilo tudo tinha pouco a ver comigo. Na casa dos meus pais ficou um país congelado no tempo. Eu tenho uma herança, claro, mas não me identifico. Andava por Santiago e diziam: “Mas você é uma típica brasileira!” Eu achava curioso porque até aquele momento não estava muito claro o que era ser uma “típica brasileira”, ou ser uma “típica carioca”. Aliás, não acho que eu seja tão “típica” assim, em nenhuma das duas hipóteses. Muita gente me pergunta: “Por que você não escreve em espanhol?” Nunca passou pela minha cabeça escrever em espanhol. Talvez porque a minha formação intelectual tenha sido no Brasil, fui alfabetizada em português. Em casa eu tinha outro mundo. Por exemplo, comecei a ler literatura hispano-americana ainda muito nova. Eu era uma “típica adolescente carioca”, mas lia (Juan Carlos) Onetti, (Julio) Cortázar, (Jorge Luis) Borges… Era pouco comum. Eu tinha referências do Brasil e do Chile, que eram de casa: música e literatura. Junta-se a tudo isso a Alemanha. Eu estudei em colégio alemão, e desde os oito anos de idade esse idioma faz parte do meu dia a dia.

Você foi estudar na Alemanha?

CS – Quando me formei em Comunicação Social, Jornalismo, eu fui fazer mestrado na Alemanha. E fiquei dez anos morando na Europa. A Alemanha foi muito importante também. Às vezes, não sei dizer o que foi mais importante: Chile ou Alemanha. Eu não escreveria se não tivesse passado por essas experiências. O título do meu livro de contos, Do lado de fora, traduz um pouco como eu me via como escritora. Esse olhar de quem está de fora, de quem não pertence totalmente. É um sentimento de sempre ser estrangeiro. Por estar olhando de fora, observando, talvez seja capaz de perceber alguma coisa que quem está “dentro” não perceba. Talvez essa seja uma marca da minha literatura, a experiência do estrangeiro.

Como fica seu afeto ao se deparar com a sensação de pairar sobre a vida?

CS – Já foi um problema bastante complicado na minha vida, por muitos anos, a sensação de não pertencer a lugar nenhum. Eu sou muito flexível, me adapto rapidamente a muitos lugares. E, ao mesmo tempo, eu nunca me senti em casa em lugar nenhum. Tudo isso mudou quando comecei a escrever, a publicar. Estreei levando a literatura a sério, com o projeto de escrever todos os dias. Quando eu morava na Alemanha, era raro eu falar em português. Mas ficou claro que eu me sentia em casa com a língua portuguesa, não importava onde estivesse. Essa foi uma construção que fiz, criei uma identidade. E esse mundo que criei é em português, onde me encontro. Quando isso começou a ser construído, essa questão de não pertencimento deixou de ser um problema. A língua portuguesa é a minha casa.

Você trabalha como tradutora de alemão e espanhol. Como conciliar o ofício de escritora e tradutora?

CS – Depende muito do tipo de texto que se traduz. Mesmo quando se traduz literatura, depende do tipo de texto que o autor está usando. Quanto mais poética for a linguagem, mais o texto exige do tradutor. Há quem diga que o tradutor recria a obra. Eu penso que não, tento me manter a mais fiel possível ao autor. Há momentos que se manter fiel pode ser um risco, pode ser estragar o trabalho. Mas não me vejo como autora quando traduzo. Sou autora quando escrevo meus livros. E quando traduzo sou tradutora, e traidora (risos).

O que mudou desde sua estreia? Consegue analisar que transformações ocorrem até a publicação do romance Paisagem com dromedário?

CS – Eu consigo, infelizmente (risos). Não renego o primeiro livro. O início do que sou agora está no Do lado de fora. É claro que, com a experiência que tenho hoje, vejo defeitos nesse livro de estreia. Mas não renego. Com todos os problemas e defeitos, ele tem algo que me agrada. Vejo esse livro como algo necessário, o pontapé inicial.

Na sua literatura, os personagens estão sempre se desencontrando, buscando uma comunicação que não se estabelece por inteiro.

CSPaisagem com dromedário se assemelha quase a uma performance, uma instalação. Há um gravador em cima de uma mesa, não tem quem fale ou ouça. O que esses livros têm em comum é a impossibilidade de comunicação, a mensagem que não chega. Essa imagem do gravador numa sala vazia no Paisagem com dromedário é a imagem da minha literatura. Assim como em Flores azuis temos a imagem da carta que chega para a pessoa errada. Temos sempre essa defasagem na comunicação, uma impossibilidade. Talvez esse seja o meu tema, que vejo como um ciclo que comecei com Toda terça e terminei com Paisagem com dromedário. Além dessa questão da impossibilidade da comunicação, são livros sobre o dizer. Como dizer alguma coisa? Em Toda terça, cada personagem monta sua versão e o leitor é aquele que monta o quebra-cabeça. A ideia do Toda terça era dizer alguma coisa através do não dito. No Flores azuis, era trabalhar essa defasagem no dizer: uma mulher apaixonada que escreve cartas para o ex-amante tentando seduzi-lo, mas as palavras chegam para outra pessoa. É como vejo a questão do leitor e do escritor. Flores azuis funciona quase como um pequeno ensaio sobre a escrita e a leitura. Quando escrevo um livro, a ideia é seduzir o leitor. Mas quando seduzimos o leitor, normalmente, é pelos motivos errados. Os livros se separam do autor, adquirem vida própria. Já em Paisagem com dromedário, escolhi trabalhar com as gravações, quase como um radioteatro: há o barulho do mar, do liquidificador, das pessoas passando… Me interessa contar fugindo da palavra escrita, buscando a forma de dizer. Essas marcações pontuam o que a personagem está narrando. Os três livros são reflexões sobre como contar uma história.

A morte está muito presente em Paisagem com dromedário: “Gosto da ideia de que a escultura já está pronta, dentro da pedra, dentro do barro, e a gente apenas a encontra. Assim como a morte, também já está pronta, desde o início seu formato definitivo dentro do barro, e a gente apenas a encontra.” Como você lida com a morte?

CS – A morte, assim como o amor, é o tema. A personagem, Érika, vive o luto em todos os sentidos, não é só essa amiga dela que morreu. Quando ela vai para a ilha e começa a repensar a morte, tem a ver como penso. A morte não existe, não é palpável. A morte é um vazio, um buraco. O que existe é o contorno da morte. E através desse contorno conseguimos ver o formato, mas o que há ali dentro é o nada. Vivemos numa sociedade que tem medo de olhar para a morte. Quando não vivemos o luto, a pessoa não morre.

E a vida?

CS – A própria vida me encanta. Com todas as tragédias e dramas, o que me encanta na vida é a intensidade. Sou uma pessoa muito apaixonada, estou dentro da vida seja para sofrer ou ter grandes alegrias. Essa intensidade permite entender que há uma compensação. Na literatura é importante entender que um autor se constrói com o tempo. O talento vai se construindo, vamos andando e fazendo o caminho…

CHACAL

“POETA MAGISTRAL”

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2010)

Chacal. Foto Tomás Rangel.Quem convive com Chacal, seja no CEP 20.000 ou nos arredores do Baixo Gávea, consegue entender que, prestes a completar 60 anos — em 24 de maio de 2010 —, o poeta carioca mantém o vigor e o entusiasmo do garoto que estreou com o livro Muito prazer, no início dos anos 1970.

Autor de 13 livros de poemas, entre os quais Drops de abril, Letra elétrika e A vida é curta pra ser pequena, em 2007 lançou Belvedere – Poesia Reunida, pela Editora Cosac Naify. Integrante de grupos emblemáticos como Asdrúbal Trouxe o Trombone e Nuvem Cigana, Chacal faz de sua poesia um dínamo para lidar com o dia a dia. Dono de uma linguagem ágil, característica da poesia marginal, movimento ao qual até hoje é associado, o poeta circula entre diversos meios sem se prender a nenhum.

No recente livro de memórias, Uma história à margem (7Letras, 2010) — motivo do encontro — Chacal faz uma revisão biográfica, registrando a convivência com artistas no Circo Voador até a criação do CEP 20.000, o Centro de Experimentação Poética que comemorou 20 anos de formação em 2010. Chacal relembra também, personagens que, ao longo de 40 anos, passaram por sua trajetória.

Em entrevista ao SaraivaConteúdo, em seu apartamento, Chacal ilustra detalhes desses episódios que marcaram a cultura brasileira, testemunhando que a busca pela melhor maneira de dizer seus poemas é uma obsessão.

Chacal – Quarenta anos da minha vida em 150 páginas? Uma história à margem foi um projeto meu de 2007 para o edital da Petrobras Cultural. Na verdade, Uma história à margem começa antes… Indo para um festival de poesia em Goiás Velho, em dezembro de 2006, encontro Augusto Massi, editor da Cosac Naify, e pergunto: “E meu livro? Vai sair ou não vai?” Seria o próximo livro da Coleção Ás de Colete. Esse livro já estava há dois anos na mão da Cosac…

Belvedere, sua reunião de poemas produzidos de 1971 a 2010.

C – Sim, a coletânea, poesia reunida, Belvedere, que foi lançado em 2007. Nessa viagem, ele me contou histórias e comecei a contar histórias sobre poesia marginal… Os primeiros fracassos da Nuvem Cigana, que gerou grandes sucessos mais à frente. Ele falou: “Por que você não coloca isso no livro? Seria interessante dar uma contextualizada…” Quando cheguei ao Rio, depois do festival, fui para a máquina e, rapidamente, deram 20 páginas de histórias… Histórias não faltam, não é? Eu já tinha vontade de escrever essas histórias. Enviei essas vinte páginas para o Massi, ele demorou um pouco a me responder. Foi o tempo para eu pensar que uma coisa iria brigar com a outra. Eu não queria que a minha poesia reunida ficasse brigando com o texto introdutório… As pessoas, de repente, iam se orientar para ler os poemas através da minha vida pregressa. Eu falei: “Não! Faço, então, uma pequena introdução para Belvedere, falando sobre o título do livro, e o texto eu guardo. Vamos fazer outro livro com essas histórias.” Ao mesmo tempo, abria o edital da Petrobras pela primeira vez para literatura, poesia e ficção. E o que precisava? Justamente 20 páginas do livro e o compromisso de uma editora para publicar. Escrevi de 2008 a 2010, dois anos foi o prazo que me deram. A Cosac demorou a me dar a resposta se iria publicá-lo, então falei com a 7Letras.

Como é rememorar sua trajetória?

C – É mais alegria que dor. Quando se passa a vida a limpo e vejo tantas coisas produzidas, mesmo em situações adversas, que foi a maior parte do tempo… Todo o período da Ditadura, muitas dificuldades financeiras e de cabeça… Conseguir passar pela história, estando vivo, contando sem ser psicografado… (risos) É um motivo de orgulho. Não só de orgulho, mas entender que valeu a pena, que se construiu alguma coisa. Não só uma obra literária, uma obra mais ampla… Se for pensar no CEP 20.000, uma área de produção de cultura, de produção de acontecimento, isso é bom.

Em 24 de maio 2011, você completa 60 anos. Como lidar com o tempo?

C – Quando eu fizer 60, vou ter a crise dos 20 (risos). Eu não sei, não tenho tempo para ficar pensando em idade, tempo. Aquelas coisas de sempre, o tempo não perdoa, como a bola, segundo Muricy (Ramalho, treinador de futebol hoje no Fluminense). Problemas de vista, pequenos problemas de ordem física, ter que usar óculos, perder óculos, e não sei o quê… Mas o resto eu me cuido.

Você é sempre rotulado como “poeta marginal”, mesmo após a publicação da coletânea de poemas em edição de luxo. Ainda se considera um “poeta marginal”?

C – Não. Costumo dizer que agora sou um poeta magistral (risos). Só para tirar uma onda. Eu não gosto dessa coisa de estigmatizar. A academia gosta muito de classificar o poeta, e coloca num escaninho, como para esquecer… Identificou, classificou, pronto. E todas as características identificadas naquele movimento passam para o poeta. Então, se sou um poeta marginal, devo escrever como se fala, distribuir meu livro de mão em mão, publicar em mimeógrafo… Não é isso. A categorização é da academia, às vezes, me preocupa querer sair desse museu. Eu sou outras coisas, sou um poeta concreto, sou um cordelista, sou um repentista, falo meus poemas… Não que eu seja contra ou tenha algum problema com poesia marginal, foi um movimento que trouxe muitas conquistas. Como o concretismo também trouxe. Não gosto de ser classificado assim, estou sempre mudando. Sei que vou terminar minha vida como vilão de teatro infantil…

Um objetivo?

C – Objetivo. A minha fantasia, meu sonho é esse…

Afinal, Chacal é um nome assustador.

C – Justamente (risos).

Seu nome é Ricardo Carvalho.

C – O Chacal veio do vôlei. Eu jogava vôlei na seleção carioca. Acabou o treino, me atrasei no banheiro, tomando banho… Quando cheguei à cantina, ali onde era ginásio do Mourisco, a turma estava comendo e bebendo: “Que onda Chacal.” Uma gíria que tinha na época, não sei mais o que quer dizer… Talvez, “onda devagar”.

Seus pais não ficaram assustados?

C – “Bicho carniceiro! O que é isso? Ricardo, um nome tão bonito…” Mas gostei da mudança, é sonoro. Na época, só tinha o meu, nem tinha o terrorista boliviano, colombiano… Hoje tem uma porção de MCs, grafiteiros.

E a Nuvem Cigana, nos anos 1970?

C – É uma história longa. A gente já tinha começado o movimento da Poesia Mimeógrafo, Poesia Marginal. Meu primeiro livro é de 1971, junto com o Charles Peixoto, ainda não havia a Nuvem Cigana. Depois, em 1973, encontrei o Ronaldo Bastos, parceiro do Milton Nascimento, em Londres. Ele falava que queria fazer uma produtora no Rio, que se assemelhasse a Apple inglesa, produzindo capas de discos, long plays, livros, shows… Voltei para o Brasil no final de 1973, o movimento de poesia independente estava em ebulição, principalmente com o Cacaso fazendo a Coleção Frenesi: Chico Alvim, Roberto Schwarz, Geraldo Carneiro e João Carlos Pádua. Naquela efervescência, escrevi outro livro, chamado América, que saiu pela Coleção Vida de Artista, que Cacaso organizava. Nesta coleção, saíram livros de Luís Olavo Fontes, Zuca Sardana, Eudoro Augusto e Cacaso. A importância da Nuvem Cigana foi que, pela primeira vez, tinha uma organização mais profissional na poesia marginal e nós mesmos cuidávamos da distribuição e do lançamento. Eram lançamentos maravilhosos, que a gente dava nome de Artimanhas. Em determinado momento a gente começou a falar nossos poemas. Mas não daquele jeito formal, parnasiano, clássico de leitura de poemas, com a voz impostada e embargada. A gente falava com o corpo todo, era uma poesia rock’n’roll.

Inclusive influenciado pela sua experiência de assistir Allen Ginsberg em Londres…

C – Justamente. Assisti Allen Ginsberg em Londres, em 1973, num festival internacional de poesia. Foi engraçado, porque tinham vários poetas de vários lugares do mundo, todos de paletó e gravata, lendo os textos. A visão de poesia sempre foi essa… Quando entrou o Ginsberg de macacão, muleta, perna engessada e barba toda desgrenhada… Eu fiquei maluco com aquilo. Primeiro ele não pegou nada para ler! Acho que ele falou um trecho de “Uivo”. Gargalhava e berrava, sabe? Depois tirou uma sanfoninha da bolsa e disse: “Vou falar um blues.” Pegou a sanfona, em pé, amparada na mesa, e começou a marcar e entoar um blues. Eu que já tinha ficado pirado com Bob Dylan em 1965, 1964, ele cantando “Like a rolling stone”. Para mim, foi a primeira vez que havia poesia falada, só que cantada. Quando vi Ginsberg, lembrei do Dylan.

Em 2010, o CEP 20.000 completou 20 anos. O que esse Centro de Experimentação Poética representa hoje?

C – O CEP 20.000 começou a partir de um projeto chamado Terças-Feiras Poéticas, do Guilherme Zarvos, na Faculdade da Cidade (hoje, UniverCidade), em abril ou maio de 1990. Ele convidava um artista consagrado: Ferreira Gullar, Antonio Assis, Silviano Santiago, João Cabral de Melo Neto, Gerardo de Mello Mourão… E no final, Zarvos, muito abusadamente, convidava um garoto, poeta, amigo dele da rua, Baixo Leblon, Baixo Gávea… Foi uma coisa ousada, uma garotada não conhecida. A turma que ia assistir o Gullar viu uma garotada. Essa mistura é sempre poderosa para cultura, cria uma soma, um atrito, que vai juntar público, dicções, tudo… Quando o projeto acabou, lá pela sexta ou sétima edição, fui convidado pelo Zarvos — que eu não conhecia — para fazer a última edição. Era a Heloisa Buarque (de Hollanda) falando dos poetas dos anos 1970 e eu lendo os poemas deles. E aí vi o Boato, um grupo que estava começando, alunos da PUC, performáticos até a medula. Eu estava ali na meia idade, com uns 40 anos…

E você continua dialogando com a nova geração de poetas.

C – Isso me traz sempre felicidade. É saber que tem sempre novas gerações com a mesma doença que tenho: a palavra escrita, falada… Eu acho que você só escreve se tem essa doença, se não tem, pode esquecer. Você precisa estar sempre cuidando da doença, (tomar) alguns remédios, (produzir) uma página por noite (risos).. O CEP tem essa contribuição de ser o primeiro palco para muitos artistas do Rio, e alguns do Brasil. As novas gerações vão chegando e ocupando o espaço delas no CEP. Acho que a gente está na quarta geração de poetas no CEP…

O que você busca na poesia?

C – Quero estar sempre começando. Outro dia, ouvi o Carlito Azevedo, uma pessoa que admiro, dizendo: “Quando estou feliz com um tipo de poema, quero ficar infeliz para começar outra coisa.” Eu venho perseguindo uma forma ótima de falar. A apresentação oral do poema é uma forma, é nela que me interesso mais. Eu e a Saraiva temos conteúdo, sabe? (risos) Um pé na Internet e outro no papel. Quero continuar escrevendo poesia, qualquer verso é bem-vindo.

CID MOREIRA

A VOZ DO BRASIL

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2010)

Cid Moreira / Foto de TomasRangelDurante 27 anos, sua voz grave e inconfundível foi responsável por informar milhões de brasileiros nos cantos mais remotos do país. A vasta carreira de Cid Moreira é lembrada não só pelo Jornal Nacional, da TV Globo, mas também por diversas locuções no rádio, cinema, além de seus comentários no final do Fantástico.

Nascido em Taubaté, São Paulo, no ano de 1927, o narrador já conta com mais de 60 anos de carreira, marcados pelo “Boa noite” que proferia aos espectadores na hora de finalizar um programa, que o credenciou como umas das personalidades mais queridas e conhecidas da radiodifusão brasileira.

Não por acaso, a expressão compôs o título de sua biografia, lançada este ano e escrita pela jornalista Fátima Sampaio Moreira. Boa noite: Cid Moreira, a grande voz da comunicação do Brasil aborda a vida do locutor desde a infância, passando pelos momentos marcantes da carreira até a atualidade, quando passou a narrar textos bíblicos. A obra traz ainda imagens do apresentador ao longo dos anos, com diversos nomes da comunicação do Brasil e histórias curiosas que ocorriam nos bastidores de seus programas.

No quintal de sua casa, no Rio de Janeiro, o casal Moreira concedeu uma entrevista com exclusividade para o Saraiva Conteúdo.

Como é rever a sua vida num livro?

CM – É uma situação inédita pra mim. A minha vida eu divido em fases. Teve a fase do rádio no interior, do rádio nas capitais, primeiro em São Paulo e depois vim para o Rio. Depois uma ligeira fase no teatro, fiz uma narração. Até que comecei na televisão. Tive fase também no cinema. Gravei um jornal que foi o primeiro a dar closes nos jogadores após o jogo, a expressão do goleiro que, por exemplo, comeu um frango. Era o Canal 100. Eu nunca imaginei isso. Com o lançamento desse livro pude avaliar a extensão daquilo que eu representava para o público. Só mesmo tendo contato corpo a corpo, como eu tive no lançamento desse livro, em que recebi carinho de muita gente pelo país todo. As pessoas vão criando cada vez mais uma lenda em torno da pessoa, do nome, da voz. Eu conheço, por exemplo, muito profissional aí com a voz muita boa, boa aparência, mas que não teve relevo nenhum. É uma questão daqueles que conseguem ter uma oportunidade e o público gosta, a pessoa passa a viver aquela fase. E o nome começa a ser construído ali.

Você começou no rádio. Fale um pouco do que significou essa escola pra você.

CM – Está tão longe. Tem mais de 60 anos. Começou lá em Taubaté. Agora, há uns dois ou três meses eu estive lá no lançamento do livro, que o prefeito fez num cinema antigo que eu frequentava quando garoto. Eu tive também a oportunidade de dar uma entrevista na rádio que eu comecei e lembrar daquela época. Enfim, é uma volta, uma regressão na história. É muito sensacional. Antigamente, as novelas radiofônicas tinham grande audiência. Eu fui narrador de uma delas. Ator mesmo, não. No cinema, eu fiz algumas pontinhas, mas tudo com relacionamento com o rádio.

Como foi a transição do jornalismo para a narração de textos bíblicos?

CM – O jornalismo foi uma fase que já passou. Hoje eu estou inteiramente dedicado à produção, divulgação da bíblia. Mensagens por telefone. Todas elas relacionadas com o conteúdo bíblico. A coisa vem acontecendo. Eu acho que o início de tudo isso foi no Fantástico. Evidentemente que o Jornal Nacional também tinha uma projeção maravilhosa. O “Boa noite”, tanto que é o titulo do livro, marcou muito. Mas eu acho que o que deu origem a essa fase minha bíblica e de narrador foi o Fantástico, porque no final do programa era feito um comentário, uma crônica, baseada em alguma matéria veiculada no programa. E aquilo marcou muito. Quando eu viajava por aí, naquela época eu não viajava muito, mas no pouco que eu viajava eu sentia um interesse do publico dizendo: “Eu não perco o final do Fantástico para ver o que você vai falar.” Aquilo ali marcou porque, o jornal, por exemplo, era um noticiário. Já o final do programa era uma fala mais coloquial. As pessoas foram vendo. Aquilo foi marcando e criando um outro caminho na profissão que é o de narrador. Então eu recebi, na época, um convite. Foi uma gravação de grande sucesso, que está fazendo sucesso nos Estados Unidos, que foi o Desiderata. Uma mensagem encontrada numa Igreja num Estado dos Estados Unidos. O narrador lá foi o famoso, falecido ator, Anthony Queen. E fizeram uma versão aqui e essa gravação foi produzida pela Som Livre. Eu fiz a gravação, depois o primeiro clipe também que eu fiz, que foi um sucesso, para o Fantástico. E aí os convites foram acontecendo. Depois gravei para as irmãs paulinas, umas quatro produções, oração número 1, número 2 e tal. Depois também tive um contrato com a Warner Continental. Fiz duas produções lá. Quando eu deixei o Jornal Nacional foi lacuna aberta. ”E agora, o que eu vou fazer?” Fiquei 27 anos. Aí surgiu um convite para gravar o Novo Testamento. Gravei o Novo Testamento na íntegra. Foram 23 CDs. A que realmente arrebentou foi o lançamento Passagens Bíblicas. Esses CDs foram lançados em bancas de jornal por um preço inferior e numa época áurea do CD. Então foi aquele estouro. Foram vendidos mais de 30 milhões de CDs.

A Bíblia sempre foi presente na sua vida?

CM – A Bíblia sempre foi presente, mas de uma maneira não tão dedicada como agora. Era uma curiosidade. Eu acho que há ate uma predestinação nisso. Quando eu era garoto, no interior fazia mais frio do que aqui no Rio, o pessoal acabava de almoçar e ia pro quintal, minha mãe, minhas avós, meus irmãos, chupar laranja ao sol. Tomando aquele solzinho para esquentar. Aí eu pegava a Bíblia e começava a ler provérbios. Aquilo estava ali, latente. Então com a minha carreira evoluindo, passando daqui para lá, de um lugar para outro, do rádio para a TV, aquilo estava lá. E de repente brotou. É como se fosse uma sementinha que estava lá e com o tempo ela brotou.

O que você faz para cuidar da voz?

CM – Eu usava o sal marinho. Eu tinha um tubinho de madeira que eu batia e dava uma lambidinha no sal. Eu usei isso durante um tempo e vários colegas vinham me pedir uma pitadinha. Isso na fase do rádio. Um dia, eu apresentava o programa de uma cantora, Elizete Cardoso, falecida, excelente cantora, considerada a diva da música popular brasileira. Ela falou: “Cid, há muito tempo eu uso cravo da Índia.” Ele é meio ardidinho. Usa muito em doce. Comecei a usar e gostei. Eu tinha sempre um cravinho, deixava entre o dente e a bochecha. Usei ali por um tempo e todo mundo vinha me pedir um cravinho. Deixava a voz mais limpa. Até que de repente eu peguei uma gengivite danada. Aquilo irritou a gengiva. Eu parei com o cravinho. Sugeriram o gengibre. É muito bom. De vez em quando, eu costumo mastigar um pedacinho de gengibre.

A sua biografia cita algumas das suas leituras da infância, como Monteiro Lobato. Fale um pouco sobre isso.

CM – O meu pai era bibliotecário no colégio. Quando faltava um professor, eu ia para a biblioteca e ficava lendo esses livros. Tesouro da juventude, tem muita coisa boa. E um outro livro, que até tenho um exemplar dele, tem mais de 100 anos, Manual de saúde, ainda com a ortografia antiga. Quando eu tinha resfriado, eu procurava saber a causa, como se prevenir daquilo, alimentação, o que fazia bem, o que não fazia. Até hoje eu tenho essa mania. Eu parei de comer carne aos 30 anos. E estou aqui. Todo mundo diz assim: “Não vai comer carne? Vai ficar anêmico”. Comigo não aconteceu nada. Pelo contrário. Eu tenho uma disposição.

Você citou a Elizete Cardoso. O que você ouve de música? Que cantores te agradam?

CM – Às vezes, eu ouço disco antigo, com aquele som bem fraquinho, sem qualidade. Mas eu gosto, de maneira geral, de som muito bom. Agora mesmo, fizemos uma viagem lá fora, no exterior, e assisti a uma peça do Michael Jackson. Eu fiquei até emocionado com o som do teatro. Muito bom. Eu curto isso. Um bom som, graves e agudos e num volume aceitável. Às vezes, você vai assistir a um show, já aconteceu comigo, que eu sou obrigado a tapar o ouvido, devido ao excesso no volume. O som não pode agredir o ouvido.

No início, quando você começou a trabalhar no rádio, existia alguma voz que era referência?

CM – Sempre houve. Qualquer profissional, se o cara disser que não, está mentindo. Se você está numa determinada profissão você sempre pauta o seu pensamento no profissional que você admire e, sem querer, você começa a imitar o cara. Eu tinha uns 12, 13 anos, nem pensava em rádio. Ele fazia um “Boa noite”, dedicava sempre a alguém de projeção. Carlos Frias. Ele foi deputado aqui no Rio e depois teve um estúdio de gravação. Eu gravei muito no estúdio dele, fiquei amigo dele Ele dedicava sempre um “Boa Noite” a alguém: “Fulano de tal, boa noite.”

Como foi escrever a biografia do Cid Moreira?

FSM – Já teve oportunidades, até de pessoas muito conceituadas, de fazer a biografia dele. E ele ia adiando por causa dos compromissos dele. Um dia, a gente estava aqui no estúdio e um amigo em comum estava com a gente e o Cid viu no e-mail dele mais uma proposta de uma editora para fazer o livro. Aí esse amigo falou assim pro Cid: “Por que a Fátima não escreve o seu livro? Ela é jornalista.” Mas eu sou jornalista e escrevo para revista. Passei muito tempo em rádio, não faço ideia de como se escreve um livro, não tenho essa noção. Aí o Cid virou para mim brincando e falou: “Ih, achei minha autora.” Ele falou: “Vai ser bom.” Primeiro, porque ele gosta do meu texto, do meu trabalho. Eu trabalho junto com ele aqui, me conheceu trabalhando, fazendo entrevista com ele. E depois ele achou interessante por causa da falta de tempo dele. Se for uma pessoa de fora, ele vai ter que ficar disponibilizando tempo, uma coisa mais formal, mais complexa. E comigo a gente fez um esquema muito legal. Eu tinha toda a liberdade para pesquisar. Eu tenho dez anos com ele, então já algumas histórias eu sabia, por causa do relacionamento, ele vai me contando, infância, juventude e tal. Com um olhar de marido, é muito interessante. Aí eu fiz uma sequência mais ou menos do que eu tinha aprendido da historia dele e a gente foi recheando com dados mais concretos da história do jornalismo e da comunicação do país, as pessoas que cercaram ele nesse período. As transições importantes. Na era de ouro do rádio, que era o máximo, as pessoas nem queriam nada com televisão, era uma coisa muito incipiente ainda. E na infância, que não tinha televisão. Cinema era tudo, rádio era tudo também. Aquelas seções, shows de rádio aos sábado com as pessoas de longo e de chapéu, de luvas. É uma historia muito rica. E hoje ele está no Twitter, no Ipad, mandando e-mail de voz. Ele não precisa sair de casa, do estúdio para trabalhar. Ele grava em casa e manda para o mundo, para qualquer lugar, todas as agências para onde ele trabalha. Grava milhões de coisas, manda mensagens, está super moderno. Ele é um homem que acompanhou o tempo dele.

Como é estar casada com o Cid Moreira, uma pessoa que é referencia em comunicação, uma voz conhecida no Brasil inteiro?

FSM – Têm dois lados. Do portão aqui para dentro de casa não tem ninguém famoso, importante, conhecido, não. É o Cid, meu marido e eu a Fátima, esposa dele. É muito legal. O convívio faz perder, graças a Deus, essa coisa de ficar lembrando toda hora de que ele é conhecido. Quando a gente sai na rua não tem jeito. Pode ser no supermercado aqui perto que a gente vai uma vez por semana, ele gosta de fazer super mercado, compras as coisas que ele gosta. Vai ter alguém comentando, chegando e fazendo um carinho, comentando qualquer coisa, não passa indiferente. Mas aqui em casa, não. É uma pessoa. No começo, é uma fantasia. A gente se apaixona por um ideal interno. Acontece com todo mundo. Depois você vai convivendo com a pessoa e vê se aquilo é amor. Tem orgulho. É muito mexido, uma emoção muito interessante. Já chegaram a falar assim para mim: “Cuida bem dele porque ele é patrimônio nacional.” Mas ele é meu marido. É claro que eu cuido dele. É muito estranho isso. Eu não faço mal nenhum para ele. Ao contrário.

O que de mais surpreendente você se deparou ao fazer esse trabalho?

FSM – Uma coisa que eu acho muito interessante é a extrema timidez. Era um garoto tão tímido que quando era pequeno foi proibido de jogar bola porque quando foi fazer o exame médico da educação física, ele ficou tão angustiado de se ver nu perto do médico que o coração disparou e o medico deu arritmia para ele. Disse que ele tinha problema no coração. Ele não pôde praticar esportes na escola por causa disso. Corria que nem louco na rua, aprontava para caramba, mas na escola não podia praticar porque tinha problema cardíaco. E era só uma extrema timidez que acompanhou ele durante muito tempo. Até agora, quando ele vai falar em publico, dá tremor, fica preocupado, fica ansioso. Quem viu o Cid no Jornal Nacional não podia imaginar a ansiedade antes e depois, o medo dos erros, a expectativa de estar sendo visto por milhões. Um homem de comunicação para milhões é uma pessoa extremamente tímida e fechada, caseira, na dele. É uma contradição. Não gosta de festas, não é um cara de badalações.

Você pretende continuar esse trabalho, escrever um próximo livro?

FSM – Eu acho que é muita arrogância da minha parte. É muita pretensão. Foi por amor, não tive intenção nenhuma de me promover como autora. Claro, ninguém é inocente. É fascinante. Mas foi um risco muito grande. Eu gosto de ler. Conheço autores. Lya Luft, amo, Raquel de Queiroz. É muita gente boa. E eu escrevendo, metida. Eu achei muita arrogância, muita pretensão minha. Vou parar por aí. Espero que as pessoas curtam e gostem. Não é a minha praia. Eu tenho outras pretensões na vida. Quero fazer só projetos sociais, amar e cuidar do meu marido e as minhas coisinhas diárias, uma ioga e tal. Não tenho pretensão nenhuma para nada mais. Surgiu por um amor a ele.

CRISTOVÃO TEZZA

RINDO À TOA

Por Ramon Mello e Bruno Dorigatti (SaraivaConteúdo – 2009)

 

Cristovão Tezza / Foto de Tomas RangelEntre risos e gargalhadas, Cristovão Tezza falou sobre seu ofício literário, que começou nos anos 1980, em Curitiba, cidade que o catarinense de Lages habita desde os 7, 8 anos, quando perdeu o pai. De um mundo de “paisagem do Cebolinha” à uma cidade fria (no clima e nas pessoas), que não tem Carnaval, como ele mesmo define, aos poucos, foi criando relação com ela, se entranhando no seu jeito curitibano. Em 1988, foi publicado Trapo, pela editora Brasiliense, livro que abriu espaço para o escritor e conta com um curioso posfácio de Paulo Leminski, “que praticamente convida o leitor a não ler aquele livro. Felizmente, é no fim, daí você já leu”, como nos conta Tezza nessa conversa.

O escritor ficou conhecido nacionalmente no ano passado, quando O filho eterno (Record, 2007) arrebatou os prêmios mais importantes do país — o Prêmio São Paulo de Literatura, o Portugal Telecom de Literatura, o Jabuti, o Prêmio Bravo!, e o da Associação Paulista dos Críticos de Arte. Desde então, tem tido pouco tempo para se dedicar ao novo romance, que tem o título provisório de Um erro emocional e teve um trecho lido durante a última Festa Literária Internacional de Paraty (veja ao final da entrevista), onde Tezza participou da mesa ao lado do mexicano Mario Bellatin. “Mas eu preciso de tempo para me concentrar, agora no segundo semestre de 2009 realmente vou conseguir escrever. Faz um ano que estou vivendo só de fama (risos). Escrever que é bom, nada”, admite.

Recentemente, Tezza viu-se enredado na polêmica questão dos livros indicados a estudantes. A história que começou com um álbum de quadrinhos, indicados para crianças, quando continha conteúdo para adolescentes, por conta do baixo calão e de termos obscenos, seguiu com uma coletânea de poesia e um livro do poeta Manoel de Barros, também com a indicação equivocada de faixa etária. Até aí, tudo bem, uma questão de idade, já que crianças não estão em tempo de lidar com certos temas. A coisa modifica-se, porém, quando se trata de adolescentes a partir de quinze anos, que já têm discernimento para lidar com temas e linguagens mais ásperas, digamos.

Foi o que aconteceu com a graphic novel de Will Eisner, Um contrato com Deus e outras histórias de cortiço (Devir, 2007), acusada de apresentar cenas de violência doméstica e insinuações de pedofilia, no áspero e brutal retrato que Eisner faz da Nova York dos anos 1930, na rebarba da crise de 1929, supostamente impróprias para jovens. E com o romance de Tezza, Aventuras provisórias (Record, 2007, 2ª ed.), indicado para o vestibular em Santa Catarina, mas considerado por uma auxiliar pedagógica de ter linguagem chula, discurso logo encabeçado por alguns pais de alunos. Em entrevista à Agência Brasil, Tezza disse que “a escola tem muita dificuldade em lidar com literatura, com a vida real da linguagem. O Brasil é um país conservador. O caso de Santa Catarina chamou a atenção porque foi uma reclamação pontual e o Estado imediatamente mandou recolher todos os exemplares. Foi uma coisa exagerada. Até porque o livro era para o ensino médio, que tem estudantes acima dos 16 anos. Se podem dirigir ou votar, podem ler também”. O escritor não vê o caso como censura. “São manifestações isoladas de conservadorismo, visões retrógradas da literatura, que pipocam aqui e ali. Não é sistêmico”, acredita. A respeito escreveu a coluna “Não me adotem”, na Gazeta do Povo, de Curitiba, onde colabora toda terça-feira.

A seguir, na entrevista realizada em Paraty, durante a Flip, o escritor fala ainda de outros assuntos, como o seu começo no teatro, como iluminador de Denise Stoklos e depois como ator, a relação com o leitor, que, enfim, se fez presente para Tezza, quando passou a escrever para jornal, e a necessidade de inadequação para se levar a sério neste ofício.

Curitiba é muito presente nos seus livros. Como é essa relação da cidade na sua literatura?

Cristovão Tezza – Dois motivos: Curitiba é uma cidade bastante diferente no panorama brasileiro. Eu cheguei à cidade em estado de choque porque meu pai tinha morrido — eu tinha sete, oito anos. Saí do mundo da “paisagem do Cebolinha”: aquelas casas na rua e amigos, e de repente fui morar em Curitiba, em 1961. Uma cidade fria, que eu não conhecia ninguém. Então foi um impacto a chegada a Curitiba desde criança. E depois você vai entranhando naquele jeito curitibano, para dar uma definição: uma cidade que não tem Carnaval [risos]. Você vai criando uma certa relação com a cidade. E por ela eu também fui descobrindo um registro da minha literatura. Eu lembro quando escrevi o Trapo, em 82, foi a primeira vez que comecei a usar a cidade como espaço geográfico, como cartografia, dar nome de rua, dar nome de espaço. Era coisa que me intimidava antes, criar esse vínculo com uma microrrealidade. Isso acabou me dando uma dimensão para meu tipo de texto que trabalha com esse registro espacial bastante preciso. E é uma forma de criar uma relação de intimidade entre personagem, autor e leitor com um determinado espaço geográfico concreto. E que não tem importância nenhuma se o leitor conhece ou não o espaço. Mas ele sente essa aura, você está falando de uma atmosfera vivida, intensa.

Sobre essa relação da realidade com a cidade: quando você publicou Trapo (Brasiliense, 1988. 1ª ed.; Record, 2008, 7ª ed.), o poeta Paulo Leminski se identificou com o personagem Paulo…

CT – Essa é uma histórica anedótica (risos). A Brasiliense na época resolveu… Porque levei muito tempo para publicar o Trapo, escrevi em 82 e levou seis anos: foi recusado por editoras, perdeu concurso e tal. Até sair finalmente em 88. Aqueles eram tempos duros para quem escrevia, hoje é mais fácil. Quando o livro saiu, sem nenhum aviso prévio, eu vi lá: posfácio de Paulo Leminski, na capa.

Na época, você levou quase um mês para ver o livro…

CT – Exatamente. Havia uma greve de Correios, em julho… Vi primeiro alguma referência no jornal, acho que o Estadão botou que saiu o livro com posfácio de Paulo Leminski. Fiquei curioso: “De onde saiu isso?”

O Leminski falava mal do livro…

CT – Exatamente. É um caso único na literatura brasileira que se tem um posfácio que praticamente convida o leitor a não ler aquele livro. Felizmente, é no fim, daí você já leu (risos). Algum tempo depois acabei encontrando o Leminski, com quem eu não tinha propriamente intimidade, vi o Leminski raras vezes na vida. Ele era de outra geração, pertencia a mundos diferentes. E ele confessou, bebendo cerveja: “Eu achava que o Trapo era eu” [risos]. De certa forma, teve uma chave para a leitura. Anos depois, saiu uma edição das cartas do Leminski, muito interessante. Curioso era que as cartas do Trapo tinham relação com o jeito do Leminski escrever, alguns traços estilísticos.

Você o conheceu?

CT – Conheci duas ou três vezes. Ele era uma referencia obrigatória no final dos anos 70, principalmente em Curitiba. O próprio Leminski pichava os muros, botava assim: “Pau no Leminski” (risos). Era um performático de alto estilo, Leminski era uma figura engraçada. Lembro que Catatau (Edição do autor, 1976) foi um impacto quando ele publicou. Eu era de uma geração mais nova, mais insipiente também. Eu estava em processo de aprendizagem. Os anos 70 eu acompanhei de longe, nunca fui precoce literariamente. Minha literatura amadureceu mais tarde. Essa é uma história anedótica, não tem importância nenhuma [risos].

Em 1975, você publicou o seu primeiro livro: Gran Circo das Américas (Brasiliense). Não é isso?

CT – Isso. Foi um livro que saiu na Coleção Jovens do Mundo Todo. Foi um acidente. O surgimento desse livro foi muito engraçado: eu vivia na comunidade do Wilson Rio Apa, que era um mestre e guru de teatro. Eu escrevia os primeiros contos de A cidade inventada e o Rio Apa disse assim: “Você não sabe escrever diálogo, seus contos não têm diálogos. Você não domina o diálogo!” Eu levei aquilo a serio e escrevi o romance Gran Circo das Américas, é quase inteiro dialogado… (risos) Tem muita conversa, muito teatral. Foi uma coisa que me afinou o ouvido, o teatro me ensinou muita literatura.

Você fez teatro?

CT – Fiz teatro. Nessa época eu fazia teatro. Primeira atividade minha: fui iluminador de uma peça de Denise Stoklos [risos]. No final dos anos 60, em Curitiba tinha uma efervescência muito boa: o grupo da Denise Stoklos, o diretor Ary Pára-Raios, o próprio Rio Apa com a comunidade de teatro dele… Era uma época de grandes utopias, transformações. Denise até hoje faz o teatro essencial, pelo título é próximo ao imaginário que a gente vivia no final dos anos 60. Rio Apa fazia teatro popular sem texto, teatro de rua. Eram uns lances assim, curiosos.

Como aconteceu a transição do ator para o autor?

CT – Comecei poeta, como todo mundo escrevendo poesias, imbuído daquele espírito… Nos meus 15, 16 anos eu já trabalhava num escritório, foi o grande erro que cometi em minha vida: aprendi datilografia com os dez dedos. Fui fazer demonstração em casa: “Falem o que vocês querem que eu escrevo com uma venda nos olhos.” Minha mãe me pegou pelo braço e me arranjou um emprego no dia seguinte [risos]. Fui trabalhar com um advogado, naquele tempo, meio expediente. Trabalhei no escritório do Dr. Blege, no centro de Curitiba, das duas às seis. Era um trabalho leve, batia contratos, não era exploração de trabalho infantil [risos]. Depois acabei me envolvendo com declamações de poesias, encontros poéticos que tinha do DCE. Eu nem era universitário, mas ia ver toda aquela agitação estudantil. Acabei me envolvendo com um grupo de teatro, conheci a Denise Stoklos e depois o Wilson Rio Apa… E pedi demissão e comecei a trabalhar em teatro. Inclusive, escrevi peças de teatro que foram montadas na época. E, paralelamente, mantinha meu projeto literário. Incrível, escrevi três romances entre os 18 e os 22 anos — todos imprestáveis, depois joguei tudo fora.

Você tem mais de dez romances publicados?

CT – Publicados, sim. Era uma época de grande densidade. Não tinha muita pressa, era um tempo diferente do tempo de hoje. Não dá para comparar. Era tudo uma coisa de longo prazo, muito introvertida, muito para dentro. Esse livro foi o exercício de diálogo, Gran Circo das Américas, que foi publicado. Para a segunda edição, a editora queria que eu cortasse um parágrafo, o Caio Graco Prado [editor da Brasiliense]. Estavam reclamando de uma cena de um casal se beijando, naqueles anos 70. Eu tive um ataque de fúria e disse que não ia cortar nada no meu livro. E nunca mais teve segunda edição para a felicidade de todo mundo, inclusive dos leitores [risos]. Encerrou minha carreira de autor juvenil. Publiquei depois aqueles contos iniciais e A cidade inventada, escrevi O terrorista lírico e Ensaio da paixão, que é um livro mais maduro, relançado no final dos anos 90, pela Rocco.

Seu livro último, O filho eterno (Record, 2008), ganhou quase todos os prêmios de 2008. Como é lidar com essa “revelação” a partir de um romance?

CT – É muito engraçada essa questão da lentidão da literatura. Um livro que me projetou nacionalmente, digamos, foi o Trapo em 88. Teve uma repercussão crítica maravilhosa na época, eu passei a ser uma referência no meio literário. Mas, assim, aquela referência difusa. Lá no fundo você sabe que existe um cara em Curitiba que escreve romance. Cada livro você aparece um pouco e depois desaparece por mais dois anos, lança outro livro e tal… O filho eterno realmente foi um estouro, me surpreendeu. Eu sabia que era um livro que ia ter algum impacto pelo tema, mas eu estava me preparando para levar pau da crítica. Achei que eu fosse ser soterrado. Você vê que escritores são seres mesquinhos, pensam logo o pior das pessoas (risos). E, na verdade, foi um livro muito bem recebido, literariamente inclusive — esse era o temor que eu tive, que não fosse lido como de fato é: registro ficcional sobre dados biográficos meus. E depois, lá fora, começaram a surgir traduções, isso me abriu muito caminho.

Você costuma dizer que é O filho eterno (Record, 2008) é um livro confessional e não autobiográfico…

CT – Eu digo que sou um escritor confessional. O único livro que trabalhei biografia é esse. Todos os outros não têm dados biográficos nenhum, mas têm a estrutura de confissão. Quer dizer, textos que se articulam, a apropriação da linguagem narrativa é de alguém que se confessa ao leitor e conta sua história: Juliano Pavollini, Uma noite em Curitiba, Breve espaço entre cor e sombra… O próprio Trapo tem o professor Emanuel, as cartas. Digamos, é um registro literário meu, desse processo confessional, embora não biográfico. Nesse livro (O filho eterno) não, eu juntei as duas coisas. Ele confessionalmente é até mais distante, um livro em terceira pessoa — foi a grande chave técnica do livro porque não me envolvi. A terceira pessoa me deu liberdade para lidar com o narrador. Eu trabalho escancaradamente com dados biográficos: eu tenho um filho com síndrome de Down e esse é o tema central do livro.

Você já está trabalhando no próximo livro?

CT – Estou, esse livro já está com 30 páginas e vendido para a Record. Na Flip, vou ler um trecho do próximo romance, preferi ler esse livro ao O filho eterno.

Qual o título do novo livro?

CT – Por enquanto, Um erro emocional — um título provisório, como todos os meus títulos. Mas eu preciso de tempo para me concentrar, agora no segundo semestre realmente vou conseguir escrever. Faz um ano que estou vivendo só de fama (risos). Escrever que é bom, nada.

Você declarou que escrever crônicas em jornais mudou a sua relação com o leitor…

CT – É verdade. Aliás, de certa forma, descobri uma coisa que eu como escritor nunca tinha pensado a respeito: existe um sujeito chamado leitor [risos]. Você quando escreve um romance não tem leitor nenhum na cabeça. Meu leitor sou eu mesmo, escrevo o livro que gostaria de ler. É essa relação pessoal com o próprio texto, você não está nem aí para o que o leitor vai dizer. Num texto para jornal — comecei faz um ano que escrevo na Gazeta do Povo, em Curitiba, na página três, toda terça-feira — a figura do leitor aparece brutalmente. O jornal não é um espaço estritamente literário, só seu, é uma sala de visitas dos textos. Você está com um monte de gente, tem uma relação direta com o leitor, que é inescapável. Você não pode dar uma de autista e fingir que não tem ninguém lendo. E a resposta do leitor do jornal é imediata, às sete da manhã você recebe um e-mail comentando ou falando mal ou discordando. O leitor se sente no direito de comentar imediatamente o que se diz no jornal. E o jornal trabalha com o pressuposto da verdade, que é uma coisa interessante, não propriamente o registro ficcional. Mesmo quando você faz um registro de ficção numa crônica, ela é atravessada por essa leitura do leitor. Então, é uma experiência muito interessante. Você pode escrever tudo na crônica até certo ponto, mas não de qualquer modo. Não vai encher um texto de palavra. Aquela liberdade absoluta que se tem na ficção, ela tem restrições num texto de crônica de jornal. É um tipo de pragmatismo de texto, ele está no meio do caminho. Pode usar registro literário eventualmente, mas nunca se entregar totalmente a ele. Pode usar um registro informativo, opinativo. Mas a literatura sempre deixa um pé, um rastro, por marcas de estilo e linguagem. É um exercício interessante, a crônica.

Há diferenças entre o processo de criação de um texto de crônica e um texto de ficção?

CT – É diferente. Tem um aspecto psicológico, na crônica nunca me entrego completamente por essa objetividade. Ao pensar no leitor eu já estou me limitando, tem quase que uma função didática. Tem uma restrição prática no texto da crônica, ela tem um traço utilitário. E na literatura isso está completamente ausente, não existe. Literatura é uma viagem às cegas num buraco negro que você entra e não sabe como vai sair do outro lado. A crônica, não, tem que saber até o número de toques: 2.800. No meu texto ainda tem que ter uma unidade interna, não pode simplesmente começar a escrever e interromper. É muito interessante, o escritor domesticado (risos).

Na ficção, você tem horários para escrever?

CT – Eu sou bastante organizado com isso. Não consigo escrever numa segunda-feira à tarde e daí passar uma semana e meia sem fazer nada, e na quinta-feira da outra semana de manhã escrevo mais um… Para mim tem que ser diário, por isso eu parei completamente (o novo romance). Porque não estava conseguindo essa continuidade. Já escrevi em vários horários: de tarde, de madrugada… Eu lembro do Trapo, no tempo que minhas crianças eram pequenas, só minha mulher trabalhava fora, eu ficava em casa e trabalhava de madrugada. Então, às dez da noite, que é a hora do silêncio total do mundo, inclusive das crianças, eu escrevia o livro. Agora estou gostando de trabalhar de manhã, acho que é coisa de velho (risos). Acordar cedo, cinco ou seis horas de sono e não passa disso, a cabeça ainda está muito boa. Das sete às dez é um horário maravilhoso para escrever.

Que autores você carrega como referência para sua escrita?

CT – Eu não sei. Sou um leitor do livro, leio de tudo. Eu tenho lido muito profissionalmente também. Ou participando de júri de concursos ou escrevendo resenhas para jornais e revistas.

E que é uma leitura completamente diferente.

CT – É diferente, ler objetivamente. É um semiprazer. É sempre bom ler, mas, às vezes, você está lendo só para ter que fazer um texto. Eu estou fazendo umas leituras laterais, de história e filosofia, que não são propriamente leituras ficcionais. Estou sentindo que estou gostando de enveredar por um tipo de linguagem de ciência, de historiografia particularmente, que me interessa bastante. É uma época da minha vida que quero mergulhar nisso aí. Quando escrevo, não, quando estou fazendo literatura é toda história da minha vida de escritor que está escrevendo. Sempre digo que o texto sabe mais do que eu. Por exemplo, o livro O filho eterno me ensinou isso, eu estava com uma visão muito limitada dele, até que eu disse: mesquinha. Eu percebi que escrevi um livro muito maior do que eu. Tem coisa ali que foi a minha história que escreveu, não foi aquele provavelmente sujeito que estava dizendo opiniões e colocando visões de mundo. Isso para mim é maturidade literária.

O que é necessário para ser escritor?

CT – Talvez eu puxe muito a sardinha para a brasa da minha geração: um certo sentido de inadequação. Para o sujeito se perguntar: “Será que não tem uma coisa normal que eu possa fazer?” [risos] Se ele se sentir bem no trabalho, como médico, advogado, ótimo. Fique aí, tem coisas boas e sólidas para se fazer. Se você tiver o sentido de inadequação, que é fundamental na arte — a arte é justamente esse contradiscurso —, aí sim, vá de cabeça, e veja até aonde aguentar o tranco. O Sérgio Rodrigues tem uma frase que eu acho uma ótima pergunta para se fazer: “Você é capaz de desistir de escrever?” Se for capaz, desista, faça outra coisa (risos). Se realmente não der jeito, vá em frente. E também mudou o panorama: aquela visão meio messiânica, que a minha geração tinha nos anos 60 e 70, a atividade artística como uma missão que você cumpre no mundo, aquela coisa em que você é o grande herói… Isso, nos tempos mais pragmáticos de hoje, mudou. A própria relação da sociedade com a literatura e da literatura com a sociedade tem um nível um pouco mais tranquilo e menos angustiado. Parece que a atividade artística está muito mais integrada no mundo social do que aquele desajuste social que era essencial no final dos anos 60.

> Leia um trecho de Um erro emocional, novo livro de Cristovão Tezza, que deve ser lançado em 2010

Eu tive uma boa infância, ele quase disse, mas então a imagem de seus cinco anos voltou bruta à memória. A porta do quarto aberta e ele vê, quase como um ensaio, como se todas as noites eles repetissem os mesmos gestos de modo a aperfeiçoá-los — o pai na sombra, com a rigidez de um militar (havia algo de militar em seu pai); e a mãe na luz, aquele belo e ostensivo rosto na luz, o desafio na ponta do queixo, brevemente erguido, os olhos de gelo; estão a meio metro um do outro, e ela diz: ê isso mesmo. E daí? O menino lembra que se passaram alguns segundos, como se o pai tentasse recapitular o que ele teria de fazer naquele momento de ensaio, a equipe de filmagem na sombra à espera; mas certamente todas essas camadas de interpretação foram se sobrepondo nos quarenta anos seguintes, de modo que o que de fato aconteceu não importa mais. Ele viu o braço do pai se erguer e ouviu o tapa no rosto da mãe — um tapa em cheio, à mão aberta. Era como se não houvesse fúria, como se não fosse um gesto desesperado de alguém que se lança compulsivamente ao erro, para depois arrepender-se até o último dia do que fez; ao contrário, era como se ele conquistasse aquele momento duro para então ter o que fazer o resto da vida — pensar sobre ele; o corpo do pai, aquela retidão de gesso, a coluna empinada, a sombra daquele queixo também erguido na mesma esgrima mental diante do desafio do olhar dos outros, o corpo do pai praticamente não se moveu – apenas o braço, como um exercício a mais de todos que ele fazia, o cuidado de Narciso com os próprios músculos, às vezes ao espelho.

 

DIANA DE HOLLANDA

OS BASTIDORES DA ESCRITA

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2009)

Diana de Hollanda é escritora, poeta e diretora teatral. Também já teve vontade de ser atriz, até descobrir que a timidez a levaria ao recolhimento necessário para refletir sobre sua produção literária/teatral, nos bastidores.

Diana lida com essas diferentes personas, enfrentando conflitos e escolhendo linguagens, sem limites. Dois que não o amor (7Letras), seu primeiro livro de poemas, lançado em 2007, pode ser lido como um pequeno e intenso romance, recheado de referências literárias e cinematográficas — o cinema também é uma paixão da poeta.

“Há quem prefira impor e se impor limites. Quanto a mim, não consigo, nem quero, me tachar assim ou assado. Meu próximo livro é de fragmentos. Se eu disser que é poesia vão falar ok. Se eu afirmar é prosa, vão dizer ok também (risos). Para mim, chamar de texto é suficiente.”

Se ela acredita no amor? “Não duvido.” Ela acredita na palavra como oxigênio: “Escrevo para respirar melhor.” Essa conversa numa ruela do Catete (RJ) e a produção exposta em seus blogs (são mais de três) comprovam essa relação (afetiva?) com as palavras. Vide o título de um deles: Não proferir palavras em vão.

“(…) daí você poderia me perguntar: ‘Mas quando não é em vão?’ E eu não saberia te responder”.

Você é poeta e diretora de teatro. Como iniciou essa trajetória?

Diana de Hollanda – Aos nove, comecei a CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), depois passei pelo Tablado e, enfim, entrei para a Unirio, onde me formei em direção teatral. Também escrevo desde cedo, porque, como no colégio não conseguia prestar atenção às aulas — achava o sistema de ensino entediante, massacrante —, para não dormir, passava o tempo escrevendo.

Então, inicialmente, você queria ser atriz?

DH – É. E também escrever. Aliás, esse último lado sempre foi mais perceptível. Tanto que, na época do vestibular, os meus colegas afirmavam “você vai fazer Letras, né?”, mas eu nunca tinha pensado em fazer Letras porque achava que isso poderia me afastar da literatura.

Por quê?

DH – Porque… Hum, é complicado de explicar porque é bem idiossincrático. Deixa eu dar um exemplo: depois de completar metade do curso de cinema na UFF (Universidade Federal Fluminense), não só chutei o balde e larguei a faculdade, como fiquei um ano sem conseguir ver filmes. Acho que, intuitivamente, eu desconfiava que se cursasse Letras poderia ficar de saco cheio a ponto de não querer mais escrever. Tem a ver com confundir ambiente, pessoas, estudos e a coisa em si. Confundir não é difícil, aliás, acho que agora estou um pouco confusa (risos). Mas apenas três considerações. A primeira: na época do vestibular, eu achava que precisava estreitar e reafirmar o vínculo com o cinema e o teatro, e não sentia essa necessidade em relação à literatura. A segunda: a principal razão de ter abandonado cinema foi o curso de direção, com o qual estava muito envolvida — e não me sentia capaz de levar os dois ao mesmo tempo. A terceira: contrariando tudo o que disse acima, hoje até que me agrada a ideia de fazer mestrado em letras.

Há quem diga que quando o ator pensa demais ele desiste de ser ator…

DH – É, parece que sim (risos).

Como surgiu seu interesse por direção teatral?

DH – Na Unirio entrei como atriz, mas já querendo dirigir. Lá a prova é interna, não tem vestibular direto para o curso de direção, ao contrário da UFRJ (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). Optei pelo caminho mais longo porque na Unirio eram no máximo quatro alunos por turma — e, considerando o que te disse sobre a dificuldade de prestar atenção às aulas, achei esse caráter intimista significativo. Descobri que devia seguir na área de direção porque enquanto interpretava, pensava “nossa, está uma merda”. Daí cada vez fui ficando mais tímida. Não sei se tímida é a palavra. O fato é que fui ficando com vergonha da exposição, do palco. Não dava para ser atriz assim. Mas ao mesmo tempo eu precisava — preciso — do teatro, então tinha que entender qual era o meu lugar. Mas sei também que os lugares mudam. Ainda que continue me parecendo muitíssimo remota, não desconsidero a possibilidade de um dia atuar. Da mesma forma, acho que só sou diretora quando e se dirijo.

E a escrita?

DH – Também é um lugar constantemente em crise (risos). Minha mãe tem uma relação forte com as palavras — cresci e continuo envolvida por muitos livros, para o desespero de minha alergia —, e meu irmão do meio, que sempre foi uma referência para mim, é jornalista, então o interesse surgiu naturalmente.

Havia uma predileção entre prosa e poesia?

DH – Não. Nem há. Os primeiros livros de que participei foram de contos, mas o primeiro livro que lancei foi de poesia.

E como é essa definição? Ainda há essa separação: fulano é poeta, sicrano é escritor, beltrano é contista…

DH – Há quem prefira impor e se impor limites. Quanto a mim, não consigo, nem quero, me tachar assim ou assado. Meu próximo livro é de fragmentos. Se eu disser que é poesia vão falar ok. Se eu afirmar é prosa vão dizer ok também (risos). Para mim, chamar de texto é suficiente.

Quando li o livro Dois que não o amor (7letras, 2007), entendi como uma história só… Como foi o processo desse livro?

DH – Começou com poemas esparsos. Alguns vinham de longe, dos meus dezessete anos. Claro que os retrabalhei. O livro ficou pronto quando fiz 21, mas esperou Godot durante um ano na gaveta. Godot era alguma editora que o bancasse. Não rolou, e isso sim é de se esperar quando se trata de um autor estreante.

E esse título misterioso?

DHDois que não o amor? (risos) Hum… Prefiro não explicar. Seria um pouco autoritário.

O que é o amor?

DH – (risos) Ah, eu sabia que você ia me perguntar isso! Mas, se eu soubesse, não escreveria sobre o assunto.

Tá bom. Mas se eu exigisse uma definição… (risos)

DH – Então eu responderia que espero que não tenha nada a ver com o do meu livro (risos). Nem com os que tive até hoje, que me exauriram…

Você ainda acredita no amor?

DH – Não duvido (risos)

Não?

DH – Não.

Como é lidar com essas personas: escritora, poeta, diretora?

DH – Para mim, é lidar com a escolha da linguagem. Não sei se há conflito (pausa). Mentira. Há conflitos.

Dirigir uma peça de teatro é como escrever um livro?

DH – Não, absolutamente. Até porque, antes mesmo da questão de serem linguagens distintas, o diretor é uma figura pública, então, por mais que esteja nos bastidores, está sempre socialmente ativo. E estar socialmente ativa me cansa. Ainda que isso não seja regra, para mim o lugar do escritor é o do recolhimento. Nesse sentido, fico mais à vontade como escritora — ainda que escrever também provoque outros desgastes.

