ANDRÉA DEL FUEGO

FICCIONISTA

Por Ramon Mello (SaraivaConteúdo – 2010)

Andrea del Fuego/  Foto divulgaçãoDesde que começou a publicar e participar de antologias, a escritora paulista Andréa del Fuego (pseudônimo em referência à dançarina dos anos 1950, Luz del Fuego) já marcava seu espaço na literatura brasileira contemporânea.

Autora de, entre outros, livros como Minto enquanto posso (2004), Nego tudo (2005) e Engano seu (2007), e integrante das antologias Os cem menores contos brasileiros do século (2004) e +30 mulheres (2005), del Fuego mergulha na história familiar para transformar lembranças em ficção no romance Os Malaquias, publicado pela Língua Geral em 2010.

A narrativa se passa no sul de Minas Gerais, em Carmo do Rio Claro, e é inspirada em sua história familiar, quando seus bisavôs deixaram seus filhos órfãos ao morrerem eletrocutados depois que um raio caiu em sua casa. A realidade dura, aos poucos, vai flertando com a literatura fantástica, entre delírios e imagens líricas, como um longo poema de Herberto Helder. Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Andréa del Fuego detalha o processo de criação de Os Malaquias, além de falar sobre a paixão por escrever literatura infanto-juvenil.

Por que assinar com um pseudônimo?

Andréa del Fuego – Andréa del Fuego é um pseudônimo, meu nome de RG é Andréa Fátima dos Santos. Ele surgiu em 1998, na primeira vez em que publiquei um texto, uma crônica para uma coluna que respondia dúvidas sexuais dos leitores da revista da rádio 89 FM. Eu tinha levado (o texto) para o editor, que se chama Ricardo Cruz, hoje editor da Rolling Stone, para ler o conto. A partir dessa leitura, ele propôs: “E se você respondesse dúvidas sexuais dos leitores como o personagem desse conto?” Achei isso incrível, brincadeira interessantíssima. E a possibilidade de publicar um texto… Ele me pediu, então, um pseudônimo porque Andrea Fátima dos Santos não entra no jogo, não é? Aí, a minha sogra: “Por que você não coloca, então, Andréa del Fuego?” Imediatamente, achei muito sonoro, e acabou ficando. Depois, eu não sabia muito sobre a vida da Luz del Fuego, fui atrás, li uma biografia dela, procurei informações. Foi uma mulher muito interessante, muito pioneira em diversas frentes… Mantive um pseudônimo não como um tributo a ela, mas pelo som mesmo. Pela ideia do fogo, e Andréa também é um nome masculino. Já criei diversos motivos para continuar mantendo ele, mas o principal é pela sonoridade.

O encantamento com as palavras surgiu antes desse episódio?

ADF – Eu escrevi antes de ler, na verdade. Primeiro tive uma paixão por escrever e depois uma paixão por ler. A paixão pela leitura surgiu muito depois. É interessante porque a maioria das pessoas que conheço, que se dedicam a escrita, elas, primeiro, se apaixonaram muito pela leitura, tiveram uma experiência muito intensa com a leitura, e disso veio uma vontade de escrever. Eu tive uma vontade de escrever antes. Não venho de uma família de leitores, na minha casa existiam dois livros: uma Bíblia e um livro de receitas. Mas minha mãe e meu pai não eram religiosos, a Bíblia estava lá porque se tinha aquele objeto em casa. E o livro de receitas também nunca foi aberto, quer dizer, nem ler uma receita… Teve um momento que comecei a escrever cartas para familiares em Minas (Gerais), era muito caro ligar para eles. Minha mãe falou: “Vou escrever uma carta… Escreve você, que escreve melhor” (risos).

Você morava em São Paulo?

ADF – Morando em São Bernardo do Campo, que é uma cidade industrial. São Paulo cresceu tanto que, hoje, São Bernardo é mais o subúrbio da cidade. Escrevendo cartas, percebi que tinha um retorno interessante, a resposta. E, em certo momento, eu comecei a inventar notícias. Só que não podia inventar notícias naquela carta… Esse bordado tem muito a ver com minhas tias que trabalham com artesanatos, elas tecem tapetes e bordam toalhas, elas vivem disso até hoje. Eu tenho muitas tias, minha mãe teve 13 irmãos e meu pai, nove. Pequenininha, no sítio da minha avó, eu via minha tia pensar em quantos tapetes ela faria, isso seria o tamanho dos fios na vertical. E colocar no tear, pensar que tamanho tinha, aquele movimento vai e volta um fio, fazendo uma trama… Acho que isso me influenciou muito na escrita, pelo bordado, o artesanato. Tanto que meus primeiros textos são curtos e tem um trabalho mesmo de artesanato.

