AFFONSO ROMANO DE SANT’ANNA

A CONSTRUÇÃO POÉTICA DE UMA TRAJETÓRIA

Por Ramon Mello (Revista SaraivaConteúdo – 2010)

Affonso Romano de Sant'Anna / Foto de Tomas RangelPara o poeta Affonso Romano de Sant’Anna, “a morte é uma construção que se faz em vida”. A sua produção poética e crítica — se encontram nos caminhos diversos de sua trajetória — fazem parte dessa tentativa de registrar as idiossincrasias da experiência humana.

“A literatura, por exemplo, a poesia, para mim, é a construção que você deixa sobre a destruição. É a própria narração da destruição, mas, dialeticamente, construindo algo que vai cobrir aquele vazio. A impressão que o escritor tem — não sou só eu, qualquer escritor, qualquer artista que produz um som, produz uma imagem — quando produz uma coisa, ele preenche o vazio, ocupou o espaço. A vida, no caso do escritor, só existe quando for transformada em palavras.”

Um dos intelectuais mais atuantes do Brasil, Romano de Sant’Anna se relaciona com o tempo buscando imprimir sua visão de mundo através de versos e textos ensaísticos, num constante estímulo ao pensamento crítico. Confessando que estava cansado de “ler de joelhos”, o poeta sai à procura de um diálogo, em pé, com autores que pensam a sociedade atual.

“Na universidade, se lê tudo de joelho, o tempo todo: Benjamin, Nietzsche… Fica repetindo aquelas coisas que o professor… O professor está de joelho também lá… Eu resolvi ler essas pessoas em pé, o que realmente acho. A vida é uma assinatura pessoal, tem que ter uma redação própria”, afirma o autor de O enigma vazio (Rocco, 2008), entre outros títulos de ensaios, crônicas e poesias.

Diante de uma intensa relação com o tempo, Affonso Romano de Sant’Anna relembra o início de sua carreira, quando resolveu sair de Belo Horizonte, aos 17 anos, acompanhado do irmão mais velho, e levar alguns versos para avaliação do poeta Manuel Bandeira, no Rio de Janeiro.

“Entrei lá e entreguei para ele os poemas. Ele dizendo, de uma maneira muito seca, que não gostei até: “Olha, se eu não gostar eu digo, hein…”, relata o poeta que foi considerado pelo crítico Wilson Martins como o sucessor de Carlos Drummond de Andrade, no que se refere ao desenvolvimento de uma “linhagem poética”.

A memória, cada vez mais presente em sua vida, nos faz compreender que “cair no tempo é parar de deslizar na superfície das coisas e mergulhar dentro de você, a descoberta da própria noção de tempo”, como declara o poeta.

Quando jovem você reuniu seus versos e levou ao poeta Manuel Bandeira. Como foi essa história?

Affonso Romano de Sant’Anna – Isso era muito aquela ansiedade do jovem escritor — ele precisa de um aval, precisa de contato com um grande escritor, que diga de alguma maneira, uma palavra sobre seus escritos. Então, naquela coisa provinciana, meio adolescente, até uma certa meiguice, eu saí de Juiz de Fora e fui ao Rio de Janeiro. Tive um encontro com Drummond também, que até fiz uma crônica sobre isso, na mesma ocasião. E com o Bandeira, foi uma coisa muito meiga ir ao apartamento dele, o “poetão” estava lá de robe, fazendo um café num canto, conversando com uma pessoa. Fui com meu irmão mais velho, que era uma espécie guardião…

Você tinha 17 anos?

ARS – Tinha 17 anos, com a audácia dos 17 anos. Entrei lá e entreguei para ele os poemas. Ele dizendo, de uma maneira muito seca, que eu não gostei: “Olha, se eu não gostar eu digo, hein…” Eu pensei comigo, na minha vaidade de adolescente: “Claro que ele vai gostar, vai cair de quatro.” Na verdade, passados alguns dias, eu achei que ele tinha se esquecido de me responder. Daqui a pouco, chegou uma carta, uma letra bonitinha e bem feita, envelope de seda… Eu abri, levei para o quarto para ler aquela coisa, o nome dele como remetente. Papel de seda. Começava assim: “Achei muito ruins os teus versos” (risos). Foi muito engraçado porque ele dizia “gostei de uns poemas assim e tal”, e copiou com a mão uns versos que ele tinha gostado. Que era até de um poema que depois reaproveitei e publiquei mais tarde, um poema que tinha tudo a ver com a circunstância. Imagina. O poema se chamava “Poema aos poemas que ainda não foram escritos”. Aquela coisa, você com 17 anos, imaginando quando tiver 50, 60, 70 anos quando teria escrito… Naquele tempo, eu escrevia muito.

Qual foi a importância dessa crítica do Bandeira?

ARS – Foi fundamental. Porque eu já era o maior poeta da minha casa. Eu já era o maior poeta da minha rua. Eu já era o maior poeta do meu bairro. Eu já era o jovem talento da minha cidade. Então, eu precisava que alguém me dissesse a verdade. Não bastava essa coisa afetiva ou familiar, dos amigos… E um poeta te dizer: “Olha você vai ter que aprender, rapaz. Algumas coisas têm que ser devagar. Tem talento e tal, mas vamos lá…” Eu gostei muito, não fiquei chateado, achei aquilo um grande estímulo.

Você sempre quis ser poeta?

ARS – Eu comecei meio sem saber o que eu estava fazendo, escrevendo umas coisas… E como eu tive a coragem também de publicar meus textos em jornal, aos 16/17 anos, fui abrindo caminho…

Como você lida com a relação da memória em sua produção poética?