O que é desgastante na escrita?

DH – A dificuldade. Para chegar a um parágrafo bom é preciso lapidar, lapidar, lapidar. Bem, mas, até aí, a verdade é que no teatro também.

O processo de criação da direção e da escrita são diferentes?

DH – Diferentes na medida em que são linguagens e meios distintos. Mas acabam, cada um à sua maneira, obedecendo à seguinte ordem: experimentação (armazenamento de conteúdo) e edição. É assim que vem funcionando para mim, ao menos. Também são diferentes pelo que acabo de te dizer: ao dirigir, além da dificuldade da criação, é preciso lidar com os entraves do coletivo. Não que o coletivo não possa ser agregador, mas a verdade é que não é toda equipe que se dispõe a arriscar. Então, ao conduzir um processo experimental, além de o diretor lidar com as próprias dúvidas, às vezes precisa ter ânimo para não se deixar abater pelas dúvidas alheias. Mais que isso, precisa atuar como psicólogo ou marqueteiro, defendendo o projeto. Quando se trata de atores, por exemplo, muitas vezes eles são agressivos, exigem respostas. E isso pode me deixar tensa, porque, quando começo um processo desses, não tenho respostas, nem quero ter.

Você é reclusa?

DH – Recluso é um rótulo como tantos outros, mas, considerando isso, sou reclusa (risos). Eventualmente, tento não ser.

Tem um poema do livro que fala sobre isso, até sublinhei: “Não serei mais socialmente sóbria. / Cansei-me de pessoas ao redor. (…)”.

DH – É, me sinto mais tranquila com poucas pessoas à minha volta. Mas, claro, estamos falando de um livro e não de uma biografia.

É mais difícil lidar com atores ou escritores?

DH – A questão é que não preciso dirigir os escritores (risos).

Você é filha única?

DH – Não. Tenho dois irmãos mais velhos.

Sua mãe tem um sebo online?

DH – Sim, o XPTW Livros.

Por que esse nome?

DH – Minha mãe tem umas gírias estranhas. Uma delas é essa. Ela fala “aquilo ali é muito XPTW”…

(risos) Como assim? Agora entendi a dedicatória do seu livro.

DH – Pois é. Não dá para explicar, porque XPTW é uma palavra polissêmica. De toda forma, é uma dedicatória bem pessoal.

Quantos blogs você tem?

DH – Muitos, mas grande parte só para mim. Os públicos são o Ainda há música, o Mais de mil palhaços no salão — que é a quatro mãos com outro escritor, o Bruno Domingues Machado —, os finados Candeia de Vento e Meus Cotos e, por fim, o não saber a morte.

Você tem uma teoria do blog como obra…

DH – É, na verdade, um tema de estudo. O blog tem uma linguagem subutilizada. Vejo nos elementos que ele oferece potência para a composição de uma obra literária interessante, nunca entendi como demérito ser “escritor de blog”. O demérito não pode ser o meio, mas a forma como ele é aproveitado. Acho que isso não se restringe a blogs.

Você tem vontade de fazer mestrado sobre esse assunto?

DH – Já faço, só não oficializei (risos).

Me fala sobre esse prêmio que você ganhou com o blog não saber a morte.

DH – Foi um prêmio muito bacana do Fórum Virtual de Literatura da UFRJ. Tem a ver com o que eu disse agora sobre a linguagem do blog. Não adianta eu falar, porque acabaria me focando na história e a história não é o ponto. Tem que acessar para ver.

Você faz parte de um coletivo de literatura. Por quê?

DH – Um coletivo de literatura que busca lugar para promover a literatura, para abrir espaço para o debate.

Com tantas opções de entretenimento e informação, as pessoas estão interessadas em literatura?

DH – Sim. Sempre houve e sempre haverá pessoas interessadas em literatura. Não quero dizer que há milhares delas. Já participei de eventos sensacionais em que a plateia era formada por pouquíssima gente. Também não estou dizendo que grande parte não seja composta pelos próprios escritores. Ou que não haja aqueles que são mais seduzidos pelo lobby que propriamente pelo debate. Nenhuma dessas ressalvas invalida a importância desse espaço.

Quem você aponta como referência?

DH – Há muita referência. David Lynch, Gus Van Sant, Won Kar Wai, Rohmer, Polanski, Tarkovski, Antonioni, Fellini, Truffaut, Pasolini, Glauber Rocha, Beckett, Kafka, Perec, Sade, Cortazar, Goya, Hopper, Nietzsche, Artaud… Música, então, nem se fala. Uma vez, um amigo me disse “ainda que não haja mais nada, ainda há música”. Foi daí que criei meu blog Ainda há música, em que posto diariamente o que ando ouvindo.

Na antologia Contos sobre tela (Pinakotheke, 2005), você escreveu um texto chamado “Vãos”, em que se inspira numa obra do Ismael Nery. Como surgiu o convite?

DH – Veio através do Marcelo Moutinho. Eu havia mostrado um outro conto para o Flavio Izhaki, que o repassou para o Marcelo. Eles estavam procurando gente nova para a antologia.

Foi difícil escrever um conto inspirado numa tela?

DH – Foi bem difícil. Mas principalmente porque eu acreditava que deveria escrever um “conto”. A palavra “conto” limita tudo. Ou, na época, eu sentia assim.

O que você sente mais dificuldade de escrever: conto, poesia ou romance?

DH – Nunca escrevi um romance, ainda é um projeto. Mas não acho que vou ter um problema de gênero. O que é um romance? Sei que há milhares de respostas preconcebidas, e não quero adotar nenhuma delas.

Por que você escreve?

DH – Escrevo… Para respirar melhor. Não sei. Qualquer coisa que eu responder, mesmo que sincera, vai soar cafona (risos).

E o teatro?

DH – O teatro é pelo aqui e agora. Mas digo aqui e agora no sentido de perto e vivo. Normalmente — para toda exceção, tem sua regra — não me comovo com o teatro que parece cinema realista ou clássico-narrativo. Considero teatro o que põe o aqui e agora em risco.

O ator é o coração do teatro?

DH – Não. Não sei se precisa de ator para ter teatro. Muito menos se o teatro tem coração.

Que ator você admira?

DH –  Vou citar quatro atrizes novas e do Rio: Marina Hodecker, Paula Lanziani, Giselle Sabattini e Clarisse Zarvos.

No seu livro, há um poema sobre felicidade: “Feliz, como se houvesse possibilidade. / Abraçada a alguém, o cigarro em seu pescoço, seria feliz: / saltos, verdes campos. (…)” O que é a felicidade? Que doença é essa que nos persegue?

DH – Felicidade é uma palavra que não me diz nada. Mas se você me perguntar o que me faz bem, respondo que costuma funcionar quando tenho tempo para parar, me sentar e olhar para uma árvore. Aqui ao lado, no jardim do Palácio do Catete, é um ótimo lugar para isso. Ou, no caso de não ter tempo para jardins, às vezes funciona simplesmente sentar no sofá da casa e olhar para a estante (risos). Mas tenho vontade de morar fora. De perceber concretamente que o mundo é maior do que “x” problemas. Porque as coisas se repetem muito e quando elas se repetem muito num mesmo lugar, fica cansativo. É preciso mudar o lugar. Mas não se trata necessariamente de questão geográfica, claro, senão teria de se virar nômade (risos).

Para escrever, você precisa de tranquilidade?

DH – Não preciso sofrer para escrever, mas o que escrevo precisa ser para mim um problema. Não me comove a literatura que não me apresenta problemas. De toda forma, definitivamente não escrevo jorrando. Reescrevo muito mais do que escrevo. Vejo o trabalho de escritor como sobretudo o de edição. E não sinto escrever como sofrido, mas como um alento.

O que você sente quando escreve?

DH – É como um jogo. Primeiro, mais aeróbico. Depois, mais racional, matemático.

Você acredita em deus?

DH – Não.

Por quê?

DH – Por que acreditar em Deus?

Em que você acredita? No acaso?

DH – Em que eu acredito? (pausa) Vou te dizer que essa é para mim uma questão. Mas me disseram, e acredito nisso, “descrentes não existem”.

Você acredita na arte? Na palavra?

DH – É… Deve ser…

Não quero induzir ninguém a acreditar em nada… (risos)

DH – E viva o amor! (risos)

Como é essa relação com a palavra?

DH – Não é à toa que o título do meu blog é Não proferir palavras em vão. É mais ou menos essa a minha relação. Por isso, não gosto de falar oralmente; não há tempo de reflexão (risos). Você sabe disso, porque pedi que fizéssemos essa entrevista por e-mail. Falar é um convite para muitas palavras em vão. Claro que daí você poderia me perguntar “mas quando não é em vão?”. E eu não saberia te responder.

O que é preciso para ser escritor?

DH – Ver. Todo o resto se exercita. Para ver é preciso coragem.

DIRA PAES

DO CINEMA PARA A LITERATURA

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2009

 

Dira Paes / Foto de Tomas RangelConhecida pelos filmes de que participou, e mais recentemente pela aparição na TV, com destaque para a Solineuza, do programa “A Diarista”, e a Norminha, de “O Caminho das Índias”, a paraense lançou em Paraty seu primeiro livro, Menina flor e o boto, dentro da Coleção Mãe África, da Língua Geral, voltada a narrativas infantis a partir de mitos e lendas. A iniciativa partiu de um convite da editora, que ela prontamente aceitou. Depois do sim, ela foi buscar saber o porquê dessa aceitação tão automática e espontânea. A resposta, encontrou na lembrança de sua avó que teria “visto o boto”, presenciado a lenda. O livro parte dessa reminiscência para contar a história da menina ribeirinha, que vai para a escola de canoa e ama mais as letras que as brincadeiras.

A seguir, a atriz e escritora fala sobre o livro, de como descobriu a literatura, dos personagens literários que já interpretou e recomenda o escritor paraense Dalcídio Jurandir, autor de uma bela saga amazônica, admirado por Jorge Amado, mas pouco editado hoje em dia.

Você está lançando pela Língua Geral, na Coleção Mãe Brasil, o livro Menina flor e o boto. Como surgiu essa nova experiência?