Uma trama.

Andréa del Fuego – De fato, é uma trama.

Quando criança, você inventava notícias. E, hoje, você tem uma trilogia intitulada: Minto enquanto posso, Nego tudo e Engano seu. Como é sua relação com a verdade no seu ofício?

ADF – Os três títulos têm uma relação com a verdade, é de ocultamento dela. Realmente, tenho um pouco de ojeriza à realidade nua e crua, muito cruel. É muito verdadeira (risos). Minto enquanto posso, Nego tudo e Engano seu é a ficção em si, a invenção em cima do real.

E o seu primeiro romance, Os Malaquias (Língua Geral)? Como foi utilizar a história de sua família como matéria-prima para a narrativa?

ADF – Ele é baseado numa verdade, numa história da minha família. O livro começa com um acidente natural, um raio que cai na casa de um casal e deixam órfãos os filhos. Isso aconteceu mesmo com meus bisavós, eu não os conheci porque eles morreram eletrocutados por um raio. Meu avô é o Nico… Eu mantive, inclusive, os nomes deles: Nico, Julio e Antonio, são os nomes verdadeiros. Sempre existiu um mito familiar em volta dessa história, sempre foi contado, de vez em quando, mas com certo tabu. Eu sabia que, um dia, escreveria a respeito, mas o realismo fantástico vem de uma certa fuga da realidade mesmo, de construir um mito familiar. A verdade da família já é uma ficção. Quando o meu avô tem uma impressão, ainda infantil sobre o acidente natural que aconteceu na vida dele, esse trauma… Ele nunca conseguiu narrar essa história, ele não narrou. Uma tia comenta: “Não, porque acho isso, isso e isso…” Já começa o mito, uma construção. A verdade, mesmo? Eu posso me perguntar se realmente isso aconteceu. A essa altura do campeonato isso não interessa mais, não é? O que fiz foi narrar, pelo menos o começo do livro, aquilo que ele não consegue, tomado de tanta emoção. Meu avô, minha família é muito emotiva. Eles são muito contidos, a força é sempre latente. As coisas estão acontecendo, as piores que você possa imaginar, e eles estão calados.

Em relação aos primeiros livros, o que há de tão diferente neste romance?

ADF – Eu comecei a escrever Os Malaquias em 2003, 2004. Eu fiquei trabalhando nesse livro, desde vários abandonos ao retorno a ele, seis, sete anos. E, durante esse tempo, publiquei outros seis livros: três juvenis e outros três de contos. Então, muita coisa aconteceu durante esse processo. O romance, que estou começando a escrever agora, esse vai ser uma nova fase. A gente sempre tem essa impressão a cada livro novo, não é? Os Malaquias é uma coisa que já ficou para trás. A linguagem… Não sei se ela continua ou se ela me satisfaz. O realismo fantástico, eu tive um trabalho enorme para limpar esse realismo todo. Porque eu delirei com o livro, delirei mesmo. Tinha algumas passagens, assim, desnecessárias, mas eu me encantava com aquilo. O trabalho de anos foi limpando os excessos. Meu sonho de escrita é escrever de pronto, com os excessos já para trás.

Esse novo livro já tem nome?

ADF – Tem o nome provisório, Sonar. Estou começando do zero. Eu já tinha escrito algumas páginas, mas limpei tudo, estou começando do zero.

Você também é autora de livros infanto-juvenis. Como é escrever para esse público? Há muita diferença quando você escreve para adultos?

ADF – O público juvenil é muito mais exigente. Porque o adulto, de saída, já faz um pacto de cooperação com autor. Se ele já gastou, 30 reais, 40 reais, com aquele livro, já fez um pacto de entrega. O adulto dá uma chance. O adolescente não, e ele quer uma explicação exata das coisas. Com o público adulto você pode não deixar as coisas explicadas, elas estão subtendidas… A maturidade faz com que você não tenha tanta necessidade de certezas, já se acostumou com as não-respostas. Com o adolescente, não é qualquer resposta, ele exige uma lógica fria, quase matemática. É muito interessante. É o que tenho percebido com os leitores juvenis, principalmente com o Sociedade da Caveira de Cristal, o primeiro que escrevi. É uma história em que o bairro está em quarentena porque tem um vírus letal, está matando muita gente, eles (os personagens) não têm mais aula, ficam em casa… Através do computador, eles entram em contato com um jogo, que a medida que vai passando de um fase para outra… Em determinada fase, o jogo acontece em sonho. Eles dormem, deixam o computador ligado, e se encontram com outros jogadores online, em sonho. Eles entram numa plataforma onírica, ali começa o sonho. Tem uma organização por trás disso… E aí a trama vai. Altera a realidade através do sonho. Tenho um bom retorno desses leitores. De vez em quando, ganho — acho que é essa a palavra, “ganho” — um e-mail com alguns comentários… Há professores que incentivam os alunos a escreverem resenhas em blogs da escola. Já encontrei vários (blogs), tem aquela resenha que é de um aluno que nem imagina que o autor do livro vai ler aquele texto. É muito livre, é muito sincero. Tem um retorno muito sincero, que é interessante, para o bem e para o mal (risos).

Você costuma dizer que São Paulo é uma cidade “indoor“. Como São Paulo interfere em sua escrita?

ADF – São Paulo é uma cidade interessante porque ela não é aquela cidade do devaneio explícito, você não sai andando por ela e se inspira. Claro, até pode. Mas não é. A cidade é indoor, as coisas acontecem nos encontros, dentro dos lugares. Você precisa ser iniciado na cidade. À medida que você está iniciado, você entra numa conexão de pessoas próximas daquilo que você está fazendo. Até pelo número de pessoas de diversos Estados, que, sobretudo, têm alguma saudade, alguma ideia de voltar que nem mesmo viveu… A cidade, nesse quesito, é indoor, dos encontros, os encontros literários fizeram muita diferença, um impacto muito grande, no que entendo de literatura. Os encontros com os amigos, os escritores que dividem com você as angústias, as alegrias da escrita… Parece tão bobo, tão superficial, mas não é. Você não volta para casa sem conforto, existe um conforto em ter com quem dividir. Não é com qualquer pessoa que você consegue dividir, dizendo metade de uma frase sobre a angústia da escrita. O outro, que faz aquilo, que é um cúmplice, sabe do que você está falando. Acho que isso vai se construindo. Os encontros, os bate-papos, as cervejas, as viagens, são muito aconchegantes, diminuem um pouco o impacto da solidão na escrita.

O que você almeja enquanto autora?

ADF – Almejo continuar escrevendo. Continuar a escrever com menos angústia. Não acho fácil escrever. Reescrever não é fácil, exige uma disciplina enorme, que também não é fácil. Continuar a escrever é uma opção sem retorno. Minha grande vontade é continuar a escrever, não sei, deslizando mais…

Há algum autor que tenha um caminho literário que você se espelha?

ADF – O autor que me toca muito é o Roberto Bolaño. Mas, enfim, é uma febre mundial em torno desse nome. Mas não é o tipo de vida em que me espelho. Acho que a vida dele não foi nada fácil… Essa ideia, por exemplo, de sacrificar a vida em nome da literatura, acho que não foi o caso dele… Mas existe essa ideia de sacrificar a vida para fazer a grande obra. Eu não gostaria disso para minha vida. Eu só prefiro a vida.

O que é mais importante na vida?

ADF – Poder continuar a escrever. Muitas coisas que precisam dar certo para você acordar e escrever. Eu espero poder continuar a escrever. É mistura, não é? A vida é mais importante, mas a vida tem importância porque se escreve… (risos)

É confuso.

ADF – (risos) Bem confuso.

O que é preciso para se tornar um autor?

ADF – Para se tornar escritor é preciso ter passado boas frustrações. Porque você vai se frustrar muito, por maior que seja o sucesso, por menor que seja o sucesso, enfim, em qualquer possibilidade a carga de frustração é muito grande. Escrever um livro que você não sabe para quem vai, o retorno é sempre muito silencioso. Escrever exige uma energia mental absurda. O tempo inteiro você vai lidar com uma expectativa enorme. Ao mesmo tempo, para você escrever, tem que acreditar muito naquele trabalho. Qual a razão para você parar e escrever um romance, poesia ou um livro de contos? Que motivo move uma pessoa para fazer uma escolha como essa? De cara, você tem esse impulso gigantesco. Assim que termina uma obra, aquilo publica, e já foi embora. Foi para onde? Para onde vão os livros que escrevemos? Quem são os leitores? E por mais que ele diga, dê um retorno sobre aquilo que leu… E? É um suspiro. Quem começa a escrever, o teste é a vontade da escrita por si.

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