ARS – A memória está se tornando mais presente de uns tempos para cá. Porque você quando se é jovem está envolvido com o presente e pelo futuro, o passado é uma aquisição, o passado é uma conquista. Eu costumo dizer, quem tem até 25 anos vive no espaço. Você começa a viver no tempo depois dos 30. Cair no tempo é parar de deslizar na superfície das coisas e mergulhar dentro de você, a descoberta da própria noção de tempo. Enquanto o indivíduo não descobre que ele é um ser temporal, portanto sujeito à morte, e que as coisas são precárias, ele não está vivendo, está deslizando por aí. A literatura, no meu caso, é um aprofundamento dessa questão do tempo, uma bifurcação que eu me encontro com o amor e a morte.

Como lidar com o amor, a morte e o passar do tempo?

ARS – É uma relação progressiva nos dois sentidos. Eu acho que você tem que construir a sua morte, não pode deixar para pensar na morte depois de morto. A morte é uma construção que se faz em vida, a morte faz parte da vida. A menos, que você morra num desastre, num acidente, com uma doença de repente… Mas mesmo assim é uma construção, no sentido que você está roubando a destruição com uma certa construção. A literatura, por exemplo, a poesia, para mim, é a construção que você deixa sobre a destruição. É a própria narração da destruição, mas, dialeticamente, construindo algo que vai cobrir aquele vazio. A impressão que o escritor tem — não sou só eu, qualquer escritor, qualquer artista que produz um som, produz uma imagem — quando produz uma coisa ele preenche o vazio, ocupou o espaço. A vida, no caso do escritor, só existe quando for transformada em palavras. O que você não registrou, existe imponderavelmente, egoisticamente, na sua cabeça, na sua memória. O que você registrou é a sua vida concreta e pública. E literatura é isso, sua expressão verbal tornada de utilidade pública.

Além da produção poética, sua produção crítica é bastante intensa. Há alguma divisão nesses trabalhos?

ARS – É meio misturado, sabia? Na minha poesia, por exemplo, tem uma face muito crítica, ela é até ensaística. Eu me lembro de um livro que publiquei nos anos 60 para 70, um livro chamado Poesia sobre poesia, onde os poemas são ensaios, comentários sobre a produção patética da poesia do meu tempo. Então, essa vizinhança existe. Por exemplo, tenho ensaios sobre a interpretação da obra da Clarice onde eu usei uma estratégia, que acho muito sedutora e resultou muito bem, comecei a escrever usando a linguagem, parafraseando um dos contos dela. A maneira mais correta, digamos, de entrar na obra do autor, dentro da linguagem dele. Isso eu tenho feito de diversas maneiras no ensaio.

Com o Drummond, por exemplo…

ARS – O Drummond tem muito disso, mas têm uns ensaios, sobre Jorge Amado e outros, em que adotei essa estratégia intencionalmente. E têm outros ensaios que são mais clássicos. Nesse último livro, O enigma vazio (Rocco, 2008), que é um comentário crítico sobre o mal entendido da arte contemporânea, eu entrei nos textos de Octavio Paz, Roland Barthes, Jacques Derrida, Focault, Lacan… Habitar esses textos para ver as contradições desses textos. Eu sempre digo: Trata-se de não ler esses autores de joelho. Eu cansei de ler autores de joelho.

Você já leu muitos autores de joelho?

ARS – Na universidade se lê tudo de joelho o tempo todo: (Walter) Benjamin, Nietzsche… Fica repetindo aquelas coisas que o professor… O professor está de joelho também lá… Eu resolvi ler essas pessoas em pé, o que realmente acho. A vida é uma assinatura pessoal, tem que ter uma redação própria.

Há quem utilize a vida como resultado final de um livro, sem trabalhar a linguagem…

ARS – Nós vemos isso na Flip. Para falar a verdade, essa coisa do Mário Bellatin, dessa outra Sophie Calle, e vários personagens que perambulam pela Flip, pertence a um gênero, que foi criado pela pós-modernidade, onde não se sabe mais o que é literatura e o que é espetáculo. É um gênero, se deve analisar isso, produto da época. É bom pensar criticamente sobre isso, se você tirar a parte biográfica, espetacular, fica o texto. Será que o texto resiste? Ele tem autonomia para resistir? Você pega o Bellatin, que estava com uma falsa mão: um gancho, um falo, ou um vibrador… Isso é a notícia. As pessoas vão assistir porque ele fez uma performance de tal ordem, a biografia. As pessoas vão atrás do supérfluo para chegar à literatura. Alguém hoje me perguntava: “Você acha que quando Fernando Pessoa escrevia plantava bananeiras, botava roupas, fazia muito barulho?” Não. Ele escrevia em silêncio. Drummond escrevia em silêncio. Quando eu digo que essas manifestações são uma questão de época, não estou censurando, não. Estou tentando colocar isso no devido lugar. Um dos problemas da chamada sociedade atual e contemporânea é que as pessoas não têm mais discernimento de estabelecer categorias. Não significa que as coisas tenham lugar fixo, mas as coisas pertencem a tempos e espaços diversos. As coisas não se equivalem: A não é igual a B, uma banana não é uma laranja… Há que estabelecer categorias para entender o sistema. Uma das coisas mais simbólicas da nossa época diz respeito à famosa Teoria do Caos. A física descobriu, nos anos 70, que o caos não era caótico, o caos tinha uma estrutura. Um cidadão determinado chegou a fazer uma equação do caos, o caos pode ser resumido a uma fórmula. Ao se perceber que o caos tem uma estrutura, um certo sentido, você começa a ver as coisas com mais clareza. O analista, o teórico, o artista é o indivíduo que tenta entender o caos. Alguns tentam ordenar o caos. O artista, eu enquanto poeta, ordeno o caos metaforicamente, através de metáforas. O cientista através de fórmulas. O analista através do texto e do contexto. O nosso desafio é enfrentar os enