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ADÉLIA PRADO

A SIMPLICIDADE DE UM ESTILO 

Por Ramon Mello (Revista SaraivaConteúdo – 2010)

Adelia Prado / Foto de Marcos DantasA poeta Adélia Prado tem profundo respeito pela criação, principalmente no que se refere a sua produção poética. Há dez anos sem publicar um livro de poemas, Adélia lança A duração do dia (Record, 2010), marcado por versos que transmitem desejos, frustrações, sonhos e amor.

Para a autora de 75 anos, nascida em Divinópolis, interior de Minas Gerais, a poesia e a fé são manifestações de revelação da realidade através de um processo divino, a mesma fonte da graça. “O poeta é o cavalo da poesia”, já afirmou.

A lírica de Adélia Prado, ao contrário do que se pensa, nada tem de uma pacata mulher do interior. Pelo contrário, estamos diante de uma intelectual, no sentido de que ela, ao seu modo simples e apaixonado, estuda, reflete acerca de ideias. Uma lente muito pessoal, que conquista pela simplicidade de uma bagagem de vida inteira.

Adélia Prado – (…) Tudo é ficção, viu? Tudo.

A duração do dia, seu novo livro, acaba de ser lançado pela editora Record. Por que dez anos sem publicar um livro de poemas? Como funciona sua experiência poética com a escrita?

AP – Não tem mistério nenhum e tem todo o mistério. Porque passo dez anos sem fazer poesia… Mas nesse intervalo eu fiz prosa, fiz um livro infantil. Eu podia estar num deserto criativo, né? Uma noite escura que não desse conta de nada, já me aconteceu. E também acho que é um processo natural, quer dizer, a musa está dormindo (risos). Qualquer coisa assim. Você não é uma usina permanente, nenhum autor é, em nenhuma categoria de arte. Nesses dez anos, o que eu estava fazendo? Tratando de viver o melhor possível. Então, eu tinha poemas, fragmentos de experiências… Experiências que estavam em algum fragmento de natureza poética, que eu falei: “Isso aqui é matéria de poesia.” Estava guardada. E, de repente, eu começo: “Deixa eu ver minhas coisas de poesia.” Nesse tempo, fiz alguns poemas muito novos, bem recentes, e outros antigos, que falei: “Que poema, gosto desse poema!”, sabe? Outros precisavam só de corte. Corte e costura. Foi assim, não tem esse mistério, não. Acho que isso acompanha a vida da gente. Enfim, quando comecei Bagagem, eu escrevi assim… Eu estava até a tampa, né?

Você estreou com Bagagem (Imago), em 1976, depois de enviar os originais para o poeta e crítico Affonso Romano de Sant’Anna, que repassou para o poeta Carlos Drummond de Andrade…

AP – Pois é. Aos 40 anos fiz Bagagem. Então tinha muita coisa. Depois de Bagagem veio Solte os cachorros (1979), O coração disparado (1978), Terra de Santa Cruz (1981). Depois o vulcão dá uma pausa. Mas fiquei feliz por ele não estar extinto.

Você encontra alguma relação entre Bagagem (1976) e A duração do dia (2010)?

AP – Absolutamente, encontro sim. Bagagem é um livro solar, feliz, alegre… A própria dor em Bagagem tem um ritmo diferente, uma percussão diferente. Esse aí (A duração do dia), nessa altura da vida eu sinto que é — do ponto de vista da fundação poética e de fazer um livro de poesia — a mesma alegria de fundação que a gente sente. É absolutamente igual. Mas tenho aí experiências que eu nem sonhava ter em Bagagem, que foram experiências marcantes e tudo. Mas são experiências de outra natureza que Bagagem. Enquanto livro e poesia é uma coisa só. Eu vou fazer um livro só a minha vida inteira. Eu quero escrever Bagagem a vida inteira, a vida inteira. Por causa do limite da gente, né? Eu só tenho essa “vozinha”, eu só tenho esse quadradinho para olhar o mundo. É com essa lente limitada, finita, que eu vou, enfim, experimentando o mundo. E, naquilo que ele tem de beleza, vira poesia. Às vezes.

Essa experimentação surge diretamente da religiosidade. Em entrevista ao Caderno de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles, você declarou: “Deus quer falar e me usa, no caso sou eu o oráculo.”

AP – Ele usa você também. Eu acho que todo artista. Toda obra, o objetivo dela é atingir o momento poético. Seja escultura, teatro, cinema, música. Ela só acontece quando ela vibra poeticamente, numa revelação absolutamente original, singular e única. Nesse sentido, você ou eu, qualquer autor é instrumento de algo que o suplanta, que é maior que ele. Você é realmente uma boquinha, um oráculo, para algo que está se dizendo, se expressando, através de você. Em nosso caso, através da palavra. Se eu for cineasta, vou fazer um filme de arrasar (risos). Mas para quê? Para tocar no outro aquilo que é a experiência poética. No caso, é a experiência do religioso — respondendo o outro lado da pergunta. Por uma razão muito simples: tanto a experiência poética quanto a experiência religiosa (vamos dizer, dos místicos ou, simplesmente, do fiel, do crente) remete a você a um centro de significação e sentido. Isso é religioso. A significação e o sentido são de natureza religiosa. Porque você toca em algo maior que você, melhor que você, mais bonito que você. Eterno, não é finito, que te provoca aquela sensação de sentido: “Minha vida tem um sentido! Por alguma razão estou aqui. Por alguma razão, o absurdo da vida pode ser explicado.” Quer dizer, é uma fé religiosa, mas é uma fé poética. Porque ela vem através da revelação do inusitado, da beleza, que é sempre jovem, maravilhosa. Eu não dou conta de associar isso a outra coisa que não seja o Divino. A gente fica assim mesmo diante disso… Vontade de escrever poesia um dia sim, outro também. Mas não tem jeito, é quando Ele quer, quando Ela quer.

Você saberia dizer o que é Deus?

AP – Não, não sei, não! Nossa Senhora! Nó! Nó! O que é D… Não… Você tende a ser atraído para uma coisa inominável, inefável. Mas é isso que dá sentido, esse empuxo na alma de todo ser humano. A alma quer adorar, ela quer prostrar-se, ela quer reverenciar algo maior do que nós. Tem graça eu me curvar diante de alguém do mesmo tamanho meu? Que tem o mesmo medo? (risos) O mesmo limite?! Eu preciso de algo maior do que eu, é isso que me dá segurança, que me consola, que me conforta. É por isso que falo: “Dá para esperar, dá para aguentar, né?” Acho que arte toca nisso aí. A despeito dos criadores que se dizem ateus. O Drummond tem um poema…

Drummond se dizia ateu.

AP – O Drummond nem era propriamente ateu. Ele achava demais. Para um mineiro, “ser ateu” era demais. Ele falava agnóstico. Tem um poema dele sobre uma postada da Igreja de São Francisco, não sei se em Ouro Preto ou São João Del Rei… Mas é maravilhoso. Ele quase que pede desculpa de estar querendo crer. Sabe? É muito bonito! É despeito do poeta que aquilo que é transcendente se manifesta. Não adianta, não adianta, eu não mando nisso. A vingança da poesia é essa: ela ser maior que a gente.

Neste novo livro, no poema “Tão bom aqui”, tem um verso assim: “Só quero saber do microcosmo.”

AP – (risos) Estou fazendo aula de física, agora. Física Quântica (risos).

Como é essa relação consciente com o microcosmo?

AP – É que, afinal, você percebe que tudo é basicamente igual. O que interessa mesmo é a tua vidinha. Porque você não tem mais que ela (risos). Você não tem mais do que as 24 horas do dia. Ninguém tem mais que isso. E é nessa experiência pequeninha, miserável, limitada, carente, que eu vou dar uma resposta ao absurdo da minha existência e do mundo. É esse microcosmo mesmo: a filinha do supermercado, a barra da calça… Não por isso que você é poeta do cotidiano ou poeta da metafísica. A metafísica está aí nessas coisas. Aquilo do (José) Ortega y Gasset (1883-1955, filósofo espanhol): “Admirar-se do que é natural é dom do filósofo.” É o dom do poeta! Todo mundo sai correndo para ver um fenômeno da natureza, sei lá o quê. Mas preocupar-se com aquilo que é absolutamente natural é a grande riqueza, aquilo que é o dado imediato da vida. E o dado imediato são nossas carências e obrigações cotidianas. Não tem nada tão grande porque tudo você pode amansar. Você nunca viu o palácio da Rainha da Inglaterra, fica lá um dia ou dois e amansa o lugar. “Só isso? Eu quero mais, eu quero mais.” Você está sempre querendo além do que você tem. E esse além é de natureza transcendente, é a fome da alma, a fome do espírito. É uma coisa impressionante porque você, limitado e finito, fala em conceitos loucos para nós que somos tão pequenos: o infinito. Infinitamente pequeno (risos). “Infinitamente pequeno” está me perturbando ultimamente (risos). Ele é perturbador mesmo, perturbador.

Você escreveu dois livros Manuscritos de Felipa (1999), de prosa, e Oráculos de maio (1999), de poesia, no mesmo período. O processo de escrita difere entre os gêneros?

AP – Ah, demais, demais. A poesia já vem com aquela laçada própria. Você sabe que aquela coisa que se quer dizer tem o ritmo próprio da poesia. A prosa não, ela exige o discurso. Agora, com uma diferença, se você pretende ser autor de verdade, se a sua prosa não tiver poesia, pode jogar ela fora também. A pretensão da prosa é atingir a mesma coisa que a poesia, mas só que ela, coitada, é mais pobre. Toda hora os teólogos falam isso. Os paradoxos da física e da teologia — lá vem a física de novo! — que, realmente dizem, são flashes. O resto a gente fica pelejando com sintaxe, aquela coisa toda para narrar. Se você ler uma obra-prima do Guimarães Rosa… Quantas páginas tem Grande sertão: veredas (1956)? Mas no final você fica só com aquilo. Só com aquela “suspiração” que ele provoca na gente (risos).

A Bíblia é poesia?

AP – Pura. Ela é uma metáfora. É um discurso religioso vazado em metáforas. Só por isso ela tem a duração que tem. Só por isso ela dura até hoje. Todos os grandes livros, fundadores das grandes religiões, são vazados em poesia. Salmos, Cânticos dos Cânticos. É poesia pura. O subtexto de um relato bíblico, por exemplo, é uma revelação Divina: “Deus nos ama. Deus morre por nós.” É isso tudo que está lá. Mas “vazado” como? Em linguagem poética. Porque fora dessa linguagem o religioso não se apresenta, ele é poético por natureza. Você pode fazer um poema sobre uma missa das 10 ou daquela pedra (aponta para a janela) saindo do mar, ambos religiosos se forem poéticos. E ambos poéticos se forem de fato religiosos. São fontes da mesma água, do mesmo rio. Separar isso é duma infantilidade, é gente muito verde que faz isso. Ou que recusa, por um orgulho profundo, o religioso. Porque o religioso, assim como arte, supõe do fiel, do crente, uma adesão. Você não aceita a fé, você adere. A arte é a mesma coisa. A natureza do religioso e da experiência poética é absolutamente igual.

Você tem um versículo preferido?

AP – É um versículo de um texto evangélico. Prefiro todos porque são maravilhosos demais. Mas tem um que, ultimamente tem me acompanhado, que é uma fala de Cristo, não sei em qual dos Evangelhos: “Não tenhais medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino” (Lucas 12, 32-48). Olha que maravilha! (risos) Você fica em pé de novo. Você fica em pé nas pedras. E diz: “Eu vou dar conta. Eu vou dar conta!”

“Não quero morrer nunca, porque temo perder o que desta janela se desdobra em tesouros” está escrito no poema “Viação São Cristóvão”, do livro Oráculos de Maio.

AP – Não quero morrer nunca. De vez em quando ainda acredito que não vou morrer (risos). Lá no fundo, lá no substrato do microcosmo da alma (risos) eu acredito que não. Porque acho que tem um sentido também, a aspiração humana de viver. O que quero é viver. Ninguém quer morrer. Isso aliado a uma fé que aceito, abraço e que me consola profundamente, que é a vida eterna. Acreditar na vida eterna. Porque se estou viva agora é evidente que posso viver o resto da vida. Isso é absolutamente consolador. E poético até não poder mais.

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ADRIANA LISBOA

SIMPLICIDADE E DISCIPLINA

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2009)

Adriana Lisboa / Foto de Tomás Rangel“Pensar em ser escritora era como pensar em ser astronauta, uma coisa assim, um pouco fora da realidade. Eu não sabia que era uma profissão viável, possível. Fui fazer uma outra coisa também não muito viável, que é trabalhar com música. Eu acabei fazendo faculdade de música, me graduei em flauta.” Assim pensava Adriana Lisboa antes de se dedicar integralmente ao ofício da escrita.

Hoje escritora, Adriana Lisboa acaba de lançar o segundo livro infantil: A sereia e o caçador de borboletas (Rocco) — o primeiro livro chama-se Língua de trapos (2005). A experiência de 10 anos de carreira soma títulos conhecidos, como Fios da memória (1999), Sinfonia em branco (2001), ganhador do Prêmio José Saramago, Um beijo de colombina (2003), Caligrafias (2004), O coração às vezes pára de bater (2005) e Rakushisha (2006).

Adriana ainda prepara a publicação do novo romance, Como escrever uma história de amor em Paris, escrito na França para o projeto Amores Expressos. No entanto, o livro sairá pela editora Rocco, sem o selo da coleção. A romancista brasileira, atualmente radicada nos EUA, já morou no Rio de Janeiro, Petrópolis, Brasília, França e Japão. Tantas mudanças ensinaram a lidar com a vida de uma forma mais tranquila, encarando melhor as perdas (e os ganhos).

A escritora tem livros publicados na Itália, França, Portugal, Suécia, e é uma das poucas brasileiras traduzidas nos EUA. Qual a sensação de ser publicada em outros países? “Sem querer ser demagógica nem nada, acho legal saber que têm países se interessando pela literatura brasileira, em primeiro lugar. E para mim, é óbvio, tem uma satisfação em ver os livros por aí a fora.”

A relação com a escrita é construída diariamente, com disciplina, onde o que importa é o trabalho, as histórias, os livros: “Eu procuro, já percebi que um pouco demais, quebrar essa visão mitificada do escritor. Acho que aquilo que a gente faz… O que fazemos é um trabalho importante no mundo como qualquer outro. Por acaso a gente escreve. Poderia estar aí sendo mergulhadora, astronauta, musicista, ou, seja lá o que for. São trabalhos viáveis, possíveis, eu sei disso. Para mim é uma coisa simples, ser escritora porque eu gosto em primeiro lugar. É um cotidiano muito simples.”

Você está com 10 anos de carreira e tem quatro romances publicados, um livro de contos, dois livros infantis — o segundo, A sereia e o caçador de borboletas (Rocco), acaba de sair pela editora Rocco. Há diferença ao escrever em diferentes gêneros?

Adriana Lisboa – Não vejo muita distinção entre gêneros, não. Nem em termos de faixa etária, escrever para adulto ou para criança, quanto ao formato: crônica, conto, romance. É claro que cada um tem sua linguagem específica, obviamente você não pode escrever para criança do mesmo modo que escreveria para um adulto. Mas o que a gente não pode perder de vista que é tudo literatura. E que existe um certo compromisso com a qualidade do ficcional, com seu envolvimento com o ficcional, seja qual for o formato, seja qual for a faixa etária para a qual você está querendo se dirigir. Isso é algo que, para mim, cimenta essas coisas todas juntas. E me dá uma certa desenvoltura, pelo menos no meu desejo – o resultado é uma outra coisa –, no meu impulso de transitar pelos formatos diferentes.

Você é formada em música e literatura. Como foi essa transição para as letras?

AL – Eu nunca fui para a literatura porque nunca saí dela, na verdade (risos). Eu tenho uma ligação muito antiga com a literatura.

Você começou a escrever aos nove anos…

AL – Muito nova. Quando eu aprendi a escrever, eu comecei a escrever. Tive um espaço na escola, de professores incentivando que a gente lesse poesia, escrevesse poesia, faziam concursos. Então sempre foi uma coisa que sempre curti fazer e fazia informalmente.

Existia o desejo de ser escritora?

AL – Existia. Mas era como se eu não levasse aquilo a sério. Pensar em ser escritora era como pensar em ser astronauta, uma coisa assim, um pouco fora da realidade. Eu não sabia que era uma profissão viável, possível. Fui fazer uma outra coisa também não muito viável, que é trabalhar com música. Eu acabei fazendo faculdade de música, me graduei em flauta. Trabalhei como flautista, como professora de música, durante um tempo, mas a música tem muito de sacerdócio, tem que ter uma dedicação ao instrumento.

E a literatura, não?

AL – Mas a música, ainda mais quando você opta por se dedicar a um instrumento, se você não tiver uma relação diária — quase como de atleta, atleta treinando — com a manutenção do seu domínio, daquele instrumento, a qualidade decai muito. Então chegou um momento que eu tinha que dedicar muito tempo da minha vida para a música e sobrava pouco tempo para fazer aquilo de que eu realmente gostava: escrever nas horas vagas. Eu tinha muito poucas horas vagas, a verdade é essa. Eu decidi tentar escrever um primeiro romance. Primeiro, se dava conta de escrever, eu nunca tinha tentado, ver se conseguia publicar… E, conseguindo, se eu poderia inaugurar uma carreira de escritora. Mas, para isso, para fazer daquilo que me dava prazer a atividade central da minha vida. Nada mais do que isso.

Em geral, as pessoas mitificam muito a figura do escritor. Como é o seu dia a dia como escritora?

AL – Eu procuro, já percebi que um pouco demais, quebrar essa visão mitificada do escritor. Acho que aquilo que a gente faz… O que fazemos é um trabalho importante no mundo como qualquer outro trabalho importante no mundo. Por acaso, a gente escreve. Poderia estar aí sendo mergulhadora, astronauta, musicista, ou, seja lá o que for. São trabalhos viáveis, possíveis, eu sei disso. E que essa coisa, essa aura em torno da atividade do escritor ou do artista, de um modo geral, é algo que a gente precisa colaborar para diminuir um pouco. Porque isso gera egos inflados demais. Na verdade, o que é importante não somos nós, é o nosso trabalho, aquilo que a gente faz, são os nossos livros — são muito mais importantes do que nós, escritores, artistas, sei lá. Para mim é uma coisa simples ser escritora, porque eu gosto, em primeiro lugar. É um cotidiano muito simples, não preciso beber, não preciso me drogar, não preciso fazer nada. É uma atividade que eu faço. Eu sou mãe, entende? Moro num país que não tenho ninguém para ajudar, eu faço absolutamente tudo: sou mãe, faxineira, cozinheira, todas as coisas que são necessárias de ser dentro de casa, e escrevo também. Nos momentos em que eu escrevo, é claro, são momentos de profunda introspecção, de profunda solidão, silêncio… Uma viagem para dentro de mim mesma, para dentro dos meus pensamentos e tudo mais. Mas também uma forma de contato muito intensa com o mundo.

Você já morou no Rio de Janeiro, Petrópolis, Brasília, França, Japão e, agora, EUA. Por que tantas mudanças?

AL – Eu gosto de estar fora. Eu gosto de me mudar, em primeiro lugar. Eu curto bastante essa ideia de mobilidade. Acho que, cada vez que eu me mudo, eu faço uma reavaliação daquilo que materialmente é essencial para mim. Essa reavaliação é sempre muito boa porque sempre percebo que preciso de menos coisas que eu achava que precisava. E mudar de país tem um ganho a mais, a gente não pode levar tudo. Quando muda de uma cidade para outra dentro do país, você pega e reboca as coisas todas. Na minha mudança — me mudei para os EUA há quase três anos — eu levei muito pouco; dos meus livros eu levei 10%, se tanto. Nesses momentos você se pergunta: O que eu preciso? Se você tiver que escolher 15 livros da sua biblioteca, o que você vai levar? São exercícios interessantes. E uma coisa que acho bacana… Continuo escrevendo em português, continuo escrevendo sobre o Brasil, sobre minhas experiências aqui no Brasil. Mas acho legal o olhar de fora. Acho que quando você sai e volta, sai e volta, isso te permite um olhar um pouco distanciado. Às vezes, quando você está muito dentro, muito dentro, muito dentro, isso te obscurece um pouco.

Você é uma das poucas escritoras brasileiras traduzidas nos EUA. Como é a experiência de ser publicada fora do país?

AL – É uma relação que não é simples. Três por cento do que é publicado nos EUA é de literatura em tradução. Dentro desses três por cento não sei qual o percentual que é de literatura portuguesa ou literatura brasileira, mas imagino que não seja muito. O fato de eu estar lá foi fundamental para que essas traduções acontecessem. Mas mesmo assim é uma figura de desapego. Recentemente tem-se falado muito na figura do editor, não o cara que publica o livro, mas o que edita o livro e mexe no texto. Isso pela primeira vez aconteceu comigo, foi a primeira vez que pegaram o meu livro e falaram: “Isso sai, esse parágrafo pode sair, isso aqui fica melhor aqui, esse ponto vira vírgula, essa vírgula vira ponto…” Trabalho de edição mesmo, de mexer na estrutura do texto. Para mim foi uma coisa um pouco,…Não vou dizer dolorosa, eu me senti um pouco insegura,com isso.sem saber se estou traindo a mim mesma. Se um leitor bilíngue, por exemplo, pegar o Sinfonia em branco (Rocco), que está sendo traduzido, a versão original em português e pegar a tradução… A tradução tem cerca de 15% a menos de texto do que a versão original,para você ter uma ideia. Mas é um consenso. Isso precisa ser feito, inclusive pela natureza da língua portuguesa com relação à língua inglesa. O leitor americano, o que ele está a fim de ler, o que não está… Tem esse ajuste com o mercado. É a primeira vez que estou me deparando com essa história.

Como é a relação com o público estrangeiro?

AL – Essa relação, nos EUA especificamente, eu não tive ainda porque esse meu livro que está traduzido ainda nem está no mercado.

Mas você tem livros publicados em outros países.

AL – Sim. Eu já publiquei em Portugal, uma relação sensacional. Tenho uma relação muito boa com os leitores em Portugal. Publiquei recentemente, pela primeira vez, na França e fiquei surpresa com a receptividade. Teve uma acolhida do público, o livro em dois meses foi para a segunda edição. Foi um negócio muito surpreendente. Na Itália também, fui publicada na Suécia…

Qual a sensação de ser publicada em outros países?

AL – Sem querer ser demagógica nem nada, acho legal saber que têm países se interessando pela literatura brasileira em primeiro lugar. Acho isso bacana. O fato de um jornal como o Le Monde ou uma editora como Alfaguara México, por exemplo, estarem interessados por aquilo que se faz aqui no Brasil. E dispostos a ler em Língua Portuguesa, em traduzir a Língua Portuguesa. E para mim, é óbvio, tem uma satisfação em ver os livros por aí afora. Quase como ver um filho seu fazendo coisas por aí e você: “Poxa, que legal” (risos).

Você foi à França, através do projeto Amores Expressos, e escreveu um novo romance. E agora o seu livro está fora do projeto, será publicado por outra editora. Por quê?

AL – Acho que algumas coisas no projeto estão sendo revistas pelos próprios autores que participaram, a principal é a questão dos prazos. A verdade é que o prazo original, que os autores tinham para escrever seus romances, ninguém cumpriu. Sérgio Sant’Anna está aí ainda, falando que nem sabe se vai publicar o livro dele ou não. O que é uma pena porque eu adoraria ler. Mas o fato é que o meu livro foi escrito em, mais ou menos, seis meses. Foram seis meses durante os quais eu me dediquei exclusivamente ao projeto depois que voltei de Paris. A resposta da Companhia das Letras foi de que esse texto para ser publicado precisava ser modificado. Eu até fiz um texto no meu blog falando sobre isso, dizendo… Isso não me assusta, já recebi várias sugestões sobre os meus textos, com outras editoras, e sem problema nenhum. Com essa experiência de tradução nos EUA eu tenho menos pudor ainda de mexer naquilo que faço. Só que não podia ser feito naquele momento porque não era o meu momento, eu não estava a fim de pegar naquele texto de novo naquela hora. E uma resposta precisava ser dada. Então, diante dessa urgência, eu acabei — de comum acordo com todo mundo, com a Companhia (das Letras) e com o projeto — levando o meu texto para a editora Rocco, que assinou um contrato de publicação comigo. Quer dizer, quando sair, se sair, vai sair sem o selo da coleção, que era exclusivo da Companhia (das Letras).

O livro já tem nome, não é?

AL – O livro originalmente se chama Como escrever uma história de amor em Paris.

Como escrever uma história de amor em Paris?

AL – Porque…

Não. Como?

AL – (risos) Escrevendo.

É difícil escrever por encomenda?

AL – Não, eu não tenho problema em escrever por encomenda. Eu até gosto, acho que dá um norte, sabe? Às vezes, você fica um pouco por aí, perdido… Um dos meus livros de que mais gosto, o único livro meu que não saiu pela Rocco, é uma novelinha juvenil chamada O coração às vezes pára de bater, foi uma encomenda da Publifolha. O Arthur Nestrovski me chamou e falou: “A gente está fazendo uma coleção chamada Cidades Visíveis, são novelas para um público juvenil ambientadas em capitais do Brasil. Queríamos que você escrevesse alguma coisa sobre o Rio.” A única diretriz que eu tinha era essa, que fosse sobre o Rio e para um público juvenil, adolescente. Eu adorei fazer porque me dei a liberdade de escrever sobre um skatista, talvez eu nunca fosse me dar essa chance. Sou fascinada por skate, acho o máximo. Então, foi ótimo, entrei no ambiente dos skatistas e fiz uma novela que eu curto pra caramba. Está até sendo traduzida na Suíça e virou um curta-metragem. As encomendas têm isso, elas te levam. Às vezes, você está com o foco criativo numa coisa “x” e, de repente, elas te levam para outro ambiente, para uma outra ideia.

O livro infantil A sereia e o caçador de borboletas (Rocco, 2009) também foi uma encomenda?

AL – Não. Esse livro foi um projeto meu.

Por que escrever para crianças?

AL – Eu comecei a escrever para criança por uma razão um pouco óbvia: comecei a ler para meu filho quando ele era um pouco menor. Ele agora está com 11 anos, lê sozinho os calhamaços dele.

Seu filho lê seus livros?

AL – Acompanha. Mas ele tem um gosto próprio, o gosto dele, acho que é 99,9% do gosto das crianças da idade dele, que são as séries de livros de fantasia. É uma coisa que eu não faço. “Mas você devia fazer uma série, cinco, seis, sete volumes” “Poxa, Gabriel” (risos). Por enquanto, não me encomendaram. Quem sabe… (risos) Eu gosto de escrever para crianças um pouco menores. Os dois livros infantis que eu tenho são de uma faixa etária assim de sete a 10 anos, para crianças bem pequenas mesmo. Eu lia para ele quando era menor, tinha o hábito de ir com ele em livraria para escolher livro. A gente estava sempre com os livros ao redor. E você acaba se envolvendo de tal modo, que dá o pulo. E dá vontade de fazer também…

Em A sereia e o caçador de borboletas você continuou com a parceria com o ilustrador Rui de Oliveira, que trabalhou no primeiro livro infantil. Fale sobre o trabalho do Rui.

AL – Rui, seguramente, é um dos maiores ilustradores brasileiros vivos — se não for o maior. O Rui tem mais tempo de carreira do que eu tenho de vida, já ilustrou mais de cem livros. É uma fera, o cara é uma sumidade mesmo. Foi um grande privilégio ter ele me acompanhando no Língua de trapos (Rocco), primeiro infantil que publiquei em 2005. Foi muito bacana a editora ter concordado em convidar o Rui para fazer esse trabalho junto comigo. E, quando apresentei para a editora o segundo texto, eles disseram, quase que automaticamente: “Vamos chamar o Rui. Deu super certo no primeiro trabalho, vamos repetir a parceria.” O que é bacana do Rui, embora ele seja um artista com um traço bastante reconhecível, ao mesmo tempo ele se renova de livro para livro. Ele tem essa curiosidade criativa de fazer pesquisas para cada trabalho, faz uma pesquisa extensíssima, inclusive de linguagens. Meu primeiro trabalho infantil era poesia, então ele fez uma ilustração muito mais solta, grafismos, poucos elementos figurativos. Nesse caso que é uma historinha de começo, meio e fim, ele fez um trabalho bastante figurativo. É um artista gigante, o maior privilégio trabalhar com ele.

Você não tem vontade de escrever um livro de poemas?

AL – Eu escrevo muita poesia. Outro dia estava conversando com o Antonio Cicero, não consigo avaliar o que eu faço. Não consigo saber se a poesia que escrevo é boa ou ruim. Pode ser boa ou ruim, não consigo ter o menor discernimento. Ele respondeu: “Mas é assim mesmo. Eu também não consigo naquilo que faço. Acho que é normal para os poetas…” Isso foi uma coisa que me surpreendeu (risos). Um dos meus poetas preferidos, ainda por cima fazer essa confissão. Mas de todo modo, eu não sei, ainda não tive essa coragem. Recentemente, comecei a organizar um livro de poemas, até conversei com a Rocco sobre isso e eles falaram: “A gente publica e tal…” Mandei alguns, aí o livro devia ter uns 30 poemas. Cada vez que eu ia rever o livro eu tirava algum: 29, 28… Atualmente o livro deve ter uns cinco poemas mais ou menos (risos). É complicado para mim, largar, desapegar dos poemas (risos).

Novamente pergunto: O que você diria para um jovem que pretende ser escritor?

AL – Não estou querendo fugir da raia da pergunta, não. Me ocorreu uma resposta que o (José) Saramago deu quando foi a algum evento. Até hoje foi a melhor resposta a essa pergunta, espero não citar errado. Foi algo assim: “Não ter pressa, mas não perder tempo.” É importante não querer que o texto fique pronto antes da hora. É importante você respeitar, que o próprio texto vai dizer que está minimamente, suficientemente pronto. Porque pronto acho que não fica nunca, um percentual grande de possibilidade de estar pronto. Mas ao mesmo tempo não perder tempo. Na verdade, eu acho, quem escreve tem uma certa tendência ao diletantismo, eu sou assim pelo menos, se interessa por vários assuntos e acaba não escrevendo direito. Então, é importante se centrar no trabalho, saber o que quer fazer. Por exemplo, um defeito que encontro no meu primeiro romance: querer abordar todos os temas. A impressão que eu tenho… Tenho a impressão que eu que queria falar de tudo, como se nunca mais fosse ter a oportunidade de escrever. É uma bobagem. Porque, às vezes, com um pequeno tema, um pequeno assunto, você pode dizer muito. Pode dizer muita coisa interessante. Acho importante esse foco, esse direcionamento, mas também uma falta de pressa. Uma capacidade de deixar o livro se levar.

AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA

A CONSTRUÇÃO POÉTICA DE UMA TRAJETÓRIA

Por Ramon Mello (Revista SaraivaConteúdo – 2010)

Affonso Romano de Sant'Anna / Foto de Tomas RangelPara o poeta Affonso Romano de Sant’Anna, “a morte é uma construção que se faz em vida”. A sua produção poética e crítica — se encontram nos caminhos diversos de sua trajetória — fazem parte dessa tentativa de registrar as idiossincrasias da experiência humana.

“A literatura, por exemplo, a poesia, para mim, é a construção que você deixa sobre a destruição. É a própria narração da destruição, mas, dialeticamente, construindo algo que vai cobrir aquele vazio. A impressão que o escritor tem — não sou só eu, qualquer escritor, qualquer artista que produz um som, produz uma imagem — quando produz uma coisa, ele preenche o vazio, ocupou o espaço. A vida, no caso do escritor, só existe quando for transformada em palavras.”

Um dos intelectuais mais atuantes do Brasil, Romano de Sant’Anna se relaciona com o tempo buscando imprimir sua visão de mundo através de versos e textos ensaísticos, num constante estímulo ao pensamento crítico. Confessando que estava cansado de “ler de joelhos”, o poeta sai à procura de um diálogo, em pé, com autores que pensam a sociedade atual.

“Na universidade, se lê tudo de joelho, o tempo todo: Benjamin, Nietzsche… Fica repetindo aquelas coisas que o professor… O professor está de joelho também lá… Eu resolvi ler essas pessoas em pé, o que realmente acho. A vida é uma assinatura pessoal, tem que ter uma redação própria”, afirma o autor de O enigma vazio (Rocco, 2008), entre outros títulos de ensaios, crônicas e poesias.

Diante de uma intensa relação com o tempo, Affonso Romano de Sant’Anna relembra o início de sua carreira, quando resolveu sair de Belo Horizonte, aos 17 anos, acompanhado do irmão mais velho, e levar alguns versos para avaliação do poeta Manuel Bandeira, no Rio de Janeiro.

“Entrei lá e entreguei para ele os poemas. Ele dizendo, de uma maneira muito seca, que não gostei até: “Olha, se eu não gostar eu digo, hein…”, relata o poeta que foi considerado pelo crítico Wilson Martins como o sucessor de Carlos Drummond de Andrade, no que se refere ao desenvolvimento de uma “linhagem poética”.

A memória, cada vez mais presente em sua vida, nos faz compreender que “cair no tempo é parar de deslizar na superfície das coisas e mergulhar dentro de você, a descoberta da própria noção de tempo”, como declara o poeta.

Quando jovem você reuniu seus versos e levou ao poeta Manuel Bandeira. Como foi essa história?

Affonso Romano de Sant’Anna – Isso era muito aquela ansiedade do jovem escritor — ele precisa de um aval, precisa de contato com um grande escritor, que diga de alguma maneira, uma palavra sobre seus escritos. Então, naquela coisa provinciana, meio adolescente, até uma certa meiguice, eu saí de Juiz de Fora e fui ao Rio de Janeiro. Tive um encontro com Drummond também, que até fiz uma crônica sobre isso, na mesma ocasião. E com o Bandeira, foi uma coisa muito meiga ir ao apartamento dele, o “poetão” estava lá de robe, fazendo um café num canto, conversando com uma pessoa. Fui com meu irmão mais velho, que era uma espécie guardião…

Você tinha 17 anos?

ARS – Tinha 17 anos, com a audácia dos 17 anos. Entrei lá e entreguei para ele os poemas. Ele dizendo, de uma maneira muito seca, que eu não gostei: “Olha, se eu não gostar eu digo, hein…” Eu pensei comigo, na minha vaidade de adolescente: “Claro que ele vai gostar, vai cair de quatro.” Na verdade, passados alguns dias, eu achei que ele tinha se esquecido de me responder. Daqui a pouco, chegou uma carta, uma letra bonitinha e bem feita, envelope de seda… Eu abri, levei para o quarto para ler aquela coisa, o nome dele como remetente. Papel de seda. Começava assim: “Achei muito ruins os teus versos” (risos). Foi muito engraçado porque ele dizia “gostei de uns poemas assim e tal”, e copiou com a mão uns versos que ele tinha gostado. Que era até de um poema que depois reaproveitei e publiquei mais tarde, um poema que tinha tudo a ver com a circunstância. Imagina. O poema se chamava “Poema aos poemas que ainda não foram escritos”. Aquela coisa, você com 17 anos, imaginando quando tiver 50, 60, 70 anos quando teria escrito… Naquele tempo, eu escrevia muito.

Qual foi a importância dessa crítica do Bandeira?

ARS – Foi fundamental. Porque eu já era o maior poeta da minha casa. Eu já era o maior poeta da minha rua. Eu já era o maior poeta do meu bairro. Eu já era o jovem talento da minha cidade. Então, eu precisava que alguém me dissesse a verdade. Não bastava essa coisa afetiva ou familiar, dos amigos… E um poeta te dizer: “Olha você vai ter que aprender, rapaz. Algumas coisas têm que ser devagar. Tem talento e tal, mas vamos lá…” Eu gostei muito, não fiquei chateado, achei aquilo um grande estímulo.

Você sempre quis ser poeta?

ARS – Eu comecei meio sem saber o que eu estava fazendo, escrevendo umas coisas… E como eu tive a coragem também de publicar meus textos em jornal, aos 16/17 anos, fui abrindo caminho…

Como você lida com a relação da memória em sua produção poética?

ARS – A memória está se tornando mais presente de uns tempos para cá. Porque você quando se é jovem está envolvido com o presente e pelo futuro, o passado é uma aquisição, o passado é uma conquista. Eu costumo dizer, quem tem até 25 anos vive no espaço. Você começa a viver no tempo depois dos 30. Cair no tempo é parar de deslizar na superfície das coisas e mergulhar dentro de você, a descoberta da própria noção de tempo. Enquanto o indivíduo não descobre que ele é um ser temporal, portanto sujeito à morte, e que as coisas são precárias, ele não está vivendo, está deslizando por aí. A literatura, no meu caso, é um aprofundamento dessa questão do tempo, uma bifurcação que eu me encontro com o amor e a morte.

Como lidar com o amor, a morte e o passar do tempo?

ARS – É uma relação progressiva nos dois sentidos. Eu acho que você tem que construir a sua morte, não pode deixar para pensar na morte depois de morto. A morte é uma construção que se faz em vida, a morte faz parte da vida. A menos, que você morra num desastre, num acidente, com uma doença de repente… Mas mesmo assim é uma construção, no sentido que você está roubando a destruição com uma certa construção. A literatura, por exemplo, a poesia, para mim, é a construção que você deixa sobre a destruição. É a própria narração da destruição, mas, dialeticamente, construindo algo que vai cobrir aquele vazio. A impressão que o escritor tem — não sou só eu, qualquer escritor, qualquer artista que produz um som, produz uma imagem — quando produz uma coisa ele preenche o vazio, ocupou o espaço. A vida, no caso do escritor, só existe quando for transformada em palavras. O que você não registrou, existe imponderavelmente, egoisticamente, na sua cabeça, na sua memória. O que você registrou é a sua vida concreta e pública. E literatura é isso, sua expressão verbal tornada de utilidade pública.

Além da produção poética, sua produção crítica é bastante intensa. Há alguma divisão nesses trabalhos?

ARS – É meio misturado, sabia? Na minha poesia, por exemplo, tem uma face muito crítica, ela é até ensaística. Eu me lembro de um livro que publiquei nos anos 60 para 70, um livro chamado Poesia sobre poesia, onde os poemas são ensaios, comentários sobre a produção patética da poesia do meu tempo. Então, essa vizinhança existe. Por exemplo, tenho ensaios sobre a interpretação da obra da Clarice onde eu usei uma estratégia, que acho muito sedutora e resultou muito bem, comecei a escrever usando a linguagem, parafraseando um dos contos dela. A maneira mais correta, digamos, de entrar na obra do autor, dentro da linguagem dele. Isso eu tenho feito de diversas maneiras no ensaio.

Com o Drummond, por exemplo…

ARS – O Drummond tem muito disso, mas têm uns ensaios, sobre Jorge Amado e outros, em que adotei essa estratégia intencionalmente. E têm outros ensaios que são mais clássicos. Nesse último livro, O enigma vazio (Rocco, 2008), que é um comentário crítico sobre o mal entendido da arte contemporânea, eu entrei nos textos de Octavio Paz, Roland Barthes, Jacques Derrida, Focault, Lacan… Habitar esses textos para ver as contradições desses textos. Eu sempre digo: Trata-se de não ler esses autores de joelho. Eu cansei de ler autores de joelho.

Você já leu muitos autores de joelho?

ARS – Na universidade se lê tudo de joelho o tempo todo: (Walter) Benjamin, Nietzsche… Fica repetindo aquelas coisas que o professor… O professor está de joelho também lá… Eu resolvi ler essas pessoas em pé, o que realmente acho. A vida é uma assinatura pessoal, tem que ter uma redação própria.

Há quem utilize a vida como resultado final de um livro, sem trabalhar a linguagem…

ARS – Nós vemos isso na Flip. Para falar a verdade, essa coisa do Mário Bellatin, dessa outra Sophie Calle, e vários personagens que perambulam pela Flip, pertence a um gênero, que foi criado pela pós-modernidade, onde não se sabe mais o que é literatura e o que é espetáculo. É um gênero, se deve analisar isso, produto da época. É bom pensar criticamente sobre isso, se você tirar a parte biográfica, espetacular, fica o texto. Será que o texto resiste? Ele tem autonomia para resistir? Você pega o Bellatin, que estava com uma falsa mão: um gancho, um falo, ou um vibrador… Isso é a notícia. As pessoas vão assistir porque ele fez uma performance de tal ordem, a biografia. As pessoas vão atrás do supérfluo para chegar à literatura. Alguém hoje me perguntava: “Você acha que quando Fernando Pessoa escrevia plantava bananeiras, botava roupas, fazia muito barulho?” Não. Ele escrevia em silêncio. Drummond escrevia em silêncio. Quando eu digo que essas manifestações são uma questão de época, não estou censurando, não. Estou tentando colocar isso no devido lugar. Um dos problemas da chamada sociedade atual e contemporânea é que as pessoas não têm mais discernimento de estabelecer categorias. Não significa que as coisas tenham lugar fixo, mas as coisas pertencem a tempos e espaços diversos. As coisas não se equivalem: A não é igual a B, uma banana não é uma laranja… Há que estabelecer categorias para entender o sistema. Uma das coisas mais simbólicas da nossa época diz respeito à famosa Teoria do Caos. A física descobriu, nos anos 70, que o caos não era caótico, o caos tinha uma estrutura. Um cidadão determinado chegou a fazer uma equação do caos, o caos pode ser resumido a uma fórmula. Ao se perceber que o caos tem uma estrutura, um certo sentido, você começa a ver as coisas com mais clareza. O analista, o teórico, o artista é o indivíduo que tenta entender o caos. Alguns tentam ordenar o caos. O artista, eu enquanto poeta, ordeno o caos metaforicamente, através de metáforas. O cientista através de fórmulas. O analista através do texto e do contexto. O nosso desafio é enfrentar os enigmas, por isso eu fiz esse livro, O enigma vazio (Rocco, 2008). Há enigmas que são cheios, o enigma de Édipo era um enigma cheio. Estava lá a Esfinge na entrada da cidade, o Édipo chegou, como chegaram outras pessoas, a Esfinge fazia uma pergunta. Quem sabia responder a Esfinge deixava passar, quem não sabia a Esfinge comia. Mas o enigma tinha um significado. Hoje, em nossa sociedade, têm uns enigmas que não significam nada. Ou seja, são falsos enigmas, pseudoenigmas.

Por exemplo?

ARS – Por exemplo: a nossa sociedade cultua muito a aparência, a imagem. E a maioria das pessoas é conduzida pela aparência, pela imagem. O que seria “conteúdo”, interior, estrutura, passa a não ter nenhuma importância. Não significa que a aparência não tenha nenhuma importância. Mas, já diziam os filósofos, na esteira de Heidegger, por exemplo, que o princípio mínimo de sabedoria é você entender o jogo entre a aparência e essência. Todas as coisas que existem, aparentam, têm aparência. Mas as coisas são mais do que a simples aparência que elas têm. A sociedade que nós temos hoje está levando as pessoas a ficarem presas no aspecto, no sentido “aspectual” da coisa. Elas se sentem confusas, leem jornais e não entendem o que está acontecendo. É uma tempestade de informações. Ou seja, ler o mundo não é uma tarefa fácil, não.

O que você diria para um jovem de 17 anos que o procurasse com o original de um livro? O que precisa para ser um autor?

ARS – Você sabe que isso até acontece? Volta e meia aparece um com alguma crônica que escrevi. “Olha eu li essa sua crônica…” Eles pensam que sou o Manuel Bandeira e tentam reproduzir o ritual (risos). Eu diria uma coisa muito simples: Primeiro, se você quer ser escritor, tem que ler. Se você não for leitor não pode ser escritor. A relação leitor/escritor é uma relação autoacumulativa. Borges é um exemplo disso: escritor/leitor. Machado era um escritor/leitor. Depois, o jovem tem que colocar na cabeça o seguinte: essa é uma relação em longo prazo. Nem todo mundo nasce pronto. Nem todo mundo é Rimbaud, faz o essencial. A corrida em longo prazo. Eu tive vários colegas que começaram comigo na literatura e tinham um talento incrível, mas não deram em nada. Entra outro problema: você tem que se estruturar também psicologicamente. O Allen Ginsberg tem aquele célebre poema: “Eu vi os melhores poetas da minha geração se perderem” (“Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus…”). É necessário até um certo discernimento entre esse negócio da aparência e da essência. A sociedade te chama para um brilho fácil. Se eu quiser tirar a roupa, em Paraty, vai fazer mais sucesso do que publicar um livro.

ANDRÉ DAHMER

“O DESENHO NÃO É A COISA MAIS IMPORTANTE DO MEU MUNDO” 

Por Ramon Mello e Bruno Dorigatti (SaraivaConteúdo – 2010)

André Dahmer / Foto de Tomás RangelAndré Dahmer não perdoa e há dez anos é assim. Suas tirinhas, charges, cartuns, que apareceram na Internet, apresentam algumas das melhores críticas, com muito sarcasmo e escárnio, um humor negro corrosivo e autodepreciativo, sempre direto e claro a estes estranhos anos que inauguram o novo século. A solidão é algo presente no trabalho deste carioca que começou a desenhar ainda criança, uma das maneiras que os pais encontraram para tentar melhorar o problema de déficit de atenção e a hiperatividade. Vem funcionando, e bem. Através do desenho, ele ri deste mundinho covarde, de si e da gente. Os solitários, “seguem morrendo aos poucos nos bares e dentro dos quartos, varando madrugadas sinistras com a ajuda da pornografia em banda larga e álcool, muito álcool”, escreve o quadrinista no prefácio de seu livro mais recente, A cabeça é a ilha, lançado pela Desiderata em 2009, assim como seus outros dois livros, O livro negro de André Dahmer (2007) e Malvados (2008).

Estes últimos personagens, parecidos com um sol e que destilavam veneno e crueldade sem pudor nem piedade, o desenhista matou, para desespero de centenas de milhares de órfãos. “Eles dizem: ‘Ah você abandonou a gente…’, mas não tem importância nenhuma, porque saudade também é bom, faz coisas boas. Eu precisava de mais coisa, não fiz de sacanagem. Também corri riscos, porque tem que correr, abandonar certas coisas. Se tiver que largar amanhã os quadrinhos para fazer o que descobri que gosto de fazer de verdade, não tem problema nenhum pra mim”, afirma Dahmer, que também pinta em aquarela seus solitários e rechonchudos personagens. Em um de seus sites, há uma frase do escritor polonês Witold Gombrowicz: “A arte perturba os satisfeitos e satisfaz os perturbados.” O que ela resume? “Não se pode confundir arte com mercado de arte. A arte, já foi dito, é um pedaço do que o rico pode comprar por não conseguir fazer. Claro que a maioria deles compra por pura especulação. É também uma ótima forma de lavar dinheiro de drogas, armas, diamantes. É um campo que não é dos mais bonitos de se olhar. Arte é outra coisa. Conheço gente que está fazendo arte dentro de casa, grande arte, há muitos anos, e que nunca vai mostrar na rua.”

Dahmer finaliza seu primeiro livro de poesias, Amor como audácia, uma edição com 600 exemplares e capa pintada a mão. “Vai dar um trabalho danado. Mas quando vi que o Liniers tinha feito a mão 5 mil capas, achei que era possível. Sempre tive vontade, imagina, um livro com todas as capas diferentes. E eu duvidava. Mas eu não sou o Liniers, então eu posso fazer 600.” Ele também finaliza um documentário com o amigo Terêncio Porto, onde entrevistaram só pessoas uniformizadas: bombeiro, médico, guardador de carro, gari, garçom. “A gente falava: ‘Você pode dar uma entrevista?’ Aí quando ligava a câmera: ‘Você pode contar como foi seu primeiro beijo na boca?’ O uniforme desumaniza muito a pessoa, depois que você veste um, ninguém te olha, você vira um mobiliário. E são incríveis as histórias, eles choram contando”, diz Dahmer, que se considera só um desenhista esforçado. “Não tenho vergonha nenhuma de falar. Porque o desenho não é a coisa mais importante, do meu mundo, pelo menos.” E o que é mais importante no seu mundo? “O meu funcionamento. Tenho vários problemas, não consigo me deslocar de carro, de avião. Então meu mundo também é ter coragem, para fazer o mínimo que consigo fazer.”

Como foi o começo com o desenho?

André Dahmer – Até a quarta série, já tinha reprovado dois anos. Chamaram meus pais na escola e disseram que provavelmente eu não chegaria à faculdade. Ou seja, me tiraram de burro, ou demente, ou o que for. Eu tinha inquietação, essas coisas que hoje dopam as crianças com ritalina. Na minha época, não tinha ritalina, então me dei bem. Não me drogaram, mas… Eu era hiperativo. Tenho também distúrbio de atenção realmente alto. Tentaram o judô primeiro, mas eu só ficava calado, quieto, desenhando. Colocaram-me em uma escola de arte em frente de casa, da Maria Teresa Vieira, minha professora de pintura até os 16 anos. Entrei lá com 6 anos.

Depois que entrei nessa escola de arte, nunca mais fiquei de prova final, repeti o ano e fui até a faculdade resolvido. Aí em 1994 entrei para Belas Artes, na UFRJ, não me adaptei a todas aquelas questões teóricas. Eu era muito cobrado lá e não tenho paciência para fazer um desenho de quatro horas, por exemplo, que era o que eles queriam. E se o desenho tivesse uma marca de mão — você tem que desenhar com um pano em cima, ou com luva na Belas Artes — o cara falava: “Não, faz de novo.” Aí eu fazia e ele: “Tá vendo essa marca de lápis no papel? Não pode, faz de novo.” E um dia, quando esse cara me mandou fazer de novo, chutei o cavalete e mandei tomar no cu, o filho da puta, reacionário. E fui embora. Ainda bem que fui embora, porque senão acho que não teria feito quadrinhos.

Por sorte, eu tinha passado em outros vestibulares no mesmo ano. Para Desenho Industrial, na PUC-RJ, e para Direito, na UERJ. Então quase que me tornei advogado. Mas fui fazer Desenho Industrial e no terceiro período já estava muito decepcionado: “Caralho, vou fazer embalagem de sabonete para sempre.” Esse papo que falavam no primeiro semestre: “Ah, você vai ter uma profissão criativa”, é tudo mentira.

Você se formou?

AD – Só pelos meus pais.

Não te acrescentou em nada?

AD – Sem querer desdenhar do curso, só um professor me ajudou, se chama Urian. Ele foi o cara que falou: “Você não pode pintar mexendo o pulso, tem que pintar mexendo o sovaco”; “Quem pensa, não pinta; quem pinta, não pensa.” No primeiro dia de aula, ele falou assim: “Quem não quiser assistir, ganha 10. Me dá o nome e pode sair.” Depois falou: “Quem fizer o maior número de trabalhos, ganha 10. O último, fica com zero.” Ele queria uma corrida, que a gente desenhasse o máximo possível sem pensar, para desenvolver o traço. Passou na sala inteira, recolhendo as borrachas — pegou minha borracha alemã, eu não tinha dinheiro nenhum — jogou tudo no lixo. Essa era a linha de trabalho dele. E hoje, certamente, se eu vier a dar aula de desenho, vou jogar a borracha de todos eles fora, porque foi muito importante, sabe?

Ele que me ensinou que é preciso abandonar o mestre, acabar com o culto do faixa preta. Que falou que professor de pintura é tudo picareta, porque a pintura, tal qual o desenho, é que nem uma digital, a sua assinatura. Cada um tem o seu desenho. O problema é quando a gente chega na quinta, sexta série, você troca as aulas de arte e música por ciências, por uma questão cultural. Mas todo mundo nasce com o próprio desenho, sabe desenhar. Porque desenhar não é retratar nada, sabe? Qualquer um sabe reproduzir a Mona Lisa, por exemplo, por regras de geometria, matemática. Na verdade, não há segredo algum em retratar, o problema é achar uma linguagem para o seu desenho, não roubar de ninguém. Referência atrapalha muito. Ainda bem que quando cheguei aos quadrinhos, não tinha lido nada.

Você sofre com a angústia da referência?

AD – Nossa, morro de medo de roubar, chupar dos outros.

De ser acusado de roubar?

AD – Não, não é de ser acusado, é de roubar mesmo, saber que está roubando.

Mesmo inconscientemente?

AD – A vigília é para que não roube ninguém, mas é impossível, né? Um come do outro. Sou muito amigo do Allan Sieber, há anos, desde que ele chegou ao Rio, e do Arnaldo Branco também. Foi por acaso e foi ótimo, porque ninguém falou “vamos unir vocês”. Com certeza, as coisas que faço os influenciaram e vice-versa. Mas morro de medo. Tanto que o lugar das grandes obras é entre os 20 e 35 anos. É difícil você pegar um coroa, que só apareceu na música, na poesia com 50 anos. Porque dos 20 aos 35 — cheguei ao limite agora, estou com 35 — a cabeça está fresca. Não estou fazendo um discurso aqui de que a técnica não serve para nada. Eu mesmo sou um interessado, apesar de ser só um desenhista esforçado. É o que realmente sou, não tenho vergonha nenhuma de falar. Porque o desenho não é a coisa mais importante, do meu mundo, pelo menos.

O que é mais importante no seu mundo?

AD – O meu funcionamento… Tenho vários problemas, não consigo me deslocar de carro, de avião. Então meu mundo também é ter coragem, para fazer o mínimo que consigo fazer. A questão de carreira, eu não sou exatamente um alpinista de carreira. “Ah, agora eu tô fazendo isso para depois fazer aquilo.” Faço mais porque preciso. Que bom que veio o dinheiro, consigo receber pelo que faço. Sei que muita gente não consegue. Hoje, quando vou à uma universidade falar, a pergunta que sempre me fazem e nunca deixam de fazer é: “Como ganhar dinheiro?” Nunca deixaram de fazer essa pergunta. E ganhar dinheiro é uma coisa facílima, na verdade. Você abre um apartamento em Copacabana, bota cinco putas e faz 20 mil por mês. Ou, se você só tem 20 reais, compra uma caixa de cerveja e, quando voltar de noite pra casa, vai ter 40 reais.

Então, na verdade, não é ganhar dinheiro, isso é mole. É como você ganha dinheiro. Você quer abrir um puteiro? Eu não quero. É uma distância enorme entender isso. Esses garotos que estão saindo da faculdade são reféns: “Ah, você não vai sobreviver, vai fracassar, não vai ter emprego.” Isso é uma mentira, um pensamento hegemônico, uma ameaça que a gente está mais distante que imagina, principalmente quem chegou à universidade. Se bem que hoje em dia não mais, porque tem tanta faculdade ruim. Você é capaz de construir sua casa, plantar para comer, de criar animais. Isso é um fetiche, a questão da grana. Você vê gente com muita grana, que continua acordando e trabalhando é um fetiche, você nem tem mais como gastar. Se você morrer, teu neto ainda vai ter, e você tendo dor de cabeça com dinheiro. Quanto mais dinheiro, mais dor de cabeça. Quem cuida do meu trabalho todinho é minha mulher, ela nunca chegou e falou: “Falta dinheiro.” Ela controla tudo, passa as notas, faz tudo. Mas o dia que faltar, tenho saúde, tenho cabeça, não quero perder a saúde, porque o dia que faltar, quero trabalhar em outra coisa.

O que você lia no início?

AD – Não lia quase nada de quadrinhos, até 2001, quando comecei a fazer e publicar na Internet. E também numa ingenuidade muito grande. Sou autodidata, não consigo aprender nada com os outros. Tive que aprender sozinho a colocar os desenhos na Internet. Um tempo de ingenuidade. Um ano depois, me ligaram e falaram “Aqui é do Jornal do Brasil, você quer publicar quadrinhos?” Desliguei o telefone e falei: “Meu amor, acho que um amigo meu ligou me sacaneando.” Porque não sabia que era tão acessado, o site dos Malvados. Naquele tempo não existia essa corrida por acessos. Esses jovens de hoje já nasceram profissionalizados, a fim de ganhar dinheiro. Naquele tempo, a gente não sabia que isso poderia dar dinheiro. Não condeno, não, mas vejo muita gente começar já pensando nisso, em ser assediado por empresas de publicidade, como sempre acontece. A publicidade caminha junto com qualquer novo veículo importante que surge. Depois que fui saber que muita gente lia os Malvados. E é incrível como o despreparo faz coisas boas, sabe? Porque se eu soubesse que desde o início essa gente toda estava lendo, eu iria me preocupar muito mais. Hoje tomo cuidado para não fazer quadrinhos mecanicamente.

E o que mudou depois que descobriu?

AD – Acredito que a crítica é uma das coisas que mais engrandece as pessoas, saber escutar é muito importante. Inclusive os meus melhores amigos não são as que batem nas minhas costas e falam: “Ah, que bom, que coisa maravilhosa que você fez, que tira linda!” São exatamente os que me ligam e dizem assim: “Porra, não faz merda, André, tá errado.” Principalmente para aceitar trabalho, que ligam muito, trabalho, trabalho. Tem que ter o maior critério para fazer as coisas. Para não se misturar com pessoas que não são da minha praia. Mas recebi muita crítica, porque a Internet é o lar dos corajosos, né? Então escrevem para você: “Seu trabalho é uma merda, você não sabe desenhar, odeio você, sua mãe é uma puta.” Isso, no início não tinha. E hoje tem o cara que escreve “Puxa, você estava tão bem fazendo aquilo, porque começou a fazer isso?” E tem o cara que acordou com o ovo virado e, no caso, resolve xingar na minha. Não tem problema nenhum. O anonimato engrandece essas pessoas, que são frágeis, até de caráter e tudo, sei que no fundo ela sabe a condição dela, de se fantasiar de anônimo para falar mal dos outros. Além de achar que ela sabe quem eu sou, ela sabe muito bem quem ela é. Não tenho muita preocupação, mas também não tenho saco para ler. No Orkut, tem os órfãos dos Malvados, um grupo grande com 100 mil pessoas. “Ah você abandonou a gente…”, mas não tem importância nenhuma, porque saudade também é bom, faz coisas boas. Eu precisava de mais coisa, não fiz de sacanagem. Também corri riscos, porque tem que correr riscos, abandonar certas coisas. Se eu tiver que largar amanhã os quadrinhos para fazer o que descobri que gosto de fazer de verdade, não tem problema nenhum pra mim. Minha mulher talvez fique apavorada, mas, para mim, não tenho nenhum apego. Como falei, o desenho não é a coisa mais importante da minha vida, é muito complementar, me acalma, me ajuda a pensar, me faz pensar melhor. Mas não tenho nenhum apego.

E os poemas, como surgiram?

AD – Tenho um grande amigo que é poeta, Rodrigo Linares, e já fizemos coisas juntos, desde jornalzinho de faculdade. Um dia, falei pra ele que queria tirar da gaveta, mas não tenho coragem. Vou lançar um livro de charges no final do ano, não tem problema nenhum para mim, já sei fazer. Mas fico com o maior medo de sair no jornal: “Esse cara devia ter ficado nos quadrinhos.” Um medo danado. Mas é também correr riscos. Esse livro está sendo feito com todo o cuidado do mundo. Se não for para ser, se falarem que não é bom, não é bom, tudo bem. Se chama Amor como audácia, uma edição com 600 exemplares, capa pintada a mão, vai dar um trabalho danado. Mas quando vi que o (quadrinista argentino) Liniers tinha feito, vi que era possível fazer. Porque sempre tive vontade, imagina, um livro com todas as capas diferentes. E eu duvidava. Mas um dia alguém me falou “O cara fez 5 mil, André, então você pode fazer.” Mas eu não sou o Liniers, então posso fazer 600. Consegui acertar com essa editora, a Flâneur.

Qual o preço que se paga — se é que se paga — com tipo de trabalho que você faz, muito crítico, corrosivo, humor negro, autodepreciativo, muitas vezes? Por que essa opção?

AD  – Já disseram que eu faço humor político, já falaram que faço humor de escárnio. Mas já fiz humor de costumes, pastelão, gosto de tudo. E na Internet eu sou o meu editor, os limites são menores, tenho mais espaço para fazer o que quiser e arco com isso. E posso tomar um processo.

Alguém já lhe processou?

AD – Cara, de vez em quando alguém ameaça, mas nunca de processo, sempre de violência, de morte, gente de religião. Fui lançar um livro uma vez e escreveram ameaçando me pegar, por causa de uma tira sobre a Palestina. E o cara botou isso num fórum de judeus radicais. E quem me conhece sabe, para mim, guerra não tem lado certo. Palestinos e israelenses, os dois estão errados, ninguém tem o direito de fazer violência com ninguém. Aí escreveu que iria me pegar, colocou o endereço da livraria. E cachorro que late não morde, né? Você fica dizendo pro outro, “vou te matar”? Não, né? Não sei, acho que tem pouca gente no mundo radical, considero que o mundo tem mais gente tolerante do que intolerante. Sou um otimista, ao contrário do que vocês pensam. Por isso que ainda não acabou. Não tenho muito medo, não.

E como é trabalhar com a autoficção, até onde vai ou até onde pode ir?

AD – Isso quem faz mais entre os meus amigos é o Allan (Sieber). Fiz umas 30 tiras, mas todo o resto é referência das coisas que eu vivo. Anoto muita coisa, agora pedi para minha mulher comprar um aparelho para gravar. Falar, ao invés de anotar no caderno, é mais rápido. E na rua, a riqueza está no outro, né? Não é só em você. O mundo do outro também… Adoro gente tímida. Quando encontro um tímido eu colo no cara. “Quero falar com você.” Queria entender. Têm vários desenhistas que são muito tímidos, Daniel Lafayette, esse rapaz que faz a Menina Infinito, Fábio Lyra. Durante anos, em eventos de quadrinhos, estava aquele cara de óculos e nunca falou nada. Aí um dia me falaram, “esse é o Fábio Lyra”. E eu: “Porra, cara, a gente já se viu tantas vezes, por que você não falou pra mim que você fazia essa Menina Infinito?” E ele: “É, porque não deu pra falar.” E ele que me contou a piada que está no prefácio de A cabeça é a ilha (Desiderata, 2009): “André, o que um tímido falou pro outro quando eles se encontram? Nada.” Dentro dos tímidos tem um universo enorme. Tem muita coisa que pego de matéria bruta que é minha. Mas o do outro é muito engraçado também, é mais fácil rir do outro do que rir de você.

Em um dos seus sites, que vende pinturas, tem uma frase do (escritor polonês Witold) Gombrowicz: “A arte perturba os satisfeitos e satisfaz os perturbados.” O que ela resume?

AD – Não se pode confundir as coisas, porque tem a arte, que é uma discussão que a gente não pode acabar hoje aqui. Uns falam que artesanato não é arte. Arte é o que está no museu? Há grande arte nas ruas hoje. Até cortam um pedaço da rua e levam pro museu. Se você perguntar para um acadêmico, ele vai dizer: “arte tem que ser rara, cara, transferível, transportável”. São 11 elementos, eu acho. E se perguntar para minha tia que pinta porcelana, aquelas rosas, ela vai falar: “Eu sou artista.” É um conceito muito elástico.

Mas não pode confundir a arte com o mercado da arte. São duas coisas que dissocio completamente. A arte, também já foi dito, que é um pedaço do que o rico pode comprar por não conseguir fazer. Claro que a maioria deles compra por pura especulação. Você compra um Mondrian por 30 milhões. Aí no final do ano você vai à Receita Federal e declara que ganhou 80 milhões. Como? Comprei por 30 e vendi por 80 milhões. E isso acontece em arte, em um ano triplicar o preço. Basta o cara morrer, por exemplo. É também uma ótima forma de lavar dinheiro de drogas, de armas, de diamantes. Então tem que dissociar, não pode ter estes dois conceitos juntos. O mercado da arte é uma coisa e é um campo que não é dos mais bonitos de se olhar. E a arte é outra. Conheço gente que está fazendo arte dentro de casa, grande arte, há muitos anos, e que nunca vai mostrar na rua. O Rodrigo Linares é um desses, esse cara merecia uma entrevista, não eu. Mas ele não vai dar essa entrevista para vocês. Ele foi um cara que em certo momento expôs no MAM da Bahia, fez uma exposição na galeria não-comercial mais importante aqui do Rio, só expõe, não vende. Aí o (Gilberto) Chateaubriand comprou dois trabalhos dele, que seria o suficiente, um aval para que ele ganhasse dinheiro pro resto da vida, mas muito dinheiro. E não foi o que ele quis, não foi o que ele fez. Começaram a ligar, porque a caneta desse cara, quando ele passa um cheque para você, é melhor nem descontar o cheque. A assinatura vale mais que o valor. E é disso que muita gente corre atrás, mas para outros, que não se movem pelo dinheiro, é outra coisa. Por exemplo, artista, esse conceito. O Mauricio Mattar é considerado artista. Só perguntar para dez pessoas na rua. Não é porque você é muito visto e o seu trabalho muito conhecido que você é um grande artista. Não é porque ninguém sabe, que você não é. Não é esse o parâmetro de medida. Tem mais gente que acha que é artista do que é artista. Tem mais gente que é vendida como artista e que não é. Eu aprendi a tomar esse cuidado, dissociar uma coisa da outra.

O que você lê, tem lido?

AD – Quando me perguntam isso, sempre falo de um livro que está fora de catálogo, Uma autobiografia de Lucas Frizzo (Azougue, 2004), do Botika. Eu tinha três, aí toda vez que vinha alguém aqui em casa, nego bebia muito e eu falava: “Você tem que ler o livro do Botika”, aí entregava e fiquei sem nenhum. De tanto desapego, fiquei sem o livro. Mas depois me deram outro. É sensacional o livro, tem uma relação com PanAmérica, do José Agrippino. O PanAmérica é no pau, ele não, começa com pontuação, letra maiúscula. Ele corta a Mallu Mader, amarra num cachorro e come o cachorro e a Mallu Mader, só o tronco. Acho que a cabeça também, ou ele poupou a cabeça. Ele tem que relançar esse livro. O Lucas Frizzo tem seis filhas e aí faz um time de vôlei. E aí engravida essas seis filhas, gera 11 garotos e faz um time de futebol. É um dos livros mais duros que já li também; por que o personagem principal é de uma pequenez, um medíocre, escroto. Vou ler agora Cachalote (Companhia das Letras, 2010), do Rafael Coutinho (e Daniel Galera). Tenho livros do lado da cama, aí eu troco sempre, não consigo ficar na mesma coisa. Tem um de poemas, tem esse outro aqui, que está aos pedaços, é um Fernando Pessoa, que alguém roubou de uma biblioteca pública, achei em Friburgo.

Vou lendo o que dá pra ler. Não vejo mais filme, é muito tempo e tenho muita coisa pra fazer. Ao cinema, por exemplo, eu não vou. E livro é mais ou menos a mesma coisa. Então passar o dia todo lendo, não vou fazer mais nada. Duas vezes por semana, leio na cama, para dormir mesmo, tomei uma garrafa de vinho. Mais me ajuda a dormir do que qualquer outra coisa. É uma vergonha falar isso para uma livraria. Mas quem disse que fazer dormir não é bom? Eu que preciso tanto dormir e não consigo. Vinho e livro. Ao vinho, devo minha vida, senão não dormiria.

E música, o que você ouve?

AD – Não ouço quase nada de música. Sou muito desconcentrado, então não pode chegar em casa e ligar a música, pois não consigo pensar em nada, fazer nada. Prefiro o silêncio. Quando vem um grupo de amigos, às vezes meia-noite, uma hora da manhã, eles falam: “Poxa, André, você não poderia botar um sonzinho pra gente?” A música é um negócio maravilhoso, só dei valor agora. Antes achava uma besteira. Para você ver como é importante, como a gente vai mudando. Há dois anos, eu falava: “Desliga essa merda que eu quero trabalhar.” Não conheço nada, todas essas coisas que vocês ouviram nos anos 1990, do Nirvana em diante, não sei nada. Escuto um pouco de música brasileira, de jazz, mas muito pouca coisa.

E animação, assiste, pensa em fazer um dia?

AD – Não vejo TV. O Allan (Sieber) tem um estúdio de animação, a Toscographics — o melhor lugar para se trabalhar —, às vezes eu olho alguma coisa. Sei que têm muitas coisas, mas não dá pra conhecer tudo. Estou terminando um curta com um amigo meu, Terêncio Porto, falta só sonorizar. Então consegui fazer, sabe? É um documentário onde passamos dois dias entrevistando só gente uniformizada. Bombeiro, médico, guardador de carro, gari, garçom. A gente falava: “Você pode dar uma entrevista para a gente?” Aí quando ligava a câmera: “Você pode contar pra gente como foi seu primeiro beijo na boca?” E o cara: “Mas como assim, primeira foda?” “Não, o seu primeiro beijo na boca.” E você tem que ver que coisa linda. O objetivo do filme, quando fiz o argumento, era mostrar… o uniforme desumaniza muito a pessoa, depois que você veste e anda num shopping, ninguém vai te olhar, você vira um cinzeiro, um mobiliário. A minha vontade era fazer isso. E são incríveis as histórias, nego chora contando. O nome provisório é Uniforme, que tem essa definição bonita, do que está correto, pleno, mas também é o que está normatizado, uniformizado. Só falta botar a música, mas tudo é difícil, né? O documentário é lindo você tem que ver. Não sei quando vai sair.

ANDRÉA DEL FUEGO

FICCIONISTA

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2010)

Andrea del Fuego/  Foto divulgaçãoDesde que começou a publicar e participar de antologias, a escritora paulista Andréa del Fuego (pseudônimo em referência à dançarina dos anos 1950, Luz del Fuego) já marcava seu espaço na literatura brasileira contemporânea.

Autora de, entre outros, livros como Minto enquanto posso (2004), Nego tudo (2005) e Engano seu (2007), e integrante das antologias Os cem menores contos brasileiros do século (2004) e +30 mulheres (2005), del Fuego mergulha na história familiar para transformar lembranças em ficção no romance Os Malaquias, publicado pela Língua Geral em 2010.

A narrativa se passa no sul de Minas Gerais, em Carmo do Rio Claro, e é inspirada em sua história familiar, quando seus bisavôs deixaram seus filhos órfãos ao morrerem eletrocutados depois que um raio caiu em sua casa. A realidade dura, aos poucos, vai flertando com a literatura fantástica, entre delírios e imagens líricas, como um longo poema de Herberto Helder. Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Andréa del Fuego detalha o processo de criação de Os Malaquias, além de falar sobre a paixão por escrever literatura infanto-juvenil.

Por que assinar com um pseudônimo?

Andréa del Fuego – Andréa del Fuego é um pseudônimo, meu nome de RG é Andréa Fátima dos Santos. Ele surgiu em 1998, na primeira vez em que publiquei um texto, uma crônica para uma coluna que respondia dúvidas sexuais dos leitores da revista da rádio 89 FM. Eu tinha levado (o texto) para o editor, que se chama Ricardo Cruz, hoje editor da Rolling Stone, para ler o conto. A partir dessa leitura, ele propôs: “E se você respondesse dúvidas sexuais dos leitores como o personagem desse conto?” Achei isso incrível, brincadeira interessantíssima. E a possibilidade de publicar um texto… Ele me pediu, então, um pseudônimo porque Andrea Fátima dos Santos não entra no jogo, não é? Aí, a minha sogra: “Por que você não coloca, então, Andréa del Fuego?” Imediatamente, achei muito sonoro, e acabou ficando. Depois, eu não sabia muito sobre a vida da Luz del Fuego, fui atrás, li uma biografia dela, procurei informações. Foi uma mulher muito interessante, muito pioneira em diversas frentes… Mantive um pseudônimo não como um tributo a ela, mas pelo som mesmo. Pela ideia do fogo, e Andréa também é um nome masculino. Já criei diversos motivos para continuar mantendo ele, mas o principal é pela sonoridade.

O encantamento com as palavras surgiu antes desse episódio?

ADF – Eu escrevi antes de ler, na verdade. Primeiro tive uma paixão por escrever e depois uma paixão por ler. A paixão pela leitura surgiu muito depois. É interessante porque a maioria das pessoas que conheço, que se dedicam a escrita, elas, primeiro, se apaixonaram muito pela leitura, tiveram uma experiência muito intensa com a leitura, e disso veio uma vontade de escrever. Eu tive uma vontade de escrever antes. Não venho de uma família de leitores, na minha casa existiam dois livros: uma Bíblia e um livro de receitas. Mas minha mãe e meu pai não eram religiosos, a Bíblia estava lá porque se tinha aquele objeto em casa. E o livro de receitas também nunca foi aberto, quer dizer, nem ler uma receita… Teve um momento que comecei a escrever cartas para familiares em Minas (Gerais), era muito caro ligar para eles. Minha mãe falou: “Vou escrever uma carta… Escreve você, que escreve melhor” (risos).

Você morava em São Paulo?

ADF – Morando em São Bernardo do Campo, que é uma cidade industrial. São Paulo cresceu tanto que, hoje, São Bernardo é mais o subúrbio da cidade. Escrevendo cartas, percebi que tinha um retorno interessante, a resposta. E, em certo momento, eu comecei a inventar notícias. Só que não podia inventar notícias naquela carta… Esse bordado tem muito a ver com minhas tias que trabalham com artesanatos, elas tecem tapetes e bordam toalhas, elas vivem disso até hoje. Eu tenho muitas tias, minha mãe teve 13 irmãos e meu pai, nove. Pequenininha, no sítio da minha avó, eu via minha tia pensar em quantos tapetes ela faria, isso seria o tamanho dos fios na vertical. E colocar no tear, pensar que tamanho tinha, aquele movimento vai e volta um fio, fazendo uma trama… Acho que isso me influenciou muito na escrita, pelo bordado, o artesanato. Tanto que meus primeiros textos são curtos e tem um trabalho mesmo de artesanato.

Uma trama.

Andréa del Fuego – De fato, é uma trama.

Quando criança, você inventava notícias. E, hoje, você tem uma trilogia intitulada: Minto enquanto posso, Nego tudo e Engano seu. Como é sua relação com a verdade no seu ofício?

ADF – Os três títulos têm uma relação com a verdade, é de ocultamento dela. Realmente, tenho um pouco de ojeriza à realidade nua e crua, muito cruel. É muito verdadeira (risos). Minto enquanto posso, Nego tudo e Engano seu é a ficção em si, a invenção em cima do real.

E o seu primeiro romance, Os Malaquias (Língua Geral)? Como foi utilizar a história de sua família como matéria-prima para a narrativa?

ADF – Ele é baseado numa verdade, numa história da minha família. O livro começa com um acidente natural, um raio que cai na casa de um casal e deixam órfãos os filhos. Isso aconteceu mesmo com meus bisavós, eu não os conheci porque eles morreram eletrocutados por um raio. Meu avô é o Nico… Eu mantive, inclusive, os nomes deles: Nico, Julio e Antonio, são os nomes verdadeiros. Sempre existiu um mito familiar em volta dessa história, sempre foi contado, de vez em quando, mas com certo tabu. Eu sabia que, um dia, escreveria a respeito, mas o realismo fantástico vem de uma certa fuga da realidade mesmo, de construir um mito familiar. A verdade da família já é uma ficção. Quando o meu avô tem uma impressão, ainda infantil sobre o acidente natural que aconteceu na vida dele, esse trauma… Ele nunca conseguiu narrar essa história, ele não narrou. Uma tia comenta: “Não, porque acho isso, isso e isso…” Já começa o mito, uma construção. A verdade, mesmo? Eu posso me perguntar se realmente isso aconteceu. A essa altura do campeonato isso não interessa mais, não é? O que fiz foi narrar, pelo menos o começo do livro, aquilo que ele não consegue, tomado de tanta emoção. Meu avô, minha família é muito emotiva. Eles são muito contidos, a força é sempre latente. As coisas estão acontecendo, as piores que você possa imaginar, e eles estão calados.

Em relação aos primeiros livros, o que há de tão diferente neste romance?

ADF – Eu comecei a escrever Os Malaquias em 2003, 2004. Eu fiquei trabalhando nesse livro, desde vários abandonos ao retorno a ele, seis, sete anos. E, durante esse tempo, publiquei outros seis livros: três juvenis e outros três de contos. Então, muita coisa aconteceu durante esse processo. O romance, que estou começando a escrever agora, esse vai ser uma nova fase. A gente sempre tem essa impressão a cada livro novo, não é? Os Malaquias é uma coisa que já ficou para trás. A linguagem… Não sei se ela continua ou se ela me satisfaz. O realismo fantástico, eu tive um trabalho enorme para limpar esse realismo todo. Porque eu delirei com o livro, delirei mesmo. Tinha algumas passagens, assim, desnecessárias, mas eu me encantava com aquilo. O trabalho de anos foi limpando os excessos. Meu sonho de escrita é escrever de pronto, com os excessos já para trás.

Esse novo livro já tem nome?

ADF – Tem o nome provisório, Sonar. Estou começando do zero. Eu já tinha escrito algumas páginas, mas limpei tudo, estou começando do zero.

Você também é autora de livros infanto-juvenis. Como é escrever para esse público? Há muita diferença quando você escreve para adultos?

ADF – O público juvenil é muito mais exigente. Porque o adulto, de saída, já faz um pacto de cooperação com autor. Se ele já gastou, 30 reais, 40 reais, com aquele livro, já fez um pacto de entrega. O adulto dá uma chance. O adolescente não, e ele quer uma explicação exata das coisas. Com o público adulto você pode não deixar as coisas explicadas, elas estão subtendidas… A maturidade faz com que você não tenha tanta necessidade de certezas, já se acostumou com as não-respostas. Com o adolescente, não é qualquer resposta, ele exige uma lógica fria, quase matemática. É muito interessante. É o que tenho percebido com os leitores juvenis, principalmente com o Sociedade da Caveira de Cristal, o primeiro que escrevi. É uma história em que o bairro está em quarentena porque tem um vírus letal, está matando muita gente, eles (os personagens) não têm mais aula, ficam em casa… Através do computador, eles entram em contato com um jogo, que a medida que vai passando de um fase para outra… Em determinada fase, o jogo acontece em sonho. Eles dormem, deixam o computador ligado, e se encontram com outros jogadores online, em sonho. Eles entram numa plataforma onírica, ali começa o sonho. Tem uma organização por trás disso… E aí a trama vai. Altera a realidade através do sonho. Tenho um bom retorno desses leitores. De vez em quando, ganho — acho que é essa a palavra, “ganho” — um e-mail com alguns comentários… Há professores que incentivam os alunos a escreverem resenhas em blogs da escola. Já encontrei vários (blogs), tem aquela resenha que é de um aluno que nem imagina que o autor do livro vai ler aquele texto. É muito livre, é muito sincero. Tem um retorno muito sincero, que é interessante, para o bem e para o mal (risos).

Você costuma dizer que São Paulo é uma cidade “indoor“. Como São Paulo interfere em sua escrita?

ADF – São Paulo é uma cidade interessante porque ela não é aquela cidade do devaneio explícito, você não sai andando por ela e se inspira. Claro, até pode. Mas não é. A cidade é indoor, as coisas acontecem nos encontros, dentro dos lugares. Você precisa ser iniciado na cidade. À medida que você está iniciado, você entra numa conexão de pessoas próximas daquilo que você está fazendo. Até pelo número de pessoas de diversos Estados, que, sobretudo, têm alguma saudade, alguma ideia de voltar que nem mesmo viveu… A cidade, nesse quesito, é indoor, dos encontros, os encontros literários fizeram muita diferença, um impacto muito grande, no que entendo de literatura. Os encontros com os amigos, os escritores que dividem com você as angústias, as alegrias da escrita… Parece tão bobo, tão superficial, mas não é. Você não volta para casa sem conforto, existe um conforto em ter com quem dividir. Não é com qualquer pessoa que você consegue dividir, dizendo metade de uma frase sobre a angústia da escrita. O outro, que faz aquilo, que é um cúmplice, sabe do que você está falando. Acho que isso vai se construindo. Os encontros, os bate-papos, as cervejas, as viagens, são muito aconchegantes, diminuem um pouco o impacto da solidão na escrita.

O que você almeja enquanto autora?

ADF – Almejo continuar escrevendo. Continuar a escrever com menos angústia. Não acho fácil escrever. Reescrever não é fácil, exige uma disciplina enorme, que também não é fácil. Continuar a escrever é uma opção sem retorno. Minha grande vontade é continuar a escrever, não sei, deslizando mais…

Há algum autor que tenha um caminho literário que você se espelha?

ADF – O autor que me toca muito é o Roberto Bolaño. Mas, enfim, é uma febre mundial em torno desse nome. Mas não é o tipo de vida em que me espelho. Acho que a vida dele não foi nada fácil… Essa ideia, por exemplo, de sacrificar a vida em nome da literatura, acho que não foi o caso dele… Mas existe essa ideia de sacrificar a vida para fazer a grande obra. Eu não gostaria disso para minha vida. Eu só prefiro a vida.

O que é mais importante na vida?

ADF – Poder continuar a escrever. Muitas coisas que precisam dar certo para você acordar e escrever. Eu espero poder continuar a escrever. É mistura, não é? A vida é mais importante, mas a vida tem importância porque se escreve… (risos)

É confuso.

ADF – (risos) Bem confuso.

O que é preciso para se tornar um autor?

ADF – Para se tornar escritor é preciso ter passado boas frustrações. Porque você vai se frustrar muito, por maior que seja o sucesso, por menor que seja o sucesso, enfim, em qualquer possibilidade a carga de frustração é muito grande. Escrever um livro que você não sabe para quem vai, o retorno é sempre muito silencioso. Escrever exige uma energia mental absurda. O tempo inteiro você vai lidar com uma expectativa enorme. Ao mesmo tempo, para você escrever, tem que acreditar muito naquele trabalho. Qual a razão para você parar e escrever um romance, poesia ou um livro de contos? Que motivo move uma pessoa para fazer uma escolha como essa? De cara, você tem esse impulso gigantesco. Assim que termina uma obra, aquilo publica, e já foi embora. Foi para onde? Para onde vão os livros que escrevemos? Quem são os leitores? E por mais que ele diga, dê um retorno sobre aquilo que leu… E? É um suspiro. Quem começa a escrever, o teste é a vontade da escrita por si.

ANTÔNIO XERXENESKY

OBSESSÕES LITERÁRIAS

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2010)

 

Antônio Xerxenesky / Foto Tomas RangelAntônio Xerxenesky é escritor. Mas, aos 25 anos, ainda não se sente confortável com o título. Ele também atua como editor na Não Editora, onde organiza a revista online de crítica literária Cadernos de Não-Ficção. E, entre tantas leituras, mantém suas obsessões literárias: Julio Cortázar, Roberto Bolaño, Thomas Pynchon, Javier Marías, André Sant’Anna…

Gaúcho de Porto Alegre, filho de pais leitores, Xerxenesky acaba de relançar seu primeiro romance, Areia nos dentes, pela editora Rocco num contrato que consiste, ainda, na publicação de dois novos livros. Um trabalho realizado em paralelo à constante reflexão sobre o ofício. O romance é um faroeste com zumbis, narrado por um bêbado mexicano, inspirado no Alone in the Dark 3, o jogo de videogame. Uma prosa repleta de referências cinematográficas, como Sergio Leone e Sam Peckinpah, além de um forte diálogo com a literatura de Cormac McCarthy, autor de Onde os velhos não têm vez (Alfaguara, 2006), que virou o premiado filme dos irmãos Coen. Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Antônio Xerxenesky fala com paixão sobre a dedicação à escrita.

Você se formou em Letras e está cursando mestrado em Literatura Comparada. Como você concilia os estudos acadêmicos com o ofício da escrita?

Antônio Xerxenesky – Bom, acabei virando “escritor”. Me sinto ainda esquisito com o rótulo “escritor”. Acho esquisito uma pessoa de 25 anos se dizer escritor. Me tornei escritor porque eu lia muito. Sou, antes de tudo, um leitor. Escrever é consequência. Como é que me tornei um leitor? A câmera não pega, mas estou na casa dos meus pais, minha mãe tem uma biblioteca enorme. Três quartos aqui da casa são forrados de livros. Ela é formada em Crítica Literária. Desde criança, vivi cercado de livros, meus pais sempre leram muito. É quase natural, para alguém que vê pessoas lendo, um dia querer descobrir o que tem de tão emocionante nesse “objeto-livro”. Algum dia começa com um livrinho besta, mas algum tem que roubar um livro do (Julio) Cortázar e descobrir o que é que tem de bom. E quando tu vês não consegue mais parar de ler, meio que uma doença (risos). Escrever acaba sendo consequência. Se a pessoa ler demais, ela acaba pirando com isso e querendo escrever. Foi o que aconteceu comigo. E também por isso que entrei na faculdade de Letras e agora estou no mestrado de Literatura Comparada. Mas quanto mais tempo passo na academia, mais eu vejo que isso não é para mim.

O conhecimento acadêmico não ajuda ao seu processo de escrita ficcional?

AX – A vida acadêmica me tirou muitas ingenuidades quanto à escrita. Quando vejo um escritor falando: “Tenho uma ideia, inspiração, as mãos não param…” Se eu tinha a chance de fazer esse tipo de escrita, ela acabou para mim. Minha escrita é totalmente racional, desenhando mil esquemas, pensando todas as reflexões teóricas que podem até surgir do livro… Acaba se tornando uma escrita um pouco empedrada, mas eu tento contrapor com alguma leveza, algum humor. Acho que dá certo. Se a minha ficção deu certo foi por causa disso. A academia não aborda a literatura do jeito que eu gosto de abordar enquanto leitor. Não pretendo seguir carreira acadêmica, a não ser que tudo dê errado na minha vida (risos). Se eu estiver muito desesperado, volto e faço um doutorado… A academia faz ler os livros de uma forma diferente, o que é muito interessante. Ela vai contra o senso comum, isso é muito importante. Mas, de certa forma, ela drena o prazer da leitura. E o prazer da leitura nunca se pode tirar. Se vai se falar de leitura tem que se falar sobre o prazer que é ler um livro. Isso é sagrado pra mim.

Na descoberta da biblioteca de seus pais, que autores despertaram seu interesse pela escrita?

AX – As primeiras grandes descobertas para mim foram Cortázar e, curiosamente, o Daniel Galera. Porque eu era adolescente, tinha 16 anos, quando saiu Dentes guardados (Livros do Mal, 2002), o primeiro livro de contos do Galera. Que, lendo em retrospecto, acho um livro bem fraco, acho que ele também concordaria que é um livro fraco. Mas um livro muito importante para mim. Um livro que aqui no Rio Grande do Sul chamamos de um “livro de guri”, que tu escreves quando está naquela idade que transmite uma gama de sensações. E aquilo me marcou muito, mostrar uma pessoa que vivia numa situação parecida com a minha — Porto Alegre, classe média — podia escrever algo esteticamente tão interessante. Depois, obviamente, surgiram outros escritores que marcaram muito: Thomas Pynchon, que me ensinou tudo que eu sei sobre o que se costuma chamar de “pós-modernismo”, onde supostamente o que escrevo se encaixa; e o (Roberto) Bolaño, que foi a descoberta mais recente, com quem trabalho na faculdade.

Já leu as 852 páginas do 2666 (Companhia das Letras, 2010)?

AX2666? Li faz tempo, em espanhol. O Bolaño é uma paixão recente, contrária a tudo que eu gostava antigamente na literatura… Porque acho a prosa dele extremamente política. Não do sentido “sou de esquerda contra a Ditadura”. Essa é uma visão muito reducionista do Bolaño. Mas o Bolaño tenta pensar qual é a importância da literatura. E, de certa forma, conclui em tom decepcionado que a literatura não serve para muita coisa. Mas ainda sim é tudo que nós, obcecados por literatura, temos. Tive uma identificação muito forte com esse personagem do Bolaño, que é, ao mesmo tempo, um herói, que tenta escrever a todo custo, e um idiota, porque aquilo não serve para absolutamente nada.

Para que serve a literatura para você?

AX – Eu estou nessa com o Bolaño. Livros não vão mais mudar o mundo. E dificilmente vão mudar muitas pessoas. Se tu escreves, tu escreves para um gueto. Não é um gueto econômico… Alguns escritores, pouco literatos que simplesmente gostam de ler. O alcance da literatura é mínimo, sempre foi mínimo. Não está diminuindo, eu diria. Diria até que está aumentando, nunca se leu tanto no Brasil. Não adianta, se a pessoa gosta realmente de ler, ela não tem saída… Inevitavelmente você vai ler muito, inevitavelmente você vai querer escrever. Mas não serve para nada no final das contas. Cômico, trágico.

Além de autor, você é editor da Não Editora. Como é essa experiência?

AX – A Não Editora começou assim… Um grupo de amigos percebeu que tinha tudo para montar uma editora: um revisor, um diagramador, um designer gráfico, uma assessora de imprensa… E tinha eu, que não faço nada, mas que conheço todo mundo (risos). A gente pensou: “Temos tudo para montar uma editora! Vamos combinar nossos ‘talentos’ para publicar os nossos textos e das pessoas que a gente gosta. E vamos fazer edições realmente bonitas que devam convencer as pessoas a comprar. As livrarias não querem livros feios.” A Não Editora surgiu nesse sentido. E, agora, alguns de nossos autores foram para grandes editoras, como a Carol Bensimon (autora do livro de contos Pó de parede, Não Editora, 2008, e do romance Sinuca debaixo d’água, Companhia das Letras, 2009). As editoras pequenas têm a função meio cretina no mercado literário: descobrir os novos autores. As grandes editoras estão esperando que a gente faça esse trabalho de descobrir quem é que está escrevendo bem na cidade e publique. Depois elas: “Esse aqui é realmente é muito bom, para o segundo livro vamos chamar ele…”

Olha quem estamos lançando!

AX – Enfim, é complicado. Mas é assim que funciona o mundo.

Você acaba de republicar seu livro Areia nos dentes, cuja primeira edição foi lançada pela Não Editora, em 2008.

AX – A Rocco me contratou para três livros. A reedição do Areia, que acabei mudando muita coisa, tem cinco páginas a mais de texto e um monte de frases, que estavam feias, eu ajeitei… O próximo livro, não está com o título definido, é de contos. Não porque eu não consigo escrever um romance, voltei aos contos com intenção de escrever um bom conto. É uma carta de amor cheia de ironia e deboches, bem sarcástica.

E o terceiro livro?

AX – Eu não tenho ideia (risos). Mas tenho um prazo, isso que é o pior. O Areia nos dentes nasceu de uma forma meio sofrida. Quem está acostumado a escrever contos, que não precisa de muito fôlego, sofre para escrever um romance. Romance precisa da disciplina. E ainda mais um romance como o meu, que, boa parte dele, se passa no Velho Oeste. Tinha várias vezes que eu acordava de manhã e não queria escrever uma história no Velho Oeste… Eu queria escrever alguém pedindo uma Coca-Cola, fazendo alguma coisa que não seria possível no Velho Oeste. O romance tem essa disciplina de te obrigar a permanecer naquele universo, com aqueles personagens. Então, foi sofrido. O primeiro romance deve ser um sofrimento para todos os escritores. O Areia nos dentes tem uma ideia, muita gente achou original, que é faroeste com zumbis. É isso que ele é na essência dele. Na verdade isso veio do videogame porque sou um gamer inveterado. Tem um jogo chamado Alone in the Dark 3, que é um faroeste com zumbis. Eu roubei descaradamente disso, mas, ao mesmo tempo, é um livro muito literário. Não só por causa das referências, tem toda uma meditação sobre qual a função da literatura; qual a “intenção” da literatura; por que alguém vai narrar uma história. Todo narrador tem um motivo, consciente ou inconsciente. Mais do que um faroeste com zumbis, eu tentei pensar sobre o fazer literário. A relação com o cinema é muito evidente no Areia nos dentes

Fui um grande cinéfilo e hoje em dia meio que abandonei de vez. Obviamente o cinema me influenciou muito no Areia nos dentes porque é totalmente baseado nos filmes do Sergio Leone e Sam Peckinpah, grandes diretores de faroeste. Mas, hoje em dia, quase não vou ao cinema. São linguagens que não se comunicam tanto. O cinema chega a lugares que a literatura não chega. E a literatura chega a lugares que o cinema não chega. Já viu uma adaptação de Ulisses (de James Joyce)? Sempre fico constrangido quando vejo alguém adaptando Ulisses, fica um horror. Tenho visto cada vez menos filmes.

E as influências literárias? Areia nos dentes fala do México, faço uma associação com o Roberto Bolãno.

AX – Obviamente, eu tinha lido Detetives selvagens (Companhia das Letras, 2006) em 2007. Para o Areia nos Dentes, as principais influências foram o Against the Day (Putnam, 2006, não traduzido no Brasil), do Thomas Pynchon — minha grande paixão, um escritor norte-americano completamente louco que escreve calhamaços de 700, 1.200 páginas sobre tudo e tenta dar conta de um universo e sempre fracassa. E o Cormac McCarthy, que pensou como seria possível escrever um faroeste nos dias de hoje. E tenho lido coisas um pouco diferentes, com muito rigor: Roberto Bolaño; Enrique Vila-Matas, outro obcecado por literatura; e, principalmente, Javier Marías, um escritor espanhol que aqui no Brasil ainda não recebeu a atenção que merece. Ele é um escritor de se ler em voz alta. Não sei como estão as traduções porque sempre li em espanhol. Ele é um escritor de sintaxe. Sempre que estava lendo o Coração tão branco (Companhia de Bolso, 2008), eu tinha que fechar o livro e dizer: “Esse cara é um gênio!” E tinha que ler trechos em voz alta, de tão boa que era a prosa, uma prosa crocante.

E os autores brasileiros?

AX – No Brasil, tenho que dizer que meu escritor favorito, vivo, é, sem dúvida, o André Sant’Anna. A minha escrita não tem absolutamente nada a ver com a do André Sant’Anna, nunca escrevi nem um conto parecido com o que ele escreve. Mas não tem ninguém empurrando as fronteiras da linguagem como o Andre Sant’Anna. O que é curioso, ele é visto como um escritor pop, meio bobão. Não faz sentido para mim, os livros deles são violentíssimos. O paraíso é bem bacana (Companhia das Letras, 2006) que, para mim, é o grande romance brasileiro, é uma reflexão sobre como a linguagem constitui o ser humano. E o livro dele é lido de maneiras bestas, como se fosse panfleto político, comentários sociais rasos… Não. André Sant’Anna é gênio. Ninguém escreve tão bem como André Sant’Anna. E o pai dele também, o Sérgio Sant’Anna, eu diria que é o segundo maior escritor vivo, brasileiro. (risos) Que família essa dos Sant’Anna.

Seu primeiro livro é um livro de contos, Entre…

AX – (risos)

Um “livro de guri”?

AX – É. Um “livro de guri”. No “inicíssimo” da minha carreira de escritor eu lancei um livro de contos chamado Entre, que é um livro de alguém que está iniciando. Ele tem boas ideias e péssimas execuções. É um livro que foi esquecido, merecidamente foi esquecido. Mas ele serviu de laboratório com que eu viria a trabalhar depois. Por isso, ele é minimamente relevante.

Você é otimista em relação à produção de jovens autores?

AX – Acho que a literatura brasileira está vivendo uma fase excelente. Tem que ser muito cego para não enxergar a quantidade de escritores maravilhosos que estão publicando agora. Tem gente demais escrevendo? Tem. Qual o problema? Não é um problema. Se alguma coisa me incomoda é aquele autor novo que não leu o seu livro, mas ele quer que tu leias o dele. Não porque tu és editor, mas não sei por que insiste que vai ajudá-lo a ser publicado ou alguma coisa… Ele não leu o teu livro, não é leitor da literatura brasileira contemporânea, mas quer ser um escritor contemporâneo. Isso não faz sentido para mim, é muito comum. E me irrita. Mas a gente está vivendo um período excelente, que bom que tem tanta gente escrevendo.

ARMANDO FREITAS FILHO

POESIA COM ROUPAS DE CASA

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2009)

Armando Freitas Filho / Foto de Tomás RangelAos 69 anos, Armando Freitas Filho não quis fazer noites de autógrafos para o lançamento do seu novo livro, Lar (Companhia da Letras). Preferiu ficar em casa com a família, dedicando-se à literatura, cercado por seus livros.

“Não tenho mais tempo a perder. Tenho muitas coisas para estudar, o que é diferente de ler. Lar é o livro mais importante que já escrevi. Por quê? Porque é um livro onde a veste está mais rasgada. Literatura é sempre uma veste. Esse livro é o que mostra mais o coração”, declara o poeta, ao falar de sua publicação mais recente, um “livro da memória”.

“É um livro que resgata vivências pretéritas, sensações de quando eu era pequeno. Mas não há um fio de condução, é algo que se superpõe como a memória — o que Proust chamava de ‘memória involuntária’. É um livro longo, o maior que escrevi, deve ter uns 121 poemas.”

Autor de mais de 20 títulos, o poeta reuniu, em 2003, sua obra no livro Máquina de escrever (Nova Fronteira): Palavra, Dual, À mão livre, 3×4 (Prêmio Jabuti de Poesia 1986), De cor, Números anônimos, Fio terra, entre outros livros que registraram seus 40 anos de carreira. Antes de Lar, estreou na Companhia das Letras com Raro mar, lançado em 2006.

Sentado numa poltrona, Armando relembrou sua trajetória literária, detalhando episódios importantes da sua vida, desde a experiência na biblioteca do pai ao lançamento do seu primeiro livro, Palavra (1963), com a benção de Manuel Bandeira, um de seus poetas prediletos junto a Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto — Santíssima Trindade da poesia de Armando.

Impossível conversar com Armando Freitas Filho e não falar de Ana Cristina César, os dois mantiveram uma relação marcada por poemas e cartas de amor e amizade. Não é a toa que ele tornou-se guardião e referência da obra de Ana C.

Curiosamente, na semana do encontro com o poeta, encontrei o livro Longa vida (Nova Fronteira) num sebo no Centro do Rio de Janeiro. Ana C., que assinou o prefácio do livro, fez a seguinte observação:

“Eu sou um livro — declara o poeta de saída, invertendo a fórmula de Walt Whitman, que concluía o seu Leaves of Grass (Folhas de relva, Iluminuras, 2005) com um ‘este livro sou eu’. Quem? Who’s dunnit? ‘Quem escreve aqui? Essa questão atravessa uma longa vida.”

Por que você optou por não fazer o lançamento do novo livro, Lar (Companhia das Letras)?

Armando Freitas Filho – Fazer noite de autógrafos é muito chato e cansativo para quem faz e para quem vai. Já fiz tantos lançamentos, mais de 50 noites de autógrafos desde 1973. Depois de um tempo — quando se tem 69 anos — fica um pouco chato. Prefiro ficar em casa com minha família. A editora me deixou livre para não fazer o lançamento.

É a primeira vez que você assina a orelha do seu próprio livro?

AFF – Sim. Não quis que ninguém escrevesse nada. Até que consegui escrever uma orelha bastante isenta.

Lar é um livro de memórias?

AFF – Não. É um livro “da memória”. Inclusive a orelha começa assim: “Este não é um livro de memórias, mas pode ser um livro da memória.”

Por quê?

AFF – É um livro que resgata vivências pretéritas, sensações de quando eu era pequeno. Na primeira parte do livro — “Primeira Série” — há trinta e poucos poemas que tratam do jogo lúdico da criança. Mas não há um fio de condução, é algo que se superpõe como a memória — o que Proust chamava de “memória involuntária”. É um livro longo, o maior livro que escrevi, deve ter uns 121 poemas. A segunda parte tem o título de “Formação”, e os poemas têm nomes, diferente da primeira parte em que os poemas são “esquetes”. É como se na segunda parte eu objetivasse a subjetividade da primeira parte. É um jogo de pegada e “repegada”. O jogo da memória é perder e ganhar, a gente nunca sabe mensurar. A terceira parte começou no livro Numeral nominal (Nova Fronteira, na coletânea Máquina de escrever), uma série que não tem fim. São pequenos poemas com números, uma contagem infinita. Essa parte é muito importante porque, desde 2003, marca os passos da minha vida de poeta. Uma poesia companheira, que está sempre retomando. É como olhar as refrações de uma pedra. Lembro dos belos versos do Drummond: “Dos cem prismas de uma joia, quantos há que não presumo.”

O seu primeiro livro, Palavra, foi lançado em 1963. Qual a diferença de lançar um livro aos 23 e aos 69 anos?

AFF – Acho que aos 23 anos eu não sabia que a pele era tão fina (risos). Agora eu sei, mas não criei calo. Isso não é uma regra. Por exemplo, meu filho trouxe um simulado de vestibular de 2005 que tem o primeiro poema que escrevi para o livro Palavra: “Corpo”. Esse poema já ganhou tradução em inglês e agora está numa prova de vestibular. Inclusive li as perguntas: acertei duas e errei uma (risos). O poema, antropologicamente falando, atravessou mais de duas gerações.

Qual a sensação?

AFF – É forte. A sensação de enxergar o que não se pode enxergar: a posteridade. Uma sensação ambígua.

Você pode ler o poema “Corpo”?

AFF – Eu não gosto de ler porque sou gago, fica estranho. Mas leia, por favor.

Corpo

Acrobata enredado

Em clausura de pele

Sem nenhuma ruptura

Para aonde me leva

Sua estrutura?

Doce máquina

Com engrenagem de músculos

Suspiro e rangido

O espaço devora

Seu movimento

(Braços e pernas

sem explosão)

Engenho de febre

Sono e lembrança

Que arma

E desarma minha morte

Em armadura de treva.

AFF – Escrevi esse poema aos 20 anos. Eu levei o livro Palavra, em originais, para o Manuel Bandeira ler. Ele disse: “Seu livro é interessantíssimo. Mas quem vai poder dizer uma coisa ‘batata’ são os seus companheiros de geração. Vou lhe dar dois nomes: Ferreira Gullar e José Guilherme Merchior.” José Guilherme acabou virando meu prefaciador. Eu tinha 22 e o Zé tinha 20 anos. Foi o Zé que me fez lançar esse livro. O Rubens Gerchman, meu amigo que morreu há anos atrás, fez todas as capas. Lar é dedicado a ele. Eu e Rubens fizemos dois livros juntos.

Como você conheceu o Gerchman?

AFF – Nós nos conhecemos no Colégio Andrews, eu tinha 17 e ele tinha 15 anos. Amigos de “longa vida” (risos). Faríamos 51 anos de amizade (O artista plástico faleceu em janeiro de 2008). Nós estávamos programando outro livro juntos. Era um entendimento de vida inteira. Sou filho único, ele era meu irmão.

Você também teve uma relação muito forte com a poeta Ana Cristina César. É inevitável falar com você e não perguntar sobre ela.

AFF – Nossa relação foi intensa e produtiva. Por vontade da família, fiquei como curador da obra de Ana Cristina César. Organizei quatro livros póstumos por causa da intimidade que compartilhávamos. Mantínhamos uma relação de confiança pessoal e literária. Nós ficamos nessa transação forte e intensa por dez anos, de 1973 a 1983.

Qual o impacto do suicídio dela em sua vida?

AFF – É enorme. No livro Lar, escrevi o poema “Nas bodas de prata de lei da sua morte”, sobre os 25 anos da morte dela em 1998. Nesse poema eu digo: “nunca pensei que uma coisa tão selvagem acontecesse comigo”. Fui a última pessoa que falou com ela. Eu tinha combinado de ir a casa dela, mas eu liguei dizendo que não iria porque não queria que ela pegasse gripe. Ela estava frágil. Uns 40 minutos mais tarde a mãe dela me ligou contando o que tinha acontecido e dizendo que havia uma carta pra mim.

NAS BODAS DE PRATA DE LEI DA SUA MORTE

pensando na Ana

A intimidade da sua morte pública

espetacular, com a cortina aberta

marcou minha vida funcionária.

Nunca pensei que me acontecesse

alguma coisa assim – selvagem –

tão próxima, ou que fosse possível

a alguém, contida, mas em guarda

desatar-se no espelho, de uma vez

e partisse para o ataque a si mesmo

através de dias de decididos suicídios:

primeiro, em narcótico mar, depois

corte! para o abismo da queda livre

traduzindo, à sua maneira, o tumulto

do tempo no qual viveu, de modo

perfeito, fidedigno, sensacional.

O que dizia essa carta?

AFF – É uma carta escrita três meses antes. Como sei disso? Pelo que a carta dizia e pela firmeza da letra dela, que depois ficou muito trêmula por causa dos medicamentos.

Vocês foram namorados?

AFF – Sim. Mas isso importa pouco. O que era mais forte era a ligação, a amizade. Era uma relação intensa, com muita briga e carinho.

Ela também foi amiga do Caio Fernando Abreu.

AFF – A Ana teve conhecimento do Caio no final da vida dela. O Caio foi a pessoa que batalhou pelo lançamento do livro dela, A teus pés, na Brasiliense. Ele já era um escritor conhecido, a palavra dele era muito forte, influente.

EM 2003, na comemoração aos 40 anos de carreira, você lançou Máquina de Escrever. Por que revisar e reescrever todos os poemas?

AFF – Eu agi como muitos autores fazem. Mas eles não dizem nada. Dylan Thomas e Murilo Mendes, dois grandes poetas, assumiram essas mudanças. Convoquei os dois e publiquei as palavras deles na contracapa do livro.

Encontrei o livro Longa Vida (Nova Fronteira) num sebo, no centro do Rio de Janeiro. O que você sente quando encontra um livro seu num sebo?

AFF – Eu nunca encontrei, acredita? Uma vez, um rapaz encontrou um livro meu cheio de anotações e me presenteou.

Como encarar a passagem do tempo?

AFF – É uma faca de dois gumes. O gume bom: ver pessoas novas indo ao sebo, encontrando meu livro, conversando sobre literatura. O gume ruim marca e mata. Nunca pensei que o tempo fosse passar tão rápido. Agora estou falando sobre esse assunto. É estranho. Estou falando de alguém que já escreveu e viveu muito. E pergunto: Falta o quê? Quanto tempo ainda falta? Você vai se lembrar disso quando tiver a minha idade. Vai lembrar que um homem de 69 anos disse: “Nessa idade a gente nunca sabe o que falta. Não se sabe se conta mais ou menos um dia.” Você vai se lembrar. É uma espécie de praga… (risos) Eu conto minha vida por livros publicados e Copas do Mundo. Até que Copa eu vou? Em 2014 espero estar vivo para assistir a próxima Copa no Brasil, como assisti em 1950. Depois de um tempo a gente vive fazendo contas, algo inimaginável quando se tem 20 ou 30 anos. Eu lido muito mal com o envelhecimento, fico indignado. Não sou um velho bonzinho. Fico puto! Sou católico, mas não cumpro todos os ritos. Acredito em Deus. Mas isso não me impede de ficar revoltado. Quero ir para o céu. Mas o que é o céu? Pode ser uma delícia insuportável, como o pudim de leite. Quero que o fim seja uma delícia suportável.

De onde surgiu essa paixão pelas palavras?

AFF – Eu fui parcialmente cooptado para a literatura através de minha família. Meu pai era procurador, lia muito e vivia rodeado de livros. Eu sempre gostei de ler. Sou mais leitor do que escritor, passo minha vida lendo. Mas eu fui um menino rebelde e difícil. Aos 15 anos, comecei a escrever, era bom em português e adorava escrever redação. Em 1956, meu pai me presenteou com as obras completas do Manuel Bandeira e do Carlos Drummond de Andrade.

Você costuma dizer que Manuel Bandeira, Drummond e João Cabral de Melo Neto formam a santíssima trindade da sua poesia…

AFF – Exatamente. E junto agora o poeta Ferreira Gullar, meu amigo.

Você Já afirmou que seu “poeta de vanguarda, poeta lato sensu, foi Ferreira Gullar”. Mas ao mesmo tempo você esteve engajado à Poesia Práxis, movimento de vanguarda rival à Poesia Concreta, do qual Gullar fez parte.

AFF – Eu e o Gullar não tínhamos a relação que temos hoje. Sobre a Práxis: eu acreditava muito pouco na proposta dos concretistas. E apoiei o Neoconcretismo, movimento que repôs o coração de volta ao poema. O Concretismo extraiu o coração do poema e não colocou nada no lugar. A Práxis mantinha o curso e a coloquialidade da frase. Eu queria escrever e não ter uma “prisão de ventre estética”. Compreende? Quero escrever os porquês todos.

Como é escrever depois da produção dos grandes poetas?

AFF – Temos de querer ultrapassá-los. Há dois lados: o amor e a raiva, a vontade de matá-los para criar. É escrever.

Você tem algum ritual na escrita?

AFF – Não tenho rituais para escrever, mas tenho manias. Sou muito mais preso em casa, por exemplo. Não tenho mais tempo a perder. Tenho muitas coisas para estudar, o que é diferente de ler. Estou sempre escrevendo no meu escritório. Lar é o livro mais importante que já escrevi. Por quê? Porque é um livro onde a veste está mais rasgada. Literatura é sempre uma veste. Esse livro é o que mostra mais o coração.

Costumam dizer que sua obra apresenta uma “escrita viceral”?

AFF – De fato, sempre mostrei as vísceras na escrita. Só que o empenho estético, muitas vezes, veste essas vísceras. No Lar, estou com a roupa de casa. Quem escreve nunca está nu, escrever é um escudo de papel. Por isso acho que Lar é o meu livro mais forte.

E a partir dos livros De Corpo Inteiro (1975) e À Mão Livre (1979) você se aproximou do racionalismo de João Cabral De Melo Neto…

AFF – Sim. Mas não perdi as vísceras. Quando eu tinha 15, meu pai me deu um vinil com Bandeira lendo poemas no lado A e Drummond lendo poemas no lado B. Esse foi meu grande feito intelectual. Amei o lado B. Conheci o Bandeira, tive uma convivência amistosa com o Drummond e com João Cabral conversei muito. Eu e João fomos confidentes. Esses três foram a minha base e formação. Sou extremamente grato a eles. Eu não me entenderia como ser humano, por exemplo, sem a poesia Drummond.

Heloisa Buarque de Hollanda, sua amiga, disse que “a espinha dorsal de sua poesia é constituída por três grandes enigmas que a psicanálise chama do ‘real’: a morte, a origem e o sexo”. Concorda?

AFF – Eu devo muito a Heloisa Buarque. Ela foi a primeira pessoa que me convidou a falar numa universidade, isso em 1970. Ela levou uma legião de jovens para a academia: Chico Alvim, Cacaso… Sobre esse comentário, esses elementos estão presentes em Lar. Helô acerta em cheio. O escritor é aquele que reescreve. Aos 20 anos eu já falava em morte. Ou seja, eu sou um obcecado mórbido (risos). Talvez, a palavra que mais aparece em minha poesia seja “morte”, o Control+L comprova.

Como você utiliza a Internet?

AFF – Lido com o que preciso: editor de texto, e-mail e Google — mas não abro mão da enciclopédia. Outro dia, andando na rua, tirei uma foto pelo celular. Ando muito a pé. Então, tirei a foto da minha sombra contra o asfalto e enviei do celular para minha caixa de e-mail. Chama-se “De cara no chão”. Essa foto é inspirada numa foto que Mário de Andrade tirou da sombra dele contra a terra.

A cidade interage na sua poesia de que forma?

AFF – O tempo inteiro. Minha poesia é muito urbana. Inclusive no livro Raro mar (Companhia das Letras, 2006), A cidade muitas vezes se confunde com o corpo, conjugam o mesmo verbo.

Numa entrevista ao escritor e jornalista Luciano Trigo, você declarou que o período da Ditadura militar mutilou seu livro Marca Registrada (Pongetti, 1970). Como a situação política interfere em sua produção?

AFF – Continuo sendo uma pessoa de esquerda; nunca votei na direita. Embora eu vote no PT, nunca me filiei a nenhum partido. O Golpe Militar (em 1964) foi terrível para minha geração, nós tínhamos 20 anos… (silêncio) Um golpe no peito da minha geração. Amigos foram presos, foram mortos inocentes! Amigas foram torturadas. Os militares brasileiros foram infames e não lavaram a farda suja de sangue, passaram incólumes. Não gosto de falar desse assunto porque fico revoltado. Companheiros de geração foram exilados, submetidos à tortura. O poeta Ferreira Gullar foi preso e colocado numa câmara fria. Também prenderam Graciliano Ramos (durante a Ditadura do Estado Novo, instituído por Getulio Vargas, em 1937). O Brasil tem a triste tradição de encarcerar alguns dos seus melhores cérebros.

E o governo Lula?

AFF – É o melhor governo que o Brasil já teve. Por que não é melhor? Porque as alianças políticas são vergonhosas. O que é o Sarney? Esse homem destila como uma epidemia que contamina todo o governo. Para governar um país complexo é preciso fazer alianças complexas. É triste, mas é verdade.

Em 1986, você ganhou o prêmio Jabuti com o livro 3×4 (Nova Fronteira). em 2007, o livro Raro Mar (Nova Fronteira) ficou em 3º lugar. O que muda com esses prêmios?

AFF – Não muda nada. Não posso dizer que não fico contente e envaidecido. Mas não muda nada. Agora quero um prêmio com grana (risos).

Você foi assessor da presidência da Funarte, pesquisador da Biblioteca Nacional, pesquisador na Fundação Casa Rui Barbosa. Como conciliar o ofício de poeta com os outros trabalhos?

AFF – São inconciliáveis. Eu trabalhava brigando. Trabalhei 35 anos, mas nunca fui um funcionário público exemplar,como Carlos Drummond. Aliás, nunca fui exemplar em nada. Sabe o que é ir para o prédio do MEC durante 27 anos? Eu precisava trabalhar para sustentar minha família.

Qual seria a maior característica da produção poética atual? Há um diálogo forte com os poetas dos anos 70?

AFF – Não vou citar nomes porque uma vez fiz isso e caiu a casa em cima de mim. Considero essa produção excelente. Não estou fazendo média com os moços. Há um ponto muito positivo: essa produção não é uniformizada. A poesia marginal, por exemplo, “desengravatou” a poesia brasileira, mas criou uniforme com chinelos de dedos — o que foi ótimo. A geração atual é variada, tem o Google nas mãos. É positivo desde que se tenha cuidado. A época de se escrever nas pernas das moças passou, tem de haver dedicação.

O que é necessário para ser poeta?

AFF – Paixão e desconfiança. Tem de ser apaixonado, mas tem de contestar essa paixão.

ARNALDO BLOCH

O OFÍCIO DA ESCRITA

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2010)

Arnaldo Bloch / Foto divulgaçãoArnaldo Bloch é escritor e jornalista, autor de Os irmãos Karamabloch (Companhia das Letras, 2008): “uma vida romanesca transposta para o livro de uma determinada maneira, a família que parece saída dos livros”. A carreira de Arnaldo foi influenciada diretamente pelo conglomerado de comunicação da família Bloch. Desde pequeno, ele frequentou redações e chegou a ilustrar a capa da revista Manchete, completamente nu, no primeiro ano de sua vida.

“O jornalismo era algo que não me interessava, realmente, de uma maneira muito vivaz. É claro, o fato de ter crescido dentro da Manchete me influenciou: ir ao parque gráfico, sentir o cheiro da tinta, ver as rotativas, aquela energia… Isso encantava, era um mundo espetacular. O burburinho das redações, as máquinas de escrever, que ainda existiam… Os jornalistas fumando, escrevendo. Aquele visual das janelas lá do prédio na Glória (no Rio de Janeiro), aquele prédio lindo do Niemeyer. Tudo isso me fascinava.”

A partir daí, cursou jornalismo na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e começou mesmo sua carreira como repórter e redator da Manchete. Porém, antes da decisão de dedicar-se às palavras, Arnaldo foi seduzido pela música, o som do sax. Chegou a montar uma banda de rock, O Nome do Grupo, que teve o humorista Bussunda como integrante. E, ainda, teve o privilégio de conviver com o escritor Carlos Heitor Cony, que exerceu a função de mentor intelectual.

“Eu ia à casa do Cony, que me mostrava os livros, as pinturas de que gostava. Me lembro, uma vez, que ele me mostrou aquele monstro devorando o filho, do Goya (Saturno devorando um filho, 1820-1825). Ele dizia: ‘Veja bem, compreendeu? Aqui na Manchete eu pinto a corte, como Goya. Quando escrevo os livros, é o monstro devorando o filho…’ Ele já me falava dessa dicotomia entre o jornalismo e a literatura. Era um tempo de censura, ele representava um pouco a liberdade para mim.”

O fato é que, para além do berço de palavras, Arnaldo Bloch transita entre gêneros, fazendo uma espécie de intercâmbio entre as linguagens. Seja na prosa ficcional, nas crônicas jornalísticas, ou na biografia, sua linguagem irônica é presente. Talvez, o sarcasmo se evidencie mais em suas crônicas — como podemos conferir no livro O ciclista da madrugada, reunião dos textos publicados em sua coluna no jornal O Globo, recém-lançado pela editora Record.

Nesta longa conversa, ocorrida no Caroline Café, no bairro carioca do Jardim Botânico, em um fim de tarde chuvoso, Arnaldo relembrou detalhes de sua trajetória profissional. Instantes após o termino da entrevista, o bistrô começou a pegar fogo. Todos saíram ilesos, apesar do susto.

Você escreveu Os irmãos Karamabloch (Companhia das Letras, 2008), sobre o império de comunicação de sua família. Fale sobre a influência desse ambiente jornalístico na sua carreira de escritor e jornalismo.

Arnaldo Bloch – As coisas caminharam em paralelo, mas o meu tesão mesmo foi mais para a criação. Fosse na literatura ou, por exemplo, na música, que sempre foi uma área de interesse. Tive uma relação com o fazer musical. O jornalismo era algo que não me interessava, realmente, de uma maneira muito vivaz. É claro, o fato de ter crescido dentro da Manchete me influenciou: ir ao parque gráfico, sentir o cheiro da tinta, ver as rotativas, aquela energia… Isso encantava, era um mundo espetacular. O burburinho das redações, as máquinas de escrever, que ainda existiam… Os jornalistas fumando, escrevendo. Aquele visual das janelas lá do prédio na Glória, aquele prédio lindo do Niemeyer. Tudo isso me fascinava. Mas essa fascinação não significava que eu desejasse ser jornalista. São muito diferentes as sensações, as linhas. Por outro lado, o meu pai, uma figura muito histriônica, muito engraçada, ao mesmo tempo, um boêmio… Figura muito bem retratada no livro, com suas luzes e suas sombras. Ele me empurrava muito à literatura russa. Tendo eu crescido dentro de um clã familiar — imigrantes, figuras exóticas, da geração do meu falecido avô Arnaldo, que nem cheguei a conhecer —, a literatura russa me fazia ver esse comportamento da minha família retratada em livros. Essa carga russo-judaica, quer dizer, tinha outro componente bem tragicômico. Ao mesmo tempo, a relação com gente ligada à empresa, por exemplo, Carlos Heitor Cony. Eu ia à casa do Cony, que me mostrava os livros, as pinturas de que gostava. Me lembro, uma vez, que ele me mostrou aquele monstro devorando o filho, do Goya (Saturno devorando um filho, 1820-1825). Ele dizia: “Veja bem, compreendeu? Aqui na Manchete eu pinto a corte, como Goya. Quando escrevo os livros, é o monstro devorando o filho…” Ele já me falava dessa dicotomia entre o jornalismo e a literatura. Era um tempo de censura, ele representava um pouco a liberdade para mim. Naquela época, comecei a fazer umas tentativas de contos. E comecei a ler Nelson Rodrigues. O próprio Cony me deu uma lista, foi uma espécie de mentor do que eu deveria ler. Chegando ao período universitário, eu ainda era muito fechado na família e na comunidade judaica, minha relação com a comunidade em geral era ir ao Maracanã — meu pai me levava e depois comecei a ir de ônibus, 464, com meus colegas de colégio judaico. E meu pai me levava aos botequins. Eu tinha uma relação democrática com a comunidade em geral, mas eu não tinha amigos que não fossem da família ou do meio judaico. Só quando cheguei à faculdade, na UFRJ, no jornalismo que era o caminho nessa encruzilhada…

 

Em algum momento você ficou em dúvida sobre que curso ingressar na faculdade?

Arnaldo Bloch – As dúvidas eram as seguintes: eu tinha a vontade de estudar química. Não sei porque. Química industrial. Uma paixão muito grande por astrofísica, isso eu tenho até hoje, por tudo que se refere ao universo, ao cosmos. Mas nada disso me parecia viável. E como eu queria criar, já escrevia os contos… O Cony lia e minha mãe ficava preocupada que eu passasse as noites em claro, lendo e me masturbando, essas coisas… Tinha (o mito d)a tuberculose. E Cony dizia: “Não, isso é bom. Deixa ele morrer. Ele tem que morrer e escrever…” Mas eu não tinha escrito nada ainda, eram várias coisas se resolvendo ao mesmo tempo, uma certa timidez… Eu cheguei à faculdade, vi aquela coisa: o laguinho da ECO/UFRJ, aquele fumacê, aquelas figura cabeludas pós-hippie, ainda era um “hippismo” tardio. Eu falei: “Aqui é Shangri-la” Mergulhei naquele mundo universitário, comecei a fazer música. Formei uma banda de rock, que se chamava O Nome do Grupo — o Bussunda chegou a fazer parte dessa banda. Eu fiquei mais dividido ainda. A vontade de escrever ficou um pouquinho de lado para fazer música e compor.

Você se arrepende?

AB – Não, de forma alguma. Comecei naquele caminho da Manchete. Ainda era uma puta escola, havia gente muito boa lá. Resisti a todas as tentativas do Adolfo de me alçar para cima. Alçar é sempre pra cima, né? Ele queria me alçar para cargos, que eu fosse logo para a redação. Eu queria ganhar o respeito de meus colegas, ser um jornalista. Cheguei a presenciar um tiroteio. Fui para São Paulo fazer reportagem sobre AIDS, sobre a onda dos grafites na década de 80.

Quando criança você foi capa da revista Manchete…

AB  – Com um ano de idade, me fotografaram nu para uma reportagem sobre o primeiro ano de vida, capa. Depois, com uns anos, mostrava a foto para as meninas, na adolescência: “Olha só, cresceu.” Usava para fazer piada para pegar gente. Aquela coisa: “Vamos ver se cresceu mesmo…” (risos) Como eu estava na barriga da família, nasce e é capa pelado da revista. Inclusive rendeu debate televisivo com Nelson Rodrigues na mesa e outras pessoas dizendo que era imoral. Nelson Rodrigues encerrando a discussão: “Crianças são como anjos, não têm sexo.”

Você considera Os irmãos Karamabloch uma biografia ficcional?

AB – Não é uma biografia romanceada, é uma vida romanesca transposta para o livro de uma determinada maneira, a família que parece saída dos livros. Essa família que parece saída dos livros já me circundava desde criança. A minha vida, até hoje, vem sendo de interpretar o mundo, tentando sair dessa redoma, dessa ótica. A chegada à faculdade foi a primeira libertação do útero. A atitude de sair da empresa e ir para O Globo.

Como foi essa transição?

AB – Tive vários cargos na Manchete: repórter, redator, editor de uma revista feminina — Sétimo Céu — e depois fui para a França, ser correspondente e representante da empresa, durante três anos, uma espécie de faz tudo. A Manchete não tinha mais um escritório grande em Paris. Num dado momento, percebo que as coisas estavam degringolando na empresa e dentro de mim. Porque eu precisava correr riscos, saber quem eu sou fora do útero da família. O segundo salto foi sair da Manchete e ir para O Globo. Deixar Paris, voltar para o Rio, para ver seu eu sobrevivia profissionalmente. Em minha carreira n’O Globo, que já dura 16 anos, escrevi meus primeiros romances, que são mais fáceis, romances mais fabulatórios, sem conexão direta com a realidade. O primeiro se chama Amanhã a loucura (Nova Fronteira, 1998). E o outro se chama Talk Show (Companhia das Letras, 2000).

Neste primeiro livro, você já aponta o caminho de Os irmãos Karamabloch, a investigação das origens…

AB – De uma maneira muito cifrada, através de um personagem que busca sua identidade. O segundo também, que é um negro falacha de olhos azuis, onde usei uma máscara judaico-africana para esconder ainda mais a identidade. Um livro difícil de ler, mas que teve muita fortuna crítica na área de transgressão. E escrevi uma biografia pequena do Fernando Sabino.

Por que Fernando Sabino?

AB – Foi um convite, um livro que escrevi sobre encomenda.

Havia uma identificação com o Sabino?

AB – Não especial. Eu tinha lido O encontro marcado (Record) e vários outros livros. O Sabino passou pela Manchete, foi um dos cronistas importantes entre os mineiros. Na época, o editor Alberto Sprejer, que fazia a série Perfis do Rio, me chamou para fazer o perfil do Sabino e eu fui à luta. Li toda a obra, a parte que faltava, consegui um só encontro com ele por várias questões: o livro da Zélia (Zélia, uma paixão, Record, 1991), os amigos tinham morrido, a separação com Lygia Marina, que foi muito traumática… Fiz um livro cercando a vida dele através de outras pessoas, foi muito legal como experiência. A partir daí, passei a trabalhar só n’Os irmãos Karamabloch.

E continuou trabalhando como jornalista.

AB – Nesse momento, eu já estava com uma carreira jornalística mais forte n’O Globo. Comecei editando um caderno chamado Boa Chance, depois fui para São Paulo chefiar a redação. Quando voltei, fui editor do Segundo Caderno, editor-executivo de cultura. Mas a literatura já estava voltando para mim. De uma maneira que minha carreira administrativa n’O Globo começou a não dar certo, percebi que meu negócio é escrever mesmo. Num acordo com o jornal, deixei o cargo de liderança e voltei a ser repórter, repórter especial. Trabalhei muito, fiz muita coisa, mas sempre com o tom autoral. Querendo trazer a literatura para o jornalismo.

Você é jornalista e escritor, autor de romance e biografia. Como é essa transição entre gêneros?

AB – Enquanto escritor, eu trabalho de uma maneira muito intuitiva. Comigo sempre foi assim. Nunca fiz um curso de literatura, do fazer literário, seja os mais formatados, seja os cursos bons, como as oficinas do Flávio Moreira da Costa. Todo meu trabalho foi na base da tentativa e erro. Não no jornalismo, onde tive escola profissional: a Manchete e O Globo. Mas, na literatura, tentativa e erro. Escrever, reescrever, errar, me perder. Sempre achei que esse era o método. Evidentemente, a capacidade de edição de texto que adquiri no jornalismo me ajudou a aparar os excessos na literatura, me preocupar com o formato final do texto. Nos últimos anos, venho tentando trazer o lirismo para o jornalismo, tanto que acabei tendo um espaço de crônica. No final da contas, o que houve foi uma grande convergência. N’Os irmãos Karamabloch, um romance familiar, há tonalidades de crônica e jornalismo. E no jornalismo há tonalidades ficcionais e de lirismos. Depois voltei mais forte ao jornalismo com a criação dessa página semanal n’O Globo, que se chama Logo, a página logo, que desafia o jornal. A página livre, meio porra louca.

Você tinha um autor ou jornalista como referência?

AB – Na minha trajetória, eu nunca tive apenas um. O Cony foi uma grande referência. A literatura russa, alguns autores, especificamente, Kafka… Por estranho que pareça, Eugênio Ionesco, um autor de teatro do absurdo. Fiquei três anos só lendo Ionesco…

Você foi à casa do Nelson Rodrigues.

AB – Eu escrevi uma peça e levei para o Nelson. Ele me recebeu naquele lusco-fusco, fim de tarde. Tinha uma irmã dele vendo a novela das seis, sabe essas coisas meio depressivas de Copacabana? “Tudo bem? É Adolfo e tudo…” Deixei com ele a peça, ele me despachou. Quando eu voltei, um mês depois, ele me recebeu de novo, sentou comigo e disse (imitando a voz de Nelson): “Lê Tolstói, lê Dostoiévski, lê Kafka, lê tudo… Deus te abençoe.” Não falou uma palavra sobre a peça em si, que eu tinha escrito. Me levou pela porta da cozinha, desta vez. Mas era uma coisa muito crua, uma tentativa…

Quantos anos você tinha?

AB – Quartorze anos, não sei. Mas eu nunca voltei ao teatro, não. Estou voltando, aos poucos, ao diálogo. Eu gosto muito de diálogo, tenho vontade de escrever textos encenados, seja teatro ou cinema. A ideia de entrar na roteirização me interessa muito, acho que vou acabar cruzando com essa área.

Você tem uma relação com artes plásticas?

AB – Minha relação com artes plástica é completamente amadorística. Num determinado momento, que me separei de um casamento tradicional, minha mulher, na época, teve que ficar no Leblon e eu aluguei um apartamento na Glória, perto dos travestis. Nesse período, comecei a comprar papel e pastel oleoso, carvão, misturar com Nescafé… Fiz 80 telas, emoldurei tudo. Eu já gostava de fazer crônicas ilustrando.

Em O ciclista da madrugada (Record) você utiliza suas ilustrações…

AB – Minha primeira seleção de crônicas tem um caderno central ilustrado. Algumas pessoas gostam e outras dizem: “Pô, o cara está querendo ser ilustrador.” Não, eu não estou. Estou é brincando mesmo, aquilo faz parte da minha relação com a escrita. Derramei mel, sem querer, no mármore da cozinha e um bando de formiga cercou essa mancha de mel, ficou parecendo o mapa do Brasil. Fotografei aquilo e fiz uma crônica sobre um general reformado que nunca matou ninguém durante a Ditadura, que era um homem correto… A história desse general que queria matar as formigas e quando vai dormir, morre. A questão não é a violência, é a dissuasão.

Como é esse fazer da crônica?

AB – Hoje em dia, acho que muitos cronistas sofrem porque têm um pouco de medo do leitor. O leitor é muito cruel com a questão pessoal. É reativo. Vivemos uma época muito utilitária, tudo tem que ter uma função. O Zuenir (Ventura) mesmo relatou que uma vez ele contou um fato pessoal e o leitor ficou puto. O ponto de ironia que o (Luis Fernando) Veríssimo fala. Alguns cronistas focam suas crônicas, ou estão relacionadas a fato político ou com o dia a dia da cidade. Eu busquei o contrário. Não que eu não faça crônica assim, eventualmente eu faço. Às vezes, por um foco diferente. Ou, às vezes, vou lá num filme – Tropa de Elite – e pergunto: “É fascista?” O que me interessa na crônica é o ecletismo, é fazer o que der na veneta. E, às vezes, partir do vazio mesmo. O que o Cony chama de “método digital”, não no sentido cibernético, mas no sentido de digitar qualquer coisa, nem que seja uma palavra inexistente, consoantes. Digita: oi, homem na rua. Isso não quer dizer nada, mas daí você começa a puxar… Isso deve ter alguma relação com a escrita automática, com os fluxos do inconsciente. Muitas vezes, gosto de explorar isso porque confio muito naquilo que não está revelado.

E os comentários dos leitores? E o retorno?

AB – Descobri que o e-mail não é bom sinalizador para o número de leitores. Às vezes, vem muito e-mail porque está relacionado a um determinado segmento que foi tocado por aquela crônica. Por outro lado, têm crônicas que não dão retorno escrito, mas que são muito mais comentadas na cidade. Depois que vieram os blogs, eu não me preocupo com e-mails.

Como é sua relação com a Internet?

AB – É uma relação claudicante. Por exemplo, nunca entrei em Orkut. Tenho um blog. É um blog que, às vezes, sou mais militante, às vezes, abandono um pouco. Hoje em dia estou mais militante. Não somos remunerados pelo blog, n’O Globo. É um espaço de interação com as comunidades. Recentemente entrei no Facebook, estou achando mais legal do que esperava. Já tive uma relação mais preconceituosa com os meios digitais. E, hoje, começo a achar que a democratização vem por aí. Têm muitos autores que são cânones com maior medo porque o interesse das pessoas está tribalizado. Assim como as gravadoras já não são mediadoras para a criação musical, é claro que as editoras vão deixar de ser mediadoras da criação literária. Os autores vão ganhar menos dinheiro do que já ganham. Tudo bem que muita coisa ruim vai acabar indo à luz, mas coisa boa vai também. É a capacidade das pessoas de julgar, elas vão se educar.

Como você avalia a literatura contemporânea?

AB – É curioso porque sempre reclamamos que as pessoas leem pouco. Leem pouca literatura ficcional. Ou a “alta literatura”, que busca a estética e não contar a história. As pessoas podem ler menos esse tipo de literatura, o que é uma pena. Percebo que as feiras literárias atraem cada vez mais os leitores. Então, me contradigo: o papel ainda tem uma vitalidade tremenda.

É o fim do livro?

AB – O fim não, de forma alguma. Acredito no fim da fita cassete, que é uma merda, derrete no sol. As mídias que sobrevivem são as mídias que são boas. Por que o vinil está sobrevivendo? O CD vai sobreviver, até um certo ponto, mesmo com as mídias digitais. Tem coisas que se evidencia: o celular, quando surgiu, ficou óbvio que era melhor que telefone fixo, que os sinais de fumaça. Ele se impôs. O notebook se impôs. Mas os dispositivos de leitura são ruins. E vão ser ruins enquanto não forem moles, gostosos de manusear. Sabemos que o papel tem uma proporção de crescimento fabulosa nos países em desenvolvimento. Até jornais populares têm crescido no Brasil, imagine na China e na Índia. Já na Europa, países desenvolvidos, o papel começa a estagnar um pouco. As pessoas não percebem, papel é tecnologia. Uma mídia muito interessante de manusear, muito fácil de ir e voltar, não precisa apertar botão. A substituição (do papel) será progressiva. Mas nunca total. Eu duvido muito.

ARTHUR DAPIEVE

NO RITMO DAS PALAVRAS

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2010)

 

Arthur Dapieve / Foto divulgaçãoAs palavras do escritor e jornalista Arthur Dapieve têm ritmo. Conhecedor e fã de música popular e erudita, podemos constatar a musicalidade de seus textos nas crônicas que escreve semanalmente para o Segundo Caderno d´O Globo e, melhor, nos romances De cada amor tu herdarás só o cinismo (Objetiva, 2004) e Black Music (Objetiva, 2008).

Sua trajetória se cruza com diversos personagens da cultura brasileira, mas é na escrita, junto com os mestres Luis Fernando Veríssimo e Zuenir Ventura, que entendemos mais de sua escolha pelo ofício. Exímio observador, Dapieve mediou um encontro histórico entre os dois ícones da crônica jornalística no Brasil — registrado no livro Conversa sobre o tempo (Ediouro/Agir, 2010) —, fazendo de uma simples conversa uma profunda reflexão sobre o tempo.

Em entrevista ao SaraivaConteúdo, durante a Festa Literária Internacional de Paraty 2010, Dapieve contou sobre os bastidores de seu trabalho, relembrando suas escolhas profissionais e suas paixões pela música e pela escrita.

Como surgiu a ideia do livro Conversa sobre o tempo (Ediouro/Agir, 2010), um encontro com Zuenir Ventura e Luis Fernando Veríssimo?

Arthur Dapieve – A editora da Agir, Helena Carone, pensou assim: “Queria colocar os dois para conversar…” O Zuenir e o Veríssimo são amigos e têm pontos de contato: idade, trajetória e tudo. E ela queria um entrevistador, pensou em mim por conta de eu ter trabalhado com o Zuenir, de conhecê-lo há 25 anos, praticamente. Conheci o Veríssimo mais recentemente por conta, não só da distância geográfica, mas do meu temperamento e do dele. Deu certo, não é? É o primeiro título de uma série. Eles (os editores) pretendem fazer uma conversa sobre a fé e ciência, entre Frei Beto e Marcelo Gleiser, o físico, mediada pelo Valdemar Falcão.

Na apresentação desse livro, você conta uma história sobre um encontro com Zuenir Ventura no início da sua trajetória no jornalismo…

AD – Eu já era formado e tinha trabalhado com o Mauro Ventura, filho dele. Conheci o Mauro quando ele nem era jornalista, era estudante de engenharia. Depois estudamos e fizemos um frila (trabalho freelancer) juntos, propiciado por professores da própria PUC (Rio). Um dia, ele falou: “Meu pai é professor também, adora descobrir gente jovem… Passa lá no JB (Jornal do Brasil), já falei com ele de você…” Fui. Tinha uma lista de proposta de matérias. Tive uma conversa com ele, que o ponto alto, acho, foi ele ter me perguntado o que eu entendia. Respondi que entendia de literatura, de música e de cinema. Ele deu um risinho que levei pelo menos 10 anos para entender. Só alguém que tem 21 anos acha que entende de literatura, de música e de cinema, né? Claro, estava numa entrevista de emprego, de trabalho… Mas eu realmente achava que entendia disso. Hoje em dia a minha resposta seria diferente: “Acho que, talvez, eu entendo um pouquinho de música. E do resto, menos…” Uma dessas pautas vingou, sobre o primeiro LP da Plebe Rude, O concreto já rachou. Foi um primeiro trabalho, que gerou outro trabalho, e outro… E, alguns meses depois, quando o próprio Zuenir criou e editou o Caderno Ideias, no JB, eu e três colaboradores, que estávamos mais ou menos nessa mesma situação, fomos convidados para constituir a primeira equipe do caderno. O Zuenir supervisionava, era o editor tanto do (Caderno) B quando do Ideias. A Vivian Wyler, que trabalha na Rocco, era a editora do Ideias. E eu, Luciano Trigo e Toni Marques éramos colaboradores, fazíamos resenhas de livros, matérias… Aí que começamos a trabalhar propriamente na redação.

Você consegue avaliar a trajetória do jovem que começou no Jornal do Brasil e hoje é um professor universitário e colunista d’O Globo?

AD – Tem um ponto dessa trajetória pessoal e profissional indissociável. Porque, apesar dessa pretensão, dessa arrogância da minha declaração ao Zuenir, é uma coisa que marcou muito a ele: eu era muito tímido. O Zuenir voltou para casa e disse: “Mauro, ele pode ser um gênio como você diz. Mas ele não fala!” A própria profissão acabou me fazendo falar. Não que o temperamento inicial desapareça, não é isso. Não se aprende a falar, se aprende a se virar numa situação aparentemente adversa. Jornalismo é isso. E, ao mesmo tempo, o trabalho cotidiano nos jornais, a “ralação” toda daquilo: redações, plantões, pescoções etc. E mais, o entendimento melhor da realidade, pela experiência, pelo aprendizado, me fizeram ver que realmente se aprende um pouquinho daquilo que a gente gosta. Eu responderia hoje “um pouquinho de música”. Quanto mais escuto música, mais descubro que têm coisas que nunca escutei, ou que nunca escutei com a devida atenção, que merecem minha atenção. Entender do assunto é estar exposto continuamente à sua ignorância sobre ele. A gente conhece, mas as bifurcações das formas de arte são tantas que você nunca dá conta de tudo. Nos últimos tempos, voltei a prestar atenção para uma área da música pop que deixei meio de lado que é o metal, heavy metal.Conhecia o básico, mas eu sacava que tinha um underground e mais um overground também… Algumas coisas que não prestava atenção. Minha atenção se voltou muito para isso. Coisas incríveis que eu não tinha ideia que existiam. E aí essas coisas incríveis me direcionam para outras coisas que acho incríveis, e outras nem tão incríveis, mas que direcionam… É sempre infinito esse processo. Aquela frase do Sócrates, “Só sei que nada sei”, é real. Quanto mais você se enfronha num assunto, mais percebe sua pequenez diante dele.

O encontro com o Zuenir e o Veríssimo, duas figuras representativas do jornalismo no Brasil, ficou registrado em livro. Mas o que realmente ficou dessa experiência?

AD – Foi uma experiência, sobretudo, humana, importante. São dois ídolos, que aprendi a respeitar por razões diversas. O Zuenir, por trabalhar muito com ele, e ter percebido o jeito que ele tem de lidar com as pessoas, sempre com muita gentileza, sempre muito atento ao que as pessoas falam, muito gentil. E sendo um chefe que você respeita. E o Zuenir, antes disso, era um dos dois caras que eu lia loucamente no jornal. Ele e o Carlos Eduardo Novaes eram os cronistas do JB que eu mais apreciava. Tem um ponto em comum: os três torcem pelo Botafogo. O Veríssimo é colorado. Então é a humanidade daquele encontro, eles não tinham a pretensão de ter explicação da vida. Não tinha essa pretensão totalizante de uma biografia, eles estavam contando estimulados, ou mesmo espontaneamente, sobre pedaços da vida deles que foram relevantes.

Ultimamente as editoras têm lançado muitos livros de entrevistas com escritores. Enquanto escritor e jornalista, como você entende a publicação desses diálogos?

AD – É uma maneira de ampliar, popularizar, aquilo que se faz, por exemplo, aqui na Flip (a entrevista foi realizada na Festa Literária Internacional de Paraty 2010, em agosto), milhares de pessoas correm à cidade para ver escritores falarem de processos criativos, de suas vidas etc. Só que dura poucos dias, nem todo mundo pode vir… Um livro aumenta enormemente esse universo, embora as conversas possam ter um teor ligeiramente diferente, é mais ou menos a mesma coisa. Se você gosta do livro, você se interessa pelo autor. Não significa que você goste do autor. Porque têm autores perfeitamente canalhas e desprezíveis que escreveram obras-primas.

Falando sobre essa relação com a profissão, o que te levou à escrita?

AD – O que me levou a fazer jornalismo (no vestibular) foi porque eu sabia que queria escrever. Eu não sabia fazer mais nada. Tinha cogitado fazer outras coisas, pensei em fazer Direito… Mas cheguei à conclusão de que não era isso, queria escrever outro tipo de coisa. Prestei vestibular para Letras e Comunicação. E eu nem sabia que seria jornalismo, era Comunicação. Talvez pudesse ser publicidade… Eu sabia que era algo que me forçaria a escrever. A escrita é exercício, ela só melhora se você exercita. A escrita não é algo abstrato. O que torna o texto melhor, ou menos pior, é o fato de ter burilado aquela linguagem, o estilo. O curso de jornalismo me proporcionou isso, me colocou para escrever. Mas, ao mesmo tempo, me afastou do meu objetivo inicial. Porque quando você entra numa redação é um moedor de carne de tal forma… Não interessa se você quer escrever um livro ou escrever outra coisa. Você está escrevendo a matéria do dia a dia e está feliz com isso. Eu me formei em 1985 e dez anos depois fui fazer um livro sobre rock no Brasil nos anos 1980 (BRock, Editora 34, 1995). Meu objetivo inicial não era escrever ficção, esse livro era um desdobramento do trabalho de jornalismo. O primeiro livro de ficção só saiu em 2004 (De cada amor tu herdarás só o cinismo (Objetiva)). Então, foi um desvio longo. Mas eu sei que foi importante, para esse livro de ficção, ter “ralado” em redações, escrevendo jornalisticamente esse tempo todo. E, quando fui fazer Comunicação, não tinha ideia de que poderia escrever sobre música em variadas formas. Quando comecei a trabalhar, vi que não tinha sido em vão todos aqueles cruzeiros, cruzados, que pedia, esmolava da minha mãe para comprar LPs. Aquilo ali não era só uma perversão, uma perda de tempo, eu tinha me dado um patrimônio cultural importante. Ela tinha compreendido isso. Eu podia utilizar aquelas informações todas que discutia com os amigos.

Você é jornalista e escritor. Há diferença entre os dois ofícios?

AD – A (escrita) ficcional exige um planejamento maior, sei como vai ser a história, monto um organograma e vou preenchendo aquelas lacunas. A (escrita) jornalística é muito feita em cima do laço porque precisa ter uma quentura diferente. Embora, às vezes, eu até planeje alguns textos com antecedência, quando o assunto não é tão quente. Quando comecei a escrever ficção, finalmente, tive um grande problema de me desvencilhar da linguagem jornalística, que é muito explicadinha… É muito pautada por datas, eventos, lugares. Quem, quando, onde, como, porque… Aquele negócio do jornalismo. O primeiro romance é muito mais assim, parece muito mais um reportagem em alguns aspectos, de tal forma que muita gente acreditou, ou acredita, que é uma história minha na qual troquei nomes. Não é. Porque tem botequins e garçons reais mencionados, como o Manoel, do Nova Capela (na Lapa carioca), que está no livro. No segundo livro (Black Music (Objetiva, 2008), consegui me desvencilhar dessa carga estilística, jornalística. Embora se passe no Rio de Janeiro, numa data precisa, a história é muito mais maluca do que meramente uma coisa que poderia ter acontecido.

O Rio de Janeiro é quase personagem de suas histórias.

AD – Eu sempre penso naquela história: cante a sua aldeia e você cantará o universo, do Tolstói. É um pouco isso. É uma proeza literária e intelectual o que o Chico Buarque fez com Budapeste (Companhia das Letras, 2003). Não que Budapeste seja um personagem do livro dele, mas um estado de espírito. No meu, (o Rio de Janeiro) é um personagem, como você disse, e é também o estado de espírito. Tem uma geografia sentimental da cidade. E também uma geografia amorosa musical dessa cidade, áreas da cidade que evocam um determinado tipo de música.

A música é muito presente em sua trajetória, inclusive em sua literatura. Os seus livros de ficção — De cada amor tu herdarás só o cinismo (Objetiva, 2004) e Black Music (Objetiva, 2008) — muito estão ligados à música, desde o título ao ritmo da narrativa. Você se lembra do início dessa relação? Seus pais incentivaram?

AD – Meus pais não eram melômanos de forma alguma, poucos discos em casa. Meu pai era amigo de botequim do Jorge Ben. Sempre gostei muito do Jorge Ben, talvez até estimulado por isso, sabia que meu pai conhecia, sem que eu conhecesse. Eu não tinha idade para frequentar o botequim, lá na (Rua) Paula Freitas, em Copacabana. Em determinado ponto, por alguma razão, não me lembro qual foi a razão inicial, pedi um violão para o meu pai.

Você tinha quantos anos?

AD – Dez anos, talvez. Quando chegamos à loja, acho que ainda existe, perto do Largo da Carioca (no Centro do Rio), eu vi uma guitarra e disse: “Eu quero isso!” Ele disse: “Não. Você só vai ter isso se aprender a tocar isso. É mais caro, não vou fazer um investimento…” Na verdade, nunca dominei o violão. Aprendi um pouquinho, em variados surtos de vontade de tocar violão, o mais grave foi na adolescência porque tinha amigos que tocavam. Mas nunca dominei, me pareceu mais um brinquedo daqueles que você se desinteressa quando entende como funciona. Demorei a entender isso. No decorrer da vida, percebi que o violão, o instrumento de cordas, não era minha praia e troquei por uma bateria. Na bateria, me achei melhor. Mas a bateria exige espaço, um certo isolamento acústico… E todos os instrumentos exigem disciplina. Mas não aprendi com a experiência, vendi minha bateria e comprei timbales, aqueles dois tambores muito usados na música cubana. Aquilo, bem menor, ainda faz barulho, ocupa espaço… Antes dos timbales, por conta do Paul Desmond (1924-1977), saxofonista de jazz, parecia que era fácil ele tocando… Falei: “Vou comprar um sax alto”, que é o instrumento dele. Mas a história deles (os instrumentos) é mais ou menos a mesma coisa: comecei a tocar, achei que estava começando a avançar, e caía meu nível de interesse… De vez em quando, têm voltas desse negócio, voltar a ler pauta com mais atenção.

Você chegou a ter uma banda?

AD – Dois amigos, um baixista profissional e um dos guitarristas, nós ensaiamos bastante. Mas nunca nos apresentamos fora dos nossos quartos. Era um hard rock um pouco punk, a partir de determinado momento bem pesado. Mas nada muito brilhante.

Entre seus livros, o mais conhecido é Renato Russo, o trovador solitário (Ediouro, 2006). Em 2010, Renato Russo completaria 50 anos; se estivesse vivo, o que ele estaria fazendo?

AD – O Renato, segundo o planejamento dele, estaria fazendo cinema. Ele tinha planejado que até os 40 anos faria rock. E como o rock exige muito fisicamente, entre os 50 e 60 ele faria cinema, que exige também fisicamente, mas menos do que ser o frontman de uma banda tão popular. Então, hoje, aos 50 anos, ele seria um cineasta. Ele queria ser cineasta, já escrevia alguns roteiros. E quando completasse 60, ele queria se dedicar à escritura, simplesmente porque demanda menos fisicamente. Ele tinha a vida toda planejada, mas aconteceu um imprevisto.

Atualmente, quem representa a importância musical e social da Legião Urbana?

AD – Ninguém. A coisa mais parecida que houve em tempos recentes, e de vez em quando ainda faz shows, foi Los Hermanos. Não tanto pela mensagem das letras, que é mais intimista do que a Legião. Mas a idolatria em torno, as pessoas seguindo. O clima que eu senti quando vi Los Hermanos no Canecão é parecidíssimo, as pessoas cantando as letras todas, berrando, aquela coisa religiosa… Não fossem eles barbudos, aquela figura messiânica. Foram os que chegaram mais perto disso, não tanto pela mensagem, mas por conta de um clima que se criou entre eles e os fãs.

Enquanto professor, jornalista e escritor, o que dizer a um jovem que deseja ser escritor?

AD – Primeiro, precisa ler como um condenado. Tem muita gente que tem a ilusão que para escrever precisa começar a escrever. Não, precisa começar a ler. Depois de ler bastante, você começa a escrever. Pode ser concomitante, pode ser ao mesmo tempo. A leitura tem precedência sobre a escritura. O nosso mundo interior não é por si só tão rico que se expressa de uma maneira literariamente relevante. Tem que ler pra burro. Primeiro: pessoas que você gosta. Depois, pessoas que você não gosta… Para se colocar, entender quais são os estratagemas que o autor usou, quais são os truquezinhos que ele usou para você gostar ou não gostar daquilo… Você vai incorporando ou descartando na sua própria escritura. Comece a ler pesadamente e depois comece a escrever. Ainda que depois seja na semana seguinte. Devore Moby Dick (de Herman Melville) numa semana e na semana seguinte comece a escrever alguma coisa.

BEATRIZ BRACHER

ENTRE LIVROS E FILMES

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2010)

Beatriz Bracher / Foto Tomas RangelNuma silenciosa casa em São Paulo, a escritora Beatriz Bracher se recolhe para escrever suas histórias. Desde sua estreia com Azul e dura (2002), Bracher tem cultivado a disciplina necessária para trabalhar sua linguagem, o que rendeu livros como Não falei (2004) e Antonio (2007), todos bem recebidos pela crítica.

Nascida em 1961, em São Paulo, Beatriz Bracher começou seu trajeto literário na revista 34 Letras e como cofundadora da editora 34, onde trabalhou de 1992 a 2000. Além da dedicação à literatura, a escritora paulista mantém parcerias no cinema com Sérgio Bianchi e Karim Aïnouz, entendendo bem a diferença entre o ofício de escritor e o de roteirista.

Convidada para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Beatriz Bracher acaba de lançar mais um livro, Meu amor. A edição reúne contos que foram publicados em jornais (Correio Braziliense) e revistas literárias (Ficções e Bravo), com outros inéditos. A narrativa, embora de temática parecida com os romances, é apresentada de forma mais enxuta.

Em conversa exclusiva ao SaraivaConteúdo, Beatriz Bracher fala sobre cada um de seus projetos, sem deixar de se encantar com a descoberta das histórias.

Qual foi seu primeiro encontro com a literatura?

Beatri Bracher – Sempre adorei ouvir histórias, minha mãe contava muitas histórias da vida dela. Havia um anedotário familiar de quando ela era criança. Minha avó contava histórias clássicas brasileiras. Desde então, passei a gostar de contar histórias para meus primos, aos 9, 10 anos. Eu sempre fui muito sensível para os sotaques diferentes, em São Paulo, há pessoas do Brasil inteiro. Na minha casa, meu pai e minha mãe sempre chamaram muita atenção para o modo certo de falar, da maneira correta de usar os pronomes… Aos 10 anos, eu não era uma pessoa que lia muito, não. Eu lia muito história em quadrinhos… Aos 11 anos, fiz uma viagem para a Alemanha, fiquei dois meses por lá. Aprendi muito rápido o idioma, hoje em dia esqueci tudo. Mas senti saudades enormes dos meus, pais, irmãos… Alguém me arranjou um livro chamado Boi Aruá, de Luiz Jardim. Li várias vezes o livro, fiquei tão feliz. O que mais gostava era estar lendo em português, estar em contato com a língua. Outro livro que adorava ler era O pequeno Nicolau, uma série para crianças. Logo depois passei a ler livros mais adultos.

Foi nesse período que você sentiu vontade de escrever suas histórias?

BB – Eu escrevia histórias, contos, mas não para publicar. Quando participei do grupo que fez a revista 34 Letras, a ideia era fazer um espaço para publicar. Mas nunca publiquei as minhas coisas. E com a editora 34 eu fui sendo editora, no sentido de conversar com autores, ler manuscritos e avaliar, e ler muitos livros que eu não iria ler: ensaios de música, filosofia… Não sei qual a relação, quando fui editora parei de escrever. Eu parei com a editora para tirar um ano sabático e me propus a escrever um livro. Comecei a escrever, mas não acabei em um ano. Não tive dúvida que eu queria ser escritora. Esse livro era o Azul e dura, meu primeiro romance.

São três romances: Azul e dura (2002), Não falei (2004) e Antonio (2007)…

BBAzul e dura é a história de uma mulher de 42 anos, o livro começa com ela indo para a Suíça, com os dois filhos, esquiar. Na mala, ela leva papéis com anotações feitas ao longo da vida e romances que gostou de ler. Ela tem três semanas para reavaliar a vida, não sabe o que vai acontecer depois… É a história dessa mulher de classe média alta que faz cinema na faculdade, tem uma relação mais alternativa, mas se casa e fica alheia ao mundo. Até que ela se envolve num acidente, em que atropela e mata uma menina com deficiência mental. O segundo livro, Não falei, é sobre um professor universitário, aos 60 anos, que passou a vida inteira na mesma casa, que será vendida para dividir o dinheiro com os irmãos. Ele resolve que vai se aposentar da faculdade e se mudar para São Carlos para continuar com as pesquisas… Ele pensa muito sobre educação, foi preso em 1970 pelos militares, apesar de não fazer parte da luta armada. Logo que sai da prisão, onde fica por um mês ou dois, é morto o cunhado, que participava da luta armada. Fica a dúvida se ele havia denunciado o cunhado ou não. Isso acaba desestruturando a família dele. É um livro sobre uma pessoa de hoje revendo a trajetória, tanto ligada à política, quanto à educação. Ele tinha uma ligação muito forte com os livros. As leituras que você fez são experiências de vida, como fazer um amigo, uma viagem, ou ter um emprego. O terceiro, Antonio, é sobre um rapaz, Benjamin, que resolve saber sobre a vida do pai dele, Téo. Então, ele vai conversar com Isabel, mãe de seu pai; com Haroldo, amigo do avô Xavier; e Raul, amigo do pai. Nunca se ouve a voz do Benjamin, os três que falam sobre o Téo. Na verdade, se sabe muito sobre quem está falando, sobre quem se fala fica um pouco embaralhado. O Téo é o rapaz que nasceu em 1960 e aos 18 anos, ao invés de cursar uma faculdade, resolve seguir os caminhos de Guimarães Rosa. Dessa viagem, resolve que quer ficar e se emprega como vaqueiro. O livro começa com a revelação que nessa viagem ele conhece uma mulher mais velha que ficou grávida de um filho dele. Eles se casam, mas ela morre no parto do filho, o Benjamin. Essa mulher foi casada com o avô, com quem também teve um filho chamado Benjamin. O cara resolver ser um vaqueiro é diferente…

Como surgem suas histórias? Há disciplina em seu processo de escrita?

BB – Tenho uma disciplina de trabalho, escrevo quatro horas por dia. Depois trabalho em outras coisas. Quando começo um romance não sei onde ele vai acabar. Conforme vou escrevendo, ele vai escolhendo suas saídas. Trabalho muito na limpeza do livro, limpando a história. Nesse trabalho de edição, de limpar, de cortar, tem um trabalho criativo muito grande. Talvez seja diferente de quando escrevo, mas é de qualidade mais sofisticada. Sou mais dona do que estou fazendo quando revejo do que quando escrevo. Porque quando escrevo é quase uma matéria bruta.

E o livro de contos Meu Amor? Há diferença na escrita de uma narrativa curta?

BB – Metade do livro são contos que escrevi antes de fazer a editora. Há contos que publiquei em revistas e jornais. A outra metade são contos inéditos. Comecei lendo contos: Cortázar, Borges, Kafka… Pra mim, o conto sempre foi uma forma mais elevada do que o romance, mais pensada e burilada. Eu tinha mais medo de escrever conto do que romance. Ao contrário do romance que te diz o caminho, o conto nunca te diz, você tem descobrir. O romance é bom que seja um pouco sujo, o conto, não, precisa ser mais enxuto para ter mais força. Mesmo que mais enxuto seja uma verborragia muito grande, tem alguns contos que são assim.

Você também trabalha com cinema. Escreveu a ideia original do filme Cronicamente inviável e o roteiro de Os inquilinos, ambos de Sérgio Bianchi. Como é escrever roteiros? Há alguma relação com a literatura?

BB – O problema é que a gente acha que tem alguma coisa a ver (com literatura), quando não tem nada a ver. O roteiro está a serviço de uma coisa que não é escrita, que é o filme. Ninguém vai ler o que você está escrevendo. O filme não vai existir se não existir roteiro, mas depois que o filme estiver pronto, o roteiro desaparece, não existe mais o texto. E é um trabalho com muitas pessoas envolvidas. Primeiro é o roteirista e o diretor, que é o autor do filme. É quase insuportável para o escritor de literatura porque não posso escrever “ela estava triste”. Tenho de escrever “ela baixou os olhos e olhou para o lado”. Como assim, está triste? Não existe. O que tem de igual é a capacidade de fabulação, de criar histórias, de unir um personagem com outro. Além disso, no roteiro você está discutindo o tempo inteiro: “Qual a função dessa cena?” Quando escrevo literatura: “Qual a função desse capítulo?” Não sei. Talvez alguém vai descobrir e me contar. Só sei que funciona… E depois, quando está pronto, o roteiro é enviado para um monte de gente, que faz críticas. Reescreve. E ainda, vai vir o produtor, o fotógrafo, diretor de arte… Fica essa discussão sobre filme de autor. Todo filme é de autor, só que o autor é o diretor. Se há alguém que é quase autor do filme é o editor, que faz a edição final. Escrever um roteiro existe um “baixar a bola” muito grande para um escritor de literatura (risos). Você é um, o comecinho de uma etapa que vai se distanciar muito de você. Mas trate de apontar muito bem onde as pessoas devem chegar.

Atualmente você está trabalhando no roteiro de um filme do Karim Aïnouz…

BB – Ainda não sabemos o nome. É a história de uma moça, dentista, casada com um dublador, que acabou de se mudar para um apartamento com o marido e o filho de 14 anos. No intervalo do consultório, o marido liga para o celular dizendo que se separou, não sabe para onde vai… O roteiro você tem que deixar descansar, como o livro, como qualquer coisa. Depois é muito fácil ver o que é ruim, salta aos olhos. Mas se não se tem esse tempo, dependemos do que o outro tem a dizer, com olhos frescos.

Como autora e editora, o que você diria a um jovem que deseja ser escritor?

BB – Escrever, escrever, escrever… Obviamente, um escritor precisa escrever muito. Uma vez que já escreveu, ouvir o que outros têm a dizer é muito importante. É muito chato ler o que um amigo escreveu para avaliar. Tem de escolher bem o amigo, vai ser muito legal quem fizer a leitura, no aspecto de ele ser honesto. Vale a pena trabalhar bastante e insistir.