ANDRÉ DAHMER

“O DESENHO NÃO É A COISA MAIS IMPORTANTE DO MEU MUNDO” 

Por Ramon Mello e Bruno Dorigatti (SaraivaConteúdo – 2010)

André Dahmer / Foto de Tomás RangelAndré Dahmer não perdoa e há dez anos é assim. Suas tirinhas, charges, cartuns, que apareceram na Internet, apresentam algumas das melhores críticas, com muito sarcasmo e escárnio, um humor negro corrosivo e autodepreciativo, sempre direto e claro a estes estranhos anos que inauguram o novo século. A solidão é algo presente no trabalho deste carioca que começou a desenhar ainda criança, uma das maneiras que os pais encontraram para tentar melhorar o problema de déficit de atenção e a hiperatividade. Vem funcionando, e bem. Através do desenho, ele ri deste mundinho covarde, de si e da gente. Os solitários, “seguem morrendo aos poucos nos bares e dentro dos quartos, varando madrugadas sinistras com a ajuda da pornografia em banda larga e álcool, muito álcool”, escreve o quadrinista no prefácio de seu livro mais recente, A cabeça é a ilha, lançado pela Desiderata em 2009, assim como seus outros dois livros, O livro negro de André Dahmer (2007) e Malvados (2008).

Estes últimos personagens, parecidos com um sol e que destilavam veneno e crueldade sem pudor nem piedade, o desenhista matou, para desespero de centenas de milhares de órfãos. “Eles dizem: ‘Ah você abandonou a gente…’, mas não tem importância nenhuma, porque saudade também é bom, faz coisas boas. Eu precisava de mais coisa, não fiz de sacanagem. Também corri riscos, porque tem que correr, abandonar certas coisas. Se tiver que largar amanhã os quadrinhos para fazer o que descobri que gosto de fazer de verdade, não tem problema nenhum pra mim”, afirma Dahmer, que também pinta em aquarela seus solitários e rechonchudos personagens. Em um de seus sites, há uma frase do escritor polonês Witold Gombrowicz: “A arte perturba os satisfeitos e satisfaz os perturbados.” O que ela resume? “Não se pode confundir arte com mercado de arte. A arte, já foi dito, é um pedaço do que o rico pode comprar por não conseguir fazer. Claro que a maioria deles compra por pura especulação. É também uma ótima forma de lavar dinheiro de drogas, armas, diamantes. É um campo que não é dos mais bonitos de se olhar. Arte é outra coisa. Conheço gente que está fazendo arte dentro de casa, grande arte, há muitos anos, e que nunca vai mostrar na rua.”

Dahmer finaliza seu primeiro livro de poesias, Amor como audácia, uma edição com 600 exemplares e capa pintada a mão. “Vai dar um trabalho danado. Mas quando vi que o Liniers tinha feito a mão 5 mil capas, achei que era possível. Sempre tive vontade, imagina, um livro com todas as capas diferentes. E eu duvidava. Mas eu não sou o Liniers, então eu posso fazer 600.” Ele também finaliza um documentário com o amigo Terêncio Porto, onde entrevistaram só pessoas uniformizadas: bombeiro, médico, guardador de carro, gari, garçom. “A gente falava: ‘Você pode dar uma entrevista?’ Aí quando ligava a câmera: ‘Você pode contar como foi seu primeiro beijo na boca?’ O uniforme desumaniza muito a pessoa, depois que você veste um, ninguém te olha, você vira um mobiliário. E são incríveis as histórias, eles choram contando”, diz Dahmer, que se considera só um desenhista esforçado. “Não tenho vergonha nenhuma de falar. Porque o desenho não é a coisa mais importante, do meu mundo, pelo menos.” E o que é mais importante no seu mundo? “O meu funcionamento. Tenho vários problemas, não consigo me deslocar de carro, de avião. Então meu mundo também é ter coragem, para fazer o mínimo que consigo fazer.”

Como foi o começo com o desenho?

André Dahmer – Até a quarta série, já tinha reprovado dois anos. Chamaram meus pais na escola e disseram que provavelmente eu não chegaria à faculdade. Ou seja, me tiraram de burro, ou demente, ou o que for. Eu tinha inquietação, essas coisas que hoje dopam as crianças com ritalina. Na minha época, não tinha ritalina, então me dei bem. Não me drogaram, mas… Eu era hiperativo. Tenho também distúrbio de atenção realmente alto. Tentaram o judô primeiro, mas eu só ficava calado, quieto, desenhando. Colocaram-me em uma escola de arte em frente de casa, da Maria Teresa Vieira, minha professora de pintura até os 16 anos. Entrei lá com 6 anos.

Depois que entrei nessa escola de arte, nunca mais fiquei de prova final, repeti o ano e fui até a faculdade resolvido. Aí em 1994 entrei para Belas Artes, na UFRJ, não me adaptei a todas aquelas questões teóricas. Eu era muito cobrado lá e não tenho paciência para fazer um desenho de quatro horas, por exemplo, que era o que eles queriam. E se o desenho tivesse uma marca de mão — você tem que desenhar com um pano em cima, ou com luva na Belas Artes — o cara falava: “Não, faz de novo.” Aí eu fazia e ele: “Tá vendo essa marca de lápis no papel? Não pode, faz de novo.” E um dia, quando esse cara me mandou fazer de novo, chutei o cavalete e mandei tomar no cu, o filho da puta, reacionário. E fui embora. Ainda bem que fui embora, porque senão acho que não teria feito quadrinhos.

Por sorte, eu tinha passado em outros vestibulares no mesmo ano. Para Desenho Industrial, na PUC-RJ, e para Direito, na UERJ. Então quase que me tornei advogado. Mas fui fazer Desenho Industrial e no terceiro período já estava muito decepcionado: “Caralho, vou fazer embalagem de sabonete para sempre.” Esse papo que falavam no primeiro semestre: “Ah, você vai ter uma profissão criativa”, é tudo mentira.

Você se formou?

AD – Só pelos meus pais.

Não te acrescentou em nada?

AD – Sem querer desdenhar do curso, só um professor me ajudou, se chama Urian. Ele foi o cara que falou: “Você não pode pintar mexendo o pulso, tem que pintar mexendo o sovaco”; “Quem pensa, não pinta; quem pinta, não pensa.” No primeiro dia de aula, ele falou assim: “Quem não quiser assistir, ganha 10. Me dá o nome e pode sair.” Depois falou: “Quem fizer o maior número de trabalhos, ganha 10. O último, fica com zero.” Ele queria uma corrida, que a gente desenhasse o máximo possível sem pensar, para desenvolver o traço. Passou na sala inteira, recolhendo as borrachas — pegou minha borracha alemã, eu não tinha dinheiro nenhum — jogou tudo no lixo. Essa era a linha de trabalho dele. E hoje, certamente, se eu vier a dar aula de desenho, vou jogar a borracha de todos eles fora, porque foi muito importante, sabe?

Ele que me ensinou que é preciso abandonar o mestre, acabar com o culto do faixa preta. Que falou que professor de pintura é tudo picareta, porque a pintura, tal qual o desenho, é que nem uma digital, a sua assinatura. Cada um tem o seu desenho. O problema é quando a gente chega na quinta, sexta série, você troca as aulas de arte e música por ciências, por uma questão cultural. Mas todo mundo nasce com o próprio desenho, sabe desenhar. Porque desenhar não é retratar nada, sabe? Qualquer um sabe reproduzir a Mona Lisa, por exemplo, por regras de geometria, matemática. Na verdade, não há segredo algum em retratar, o problema é achar uma linguagem para o seu desenho, não roubar de ninguém. Referência atrapalha muito. Ainda bem que quando cheguei aos quadrinhos, não tinha lido nada.

Você sofre com a angústia da referência?

AD – Nossa, morro de medo de roubar, chupar dos outros.

De ser acusado de roubar?

AD – Não, não é de ser acusado, é de roubar mesmo, saber que está roubando.

Mesmo inconscientemente?

AD – A vigília é para que não roube ninguém, mas é impossível, né? Um come do outro. Sou muito amigo do Allan Sieber, há anos, desde que ele chegou ao Rio, e do Arnaldo Branco também. Foi por acaso e foi ótimo, porque ninguém falou “vamos unir vocês”. Com certeza, as coisas que faço os influenciaram e vice-versa. Mas morro de medo. Tanto que o lugar das grandes obras é entre os 20 e 35 anos. É difícil você pegar um coroa, que só apareceu na música, na poesia com 50 anos. Porque dos 20 aos 35 — cheguei ao limite agora, estou com 35 — a cabeça está fresca. Não estou fazendo um discurso aqui de que a técnica não serve para nada. Eu mesmo sou um interessado, apesar de ser só um desenhista esforçado. É o que realmente sou, não tenho vergonha nenhuma de falar. Porque o desenho não é a coisa mais importante, do meu mundo, pelo menos.

O que é mais importante no seu mundo?

AD – O meu funcionamento… Tenho vários problemas, não consigo me deslocar de carro, de avião. Então meu mundo também é ter coragem, para fazer o mínimo que consigo fazer. A questão de carreira, eu não sou exatamente um alpinista de carreira. “Ah, agora eu tô fazendo isso para depois fazer aquilo.” Faço mais porque preciso. Que bom que veio o dinheiro, consigo receber pelo que faço. Sei que muita gente não consegue. Hoje, quando vou à uma universidade falar, a pergunta que sempre me fazem e nunca deixam de fazer é: “Como ganhar dinheiro?” Nunca deixaram de fazer essa pergunta. E ganhar dinheiro é uma coisa facílima, na verdade. Você abre um apartamento em Copacabana, bota cinco putas e faz 20 mil por mês. Ou, se você só tem 20 reais, compra uma caixa de cerveja e, quando voltar de noite pra casa, vai ter 40 reais.

Então, na verdade, não é ganhar dinheiro, isso é mole. É como você ganha dinheiro. Você quer abrir um puteiro? Eu não quero. É uma distância enorme entender isso. Esses garotos que estão saindo da faculdade são reféns: “Ah, você não vai sobreviver, vai fracassar, não vai ter emprego.” Isso é uma mentira, um pensamento hegemônico, uma ameaça que a gente está mais distante que imagina, principalmente quem chegou à universidade. Se bem que hoje em dia não mais, porque tem tanta faculdade ruim. Você é capaz de construir sua casa, plantar para comer, de criar animais. Isso é um fetiche, a questão da grana. Você vê gente com muita grana, que continua acordando e trabalhando é um fetiche, você nem tem mais como gastar. Se você morrer, teu neto ainda vai ter, e você tendo dor de cabeça com dinheiro. Quanto mais dinheiro, mais dor de cabeça. Quem cuida do meu trabalho todinho é minha mulher, ela nunca chegou e falou: “Falta dinheiro.” Ela controla tudo, passa as notas, faz tudo. Mas o dia que faltar, tenho saúde, tenho cabeça, não quero perder a saúde, porque o dia que faltar, quero trabalhar em outra coisa.

O que você lia no início?

AD – Não lia quase nada de quadrinhos, até 2001, quando comecei a fazer e publicar na Internet. E também numa ingenuidade muito grande. Sou autodidata, não consigo aprender nada com os outros. Tive que aprender sozinho a colocar os desenhos na Internet. Um tempo de ingenuidade. Um ano depois, me ligaram e falaram “Aqui é do Jornal do Brasil, você quer publicar quadrinhos?” Desliguei o telefone e falei: “Meu amor, acho que um amigo meu ligou me sacaneando.” Porque não sabia que era tão acessado, o site dos Malvados. Naquele tempo não existia essa corrida por acessos. Esses jovens de hoje já nasceram profissionalizados, a fim de ganhar dinheiro. Naquele tempo, a gente não sabia que isso poderia dar dinheiro. Não condeno, não, mas vejo muita gente começar já pensando nisso, em ser assediado por empresas de publicidade, como sempre acontece. A publicidade caminha junto com qualquer novo veículo importante que surge. Depois que fui saber que muita gente lia os Malvados. E é incrível como o despreparo faz coisas boas, sabe? Porque se eu soubesse que desde o início essa gente toda estava lendo, eu iria me preocupar muito mais. Hoje tomo cuidado para não fazer quadrinhos mecanicamente.

E o que mudou depois que descobriu?

AD – Acredito que a crítica é uma das coisas que mais engrandece as pessoas, saber escutar é muito importante. Inclusive os meus melhores amigos não são as que batem nas minhas costas e falam: “Ah, que bom, que coisa maravilhosa que você fez, que tira linda!” São exatamente os que me ligam e dizem assim: “Porra, não faz merda, André, tá errado.” Principalmente para aceitar trabalho, que ligam muito, trabalho, trabalho. Tem que ter o maior critério para fazer as coisas. Para não se misturar com pessoas que não são da minha praia. Mas recebi muita crítica, porque a Internet é o lar dos corajosos, né? Então escrevem para você: “Seu trabalho é uma merda, você não sabe desenhar, odeio você, sua mãe é uma puta.” Isso, no início não tinha. E hoje tem o cara que escreve “Puxa, você estava tão bem fazendo aquilo, porque começou a fazer isso?” E tem o cara que acordou com o ovo virado e, no caso, resolve xingar na minha. Não tem problema nenhum. O anonimato engrandece essas pessoas, que são frágeis, até de caráter e tudo, sei que no fundo ela sabe a condição dela, de se fantasiar de anônimo para falar mal dos outros. Além de achar que ela sabe quem eu sou, ela sabe muito bem quem ela é. Não tenho muita preocupação, mas também não tenho saco para ler. No Orkut, tem os órfãos dos Malvados, um grupo grande com 100 mil pessoas. “Ah você abandonou a gente…”, mas não tem importância nenhuma, porque saudade também é bom, faz coisas boas. Eu precisava de mais coisa, não fiz de sacanagem. Também corri riscos, porque tem que correr riscos, abandonar certas coisas. Se eu tiver que largar amanhã os quadrinhos para fazer o que descobri que gosto de fazer de verdade, não tem problema nenhum pra mim. Minha mulher talvez fique apavorada, mas, para mim, não tenho nenhum apego. Como falei, o desenho não é a coisa mais importante da minha vida, é muito complementar, me acalma, me ajuda a pensar, me faz pensar melhor. Mas não tenho nenhum apego.

E os poemas, como surgiram?

AD – Tenho um grande amigo que é poeta, Rodrigo Linares, e já fizemos coisas juntos, desde jornalzinho de faculdade. Um dia, falei pra ele que queria tirar da gaveta, mas não tenho coragem. Vou lançar um livro de charges no final do ano, não tem problema nenhum para mim, já sei fazer. Mas fico com o maior medo de sair no jornal: “Esse cara devia ter ficado nos quadrinhos.” Um medo danado. Mas é também correr riscos. Esse livro está sendo feito com todo o cuidado do mundo. Se não for para ser, se falarem que não é bom, não é bom, tudo bem. Se chama Amor como audácia, uma edição com 600 exemplares, capa pintada a mão, vai dar um trabalho danado. Mas quando vi que o (quadrinista argentino) Liniers tinha feito, vi que era possível fazer. Porque sempre tive vontade, imagina, um livro com todas as capas diferentes. E eu duvidava. Mas um dia alguém me falou “O cara fez 5 mil, André, então você pode fazer.” Mas eu não sou o Liniers, então posso fazer 600. Consegui acertar com essa editora, a Flâneur.

Qual o preço que se paga — se é que se paga — com tipo de trabalho que você faz, muito crítico, corrosivo, humor negro, autodepreciativo, muitas vezes? Por que essa opção?

AD  – Já disseram que eu faço humor político, já falaram que faço humor de escárnio. Mas já fiz humor de costumes, pastelão, gosto de tudo. E na Internet eu sou o meu editor, os limites são menores, tenho mais espaço para fazer o que quiser e arco com isso. E posso tomar um processo.

Alguém já lhe processou?

AD – Cara, de vez em quando alguém ameaça, mas nunca de processo, sempre de violência, de morte, gente de religião. Fui lançar um livro uma vez e escreveram ameaçando me pegar, por causa de uma tira sobre a Palestina. E o cara botou isso num fórum de judeus radicais. E quem me conhece sabe, para mim, guerra não tem lado certo. Palestinos e israelenses, os dois estão errados, ninguém tem o direito de fazer violência com ninguém. Aí escreveu que iria me pegar, colocou o endereço da livraria. E cachorro que late não morde, né? Você fica dizendo pro outro, “vou te matar”? Não, né? Não sei, acho que tem pouca gente no mundo radical, considero que o mundo tem mais gente tolerante do que intolerante. Sou um otimista, ao contrário do que vocês pensam. Por isso que ainda não acabou. Não tenho muito medo, não.

E como é trabalhar com a autoficção, até onde vai ou até onde pode ir?

AD – Isso quem faz mais entre os meus amigos é o Allan (Sieber). Fiz umas 30 tiras, mas todo o resto é referência das coisas que eu vivo. Anoto muita coisa, agora pedi para minha mulher comprar um aparelho para gravar. Falar, ao invés de anotar no caderno, é mais rápido. E na rua, a riqueza está no outro, né? Não é só em você. O mundo do outro também… Adoro gente tímida. Quando encontro um tímido eu colo no cara. “Quero falar com você.” Queria entender. Têm vários desenhistas que são muito tímidos, Daniel Lafayette, esse rapaz que faz a Menina Infinito, Fábio Lyra. Durante anos, em eventos de quadrinhos, estava aquele cara de óculos e nunca falou nada. Aí um dia me falaram, “esse é o Fábio Lyra”. E eu: “Porra, cara, a gente já se viu tantas vezes, por que você não falou pra mim que você fazia essa Menina Infinito?” E ele: “É, porque não deu pra falar.” E ele que me contou a piada que está no prefácio de A cabeça é a ilha (Desiderata, 2009): “André, o que um tímido falou pro outro quando eles se encontram? Nada.” Dentro dos tímidos tem um universo enorme. Tem muita coisa que pego de matéria bruta que é minha. Mas o do outro é muito engraçado também, é mais fácil rir do outro do que rir de você.

Em um dos seus sites, que vende pinturas, tem uma frase do (escritor polonês Witold) Gombrowicz: “A arte perturba os satisfeitos e satisfaz os perturbados.” O que ela resume?

AD – Não se pode confundir as coisas, porque tem a arte, que é uma discussão que a gente não pode acabar hoje aqui. Uns falam que artesanato não é arte. Arte é o que está no museu? Há grande arte nas ruas hoje. Até cortam um pedaço da rua e levam pro museu. Se você perguntar para um acadêmico, ele vai dizer: “arte tem que ser rara, cara, transferível, transportável”. São 11 elementos, eu acho. E se perguntar para minha tia que pinta porcelana, aquelas rosas, ela vai falar: “Eu sou artista.” É um conceito muito elástico.

Mas não pode confundir a arte com o mercado da arte. São duas coisas que dissocio completamente. A arte, também já foi dito, que é um pedaço do que o rico pode comprar por não conseguir fazer. Claro que a maioria deles compra por pura especulação. Você compra um Mondrian por 30 milhões. Aí no final do ano você vai à Receita Federal e declara que ganhou 80 milhões. Como? Comprei por 30 e vendi por 80 milhões. E isso acontece em arte, em um ano triplicar o preço. Basta o cara morrer, por exemplo. É também uma ótima forma de lavar dinheiro de drogas, de armas, de diamantes. Então tem que dissociar, não pode ter estes dois conceitos juntos. O mercado da arte é uma coisa e é um campo que não é dos mais bonitos de se olhar. E a arte é outra. Conheço gente que está fazendo arte dentro de casa, grande arte, há muitos anos, e que nunca vai mostrar na rua. O Rodrigo Linares é um desses, esse cara merecia uma entrevista, não eu. Mas ele não vai dar essa entrevista para vocês. Ele foi um cara que em certo momento expôs no MAM da Bahia, fez uma exposição na galeria não-comercial mais importante aqui do Rio, só expõe, não vende. Aí o (Gilberto) Chateaubriand comprou dois trabalhos dele, que seria o suficiente, um aval para que ele ganhasse dinheiro pro resto da vida, mas muito dinheiro. E não foi o que ele quis, não foi o que ele fez. Começaram a ligar, porque a caneta desse cara, quando ele passa um cheque para você, é melhor nem descontar o cheque. A assinatura vale mais que o valor. E é disso que muita gente corre atrás, mas para outros, que não se movem pelo dinheiro, é outra coisa. Por exemplo, artista, esse conceito. O Mauricio Mattar é considerado artista. Só perguntar para dez pessoas na rua. Não é porque você é muito visto e o seu trabalho muito conhecido que você é um grande artista. Não é porque ninguém sabe, que você não é. Não é esse o parâmetro de medida. Tem mais gente que acha que é artista do que é artista. Tem mais gente que é vendida como artista e que não é. Eu aprendi a tomar esse cuidado, dissociar uma coisa da outra.

O que você lê, tem lido?

AD – Quando me perguntam isso, sempre falo de um livro que está fora de catálogo, Uma autobiografia de Lucas Frizzo (Azougue, 2004), do Botika. Eu tinha três, aí toda vez que vinha alguém aqui em casa, nego bebia muito e eu falava: “Você tem que ler o livro do Botika”, aí entregava e fiquei sem nenhum. De tanto desapego, fiquei sem o livro. Mas depois me deram outro. É sensacional o livro, tem uma relação com PanAmérica, do José Agrippino. O PanAmérica é no pau, ele não, começa com pontuação, letra maiúscula. Ele corta a Mallu Mader, amarra num cachorro e come o cachorro e a Mallu Mader, só o tronco. Acho que a cabeça também, ou ele poupou a cabeça. Ele tem que relançar esse livro. O Lucas Frizzo tem seis filhas e aí faz um time de vôlei. E aí engravida essas seis filhas, gera 11 garotos e faz um time de futebol. É um dos livros mais duros que já li também; por que o personagem principal é de uma pequenez, um medíocre, escroto. Vou ler agora Cachalote (Companhia das Letras, 2010), do Rafael Coutinho (e Daniel Galera). Tenho livros do lado da cama, aí eu troco sempre, não consigo ficar na mesma coisa. Tem um de poemas, tem esse outro aqui, que está aos pedaços, é um Fernando Pessoa, que alguém roubou de uma biblioteca pública, achei em Friburgo.

Vou lendo o que dá pra ler. Não vejo mais filme, é muito tempo e tenho muita coisa pra fazer. Ao cinema, por exemplo, eu não vou. E livro é mais ou menos a mesma coisa. Então passar o dia todo lendo, não vou fazer mais nada. Duas vezes por semana, leio na cama, para dormir mesmo, tomei uma garrafa de vinho. Mais me ajuda a dormir do que qualquer outra coisa. É uma vergonha falar isso para uma livraria. Mas quem disse que fazer dormir não é bom? Eu que preciso tanto dormir e não consigo. Vinho e livro. Ao vinho, devo minha vida, senão não dormiria.

E música, o que você ouve?

AD – Não ouço quase nada de música. Sou muito desconcentrado, então não pode chegar em casa e ligar a música, pois não consigo pensar em nada, fazer nada. Prefiro o silêncio. Quando vem um grupo de amigos, às vezes meia-noite, uma hora da manhã, eles falam: “Poxa, André, você não poderia botar um sonzinho pra gente?” A música é um negócio maravilhoso, só dei valor agora. Antes achava uma besteira. Para você ver como é importante, como a gente vai mudando. Há dois anos, eu falava: “Desliga essa merda que eu quero trabalhar.” Não conheço nada, todas essas coisas que vocês ouviram nos anos 1990, do Nirvana em diante, não sei nada. Escuto um pouco de música brasileira, de jazz, mas muito pouca coisa.

E animação, assiste, pensa em fazer um dia?

AD – Não vejo TV. O Allan (Sieber) tem um estúdio de animação, a Toscographics — o melhor lugar para se trabalhar —, às vezes eu olho alguma coisa. Sei que têm muitas coisas, mas não dá pra conhecer tudo. Estou terminando um curta com um amigo meu, Terêncio Porto, falta só sonorizar. Então consegui fazer, sabe? É um documentário onde passamos dois dias entrevistando só gente uniformizada. Bombeiro, médico, guardador de carro, gari, garçom. A gente falava: “Você pode dar uma entrevista para a gente?” Aí quando ligava a câmera: “Você pode contar pra gente como foi seu primeiro beijo na boca?” E o cara: “Mas como assim, primeira foda?” “Não, o seu primeiro beijo na boca.” E você tem que ver que coisa linda. O objetivo do filme, quando fiz o argumento, era mostrar… o uniforme desumaniza muito a pessoa, depois que você veste e anda num shopping, ninguém vai te olhar, você vira um cinzeiro, um mobiliário. A minha vontade era fazer isso. E são incríveis as histórias, nego chora contando. O nome provisório é Uniforme, que tem essa definição bonita, do que está correto, pleno, mas também é o que está normatizado, uniformizado. Só falta botar a música, mas tudo é difícil, né? O documentário é lindo você tem que ver. Não sei quando vai sair.

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