Dira Paes – Eu acreditava, mas não tanto, na máxima: plante uma árvore, escreva um livro e tenha um filho. E comigo, de certa forma, aconteceu isso. Foi um convite da Connie Lopes, uma das sócias da Língua Geral. A gente se encontrou, e ela falou assim: “Queria te fazer um desafio. Quero te convidar para ser umas das autoras da nossa Coleção Mãe Brasil.” Ela é inspirada na Coleção Mama África, em que eles experimentavam com autores de Língua Portuguesa da África. Uma história infanto-juvenil baseada numa lenda, que, no meu caso, por ser paraense e amazônica, seria uma lenda amazônica. Imediatamente eu falei sim. Só que depois que falei sim, pensei: “Onde fui me meter? Por que eu disse um sim tão espontâneo?” Tempos depois, agora que o livro está pronto, e que as coisas estão mais amadurecidas na minha cabeça, percebi que eu tenho essas histórias entranhadas no meu consciente e inconsciente, na minha formação. Comecei a lembrar nos tempos remotos da minha infância; o máximo que consegui lembrar: eu realmente ouvia as histórias das lendas amazônicas para dormir, antes de ouvir Cinderela e Branca de Neve. Antes de ouvir o universo infantil, literário, que só veio penetrar mesmo na minha vida aos 12 anos, pela puberdade.

Eu tinha que escolher qual lenda ia trabalhar a minha história. Aí lembrei que minha mãe contava que minha avó tinha visto o boto. Você sabe o que significa isso, você ver uma lenda? Minha avó viu o boto. “É isso, é isso que vou fazer.” Vou escrever a história da minha mãe, que foi essa criança ribeirinha, essa criança amazônica, essa criança que viveu a ilha e o rio como se fosse a sua rua. E vou colocar esse personagem rondando essa casa. O fato de estar aqui em Paraty é extremamente emocionante. Eu vivi em Paraty seis meses: três, quatro meses fazendo A floresta das esmeraldas (John Boorman, 1985), que é o meu primeiro filme; e o meu segundo trabalho, que foi Ele, o boto (1987), do Walter Lima Jr., que foi feito aqui (em Paraty). Eu falei: “É essa lenda que tenho que trabalhar mesmo”, e foi ótimo porque vieram as lembranças.

A menina flor é uma criança amazônica, que vive no seu habitat, uma ilha. Ela vai para a escola de canoa, volta da escola, ama as letras, decora seus livros e lições, declama para os irmãos que gostam mais de brincadeiras… Essa menina tem, vamos dizer, entre nove e onze anos, ela está no desabrochar de virar menina, de deixar de ser criança e virar menina. Durante esse período da família, o boto vai visitar a casa… Aí tem que ler o livro para saber (risos).

Na infância, você teve contato com livros?

DP – Não. Era a oralidade. O que eu consigo lembrar, de mais remoto, do livro… Tinham os livros, mas tinha uma escassez de impressão de livros infantis. Sou uma pessoa da classe média, muitos irmãos mais velhos, eu absorvia mais uma literatura juvenil dos meus irmãos do que uma literatura infantil. Lembro, assim, de começar no colégio a ter (acesso a) um volume de literatura infantil.

Você estudou teatro na Escola Estadual de Teatro Martins Pena (no Rio de Janeiro). Como foi o contato com a literatura dramática?

DP – Quando eu cheguei ao Rio e decidi ser atriz, eu fiz Martins Pena, CAL, fiz todos os cursos que apareceram… Mas me formei na Universidade do Rio de Janeiro (Unirio), que foi uma decisão maravilhosa. O autodidatismo dos artistas… Tem uma hora que você quer pertencer a uma classe, estar junto com pessoas que tem o mesmo interesse que você. E eu sempre fiz cinema, quase vinte anos de carreira, dezessete deles fazendo cinema, exclusivamente. Quando comecei a fazer televisão já estava formada pelo que eu queria: estudo de História da Arte, Teatro Brasileiro, Teatro Universal. A universidade foi maravilhosa para isso.

Que autor você descobriu nesse período?

DP – Minha primeira descoberta realmente foi Machado de Assis e, depois, José de Alencar. Foi a época que tinha quatorze anos, antes de fazer meu primeiro filme; o professor de literatura propunha redação sobre os livros. Eu tinha bloqueio com redação. Eu me boicotava muito, escrevia e, imediatamente, achava bobo o que acabava de fazer. Fizemos coisas muito interessantes que hoje eu paro pra lembrar. E depois, a partir dessa experiência, a gente começou a escrever nossos próprios textos. Acabou que a gente fez um caminho até, talvez, mais difícil. Nesse período, eu lembro que os romancistas brasileiros eram mais legais de fazer essa encenação.

Você é muito privilegiada por fazer bons filmes no cinema. Há algum personagem literário que tem orgulho de ter feito?

DP – O personagem mais literário que eu fiz foi a Leocádia, o primeiro amor de Castro Alves. Leocádia foi o primeiro amor, mas não foi o amor mais eloquente dele. Mas quando ficou muito doente, aos 24 anos, ele voltou para esse primeiro amor, como um lugar seguro, um lugar onde ele poderia estar. Inclusive, ele fez um poema como se ela estivesse falando com ele. Eu me lembro de algumas estrofes em que ela falava assim:

Onde vais ó estrangeiro

O que busca no solitário albergue do deserto

Por que cruzar os píncaros dos montes

Se podes achar o amor tão perto

Acho lindo demais. Era uma fala minha para o Castro Alves. É um personagem pequeno no filme, que é do (cineasta) Sílvio Tendler. (O filme é Castro Alves – Retrato falado de um poeta, 1998). É um filme de que gosto muito, e foi pouco visto. Acho que é o personagem mais literário que eu fiz. Adoraria fazer outros, adoraria. Será que estou esquecendo? Não. Acho que foi esse mesmo.

De quais poetas você gosta?

DP – O Castro Alves. Nessa época, rolou uma paixãozinha louca pelo Castro Alves. Dizem que ele era um homem irresistível, dizem que quando ele subia para declamar, desmaiava homem, mulher… (risos) Eu nutri um paixãozinha muito real por esse homem que existiu na vida. Eu li bastante Castro Alves, Augusto dos Anjos… Augusto dos Anjos tem um exercício vocal para ator que é incrível. Dos poetas paraenses, tem o João de Jesus de Paes Loureiro, um professor, primo do meu pai, um grande filósofo paraense. Eu estou numa fase voltada para a Amazônia. Tenho uma vontade de ir fundo, não tanto de poesia, mas de literatura amazônica. Onde estou agora é no Dalcídio Jurandir. Muita gente não conhece o Dalcídio Jurandir, é normal não conhecer. Mas estou querendo muito divulgar esse grande nome da literatura brasileira, para fazer um paralelo entre os grandes autores: ele seria um Guimarães Rosa da Amazônia se tivesse sido mais relacionado, no sentido de se promover na sua época. Ele é contemporâneo do Graciliano Ramos, ele é um dos “musos” do Jorge Amado, uma pessoa incrível. Estou recomendando mesmo: Dalcídio Jurandir. Não temos as obras dele, só em sebo, é uma dificuldade muito grande de se conseguir. Ele tem uma saga norte, que são dez livros, sendo nove livros amazônicos e um livro que se passa no Rio Grande do Sul. Eu estou apaixonada por esse universo.

Você gosta do Milton Hatoum?

DP – O Milton foi uma injeção de ânimo para a descoberta desses literatos amazônicos. E o Milton, apesar de ser manauara — porque ele é de Manaus, e eu sou paraense — ele tem uma universalidade daquela Amazônia. Eu, como paraense, percebo algumas diferenças entre as influências, mas é impressionante… Eu ainda não o conheço pessoalmente, a gente já se conhece de e-mail. Os livros dele eu gosto muito. Comecei com Dois irmãos (Companhia das Letras), como todas as pessoas estão começando, mas o Cinzas do Norte (Companhia das Letras) me pegou mais profundamente — foi mais inusitado para mim.

Em Menina flor e o boto (Língua Geral, 2009), aparecem vários termos amazônicos.

DP – Eu tentei usar dos meus “paraensismos” todos porque eu, como paraense, me sinto muito estrangeira, quando vou falar. Agora menos até, assim: azeite de andiroba, copaíba, cupuaçu, taperebá, uchi, bacuri, tracajá… É uma linguagem que dá para fazer uma poesia só de falar os nomes amazônicos, você pode colocar em qualquer ordem que vai falar de poesia. Então, imagina numa atividade extraclasse você colocar esses nomes, colocar as crianças para tirarem e começar com um nome. O que é cupuaçuzeiro? Ou açaizal? O próprio boto. A minha expectativa com o livro é aguçar a curiosidade em torno de palavras muito comuns para uma criança amazônica e totalmente incomuns para uma criança que não teve essa relação com a Amazônia. Um afilhado meu, o Lourenço, oito anos, disse: “Tia, mas seu livro é difícil.” É? E o que é difícil? “Olha aqui: a-ça-i-zei-ro; cu-pu-a-çu-zei-ro; ta-pe-re-ba-zei-ro.” Falei: “É porque você não conhece.” Na verdade, ele tinha entendido a historia, tinha absorvido, mas realmente: cu-pu-çu.. cu-çu.. cu-a-pu.. Nem eu sei falar mais essa palavra (risos). Cupuaçuzeiro, pronto, foi. Mas achei legal essa observação porque era isso que eu queria realmente despertar. E eu perguntei: “O que é cupuaçuzeiro?” Ele: “O quê?” “Você não toma suco de cupuaçu? Já experimentou?” “Ah é, a árvore do cupuaçu.” E aí começa a descobrir.

Você lembra algum poema de cor?

DP – Eu não tenho. Engraçado, outro dia eu estava conversando com meu marido sobre isso: os que conseguem declamar; é um exercício. Eu já declamei muito, e já decorei poemas enormes. Mas é como se eu precisasse vagar o espaço para entrar outras coisas. Então, eu não me atreveria a declamar, mas, por exemplo, tem coisas que eu gosto muito: de Manuel de Barros. Ele traz uma sensibilidade muito acessível e muito atemporal; parece que ele está escrevendo para um ser humano que não tem idade. Eu aprecio muito, mas eu não sei de cor. Infelizmente vou ficar devendo.

Então, fica a indicação do filme do cineasta Pedro Cezar: Só dez por cento é mentira — um documentário sobre Manuel de Barros.

DP – Ainda não assisti. Quero ver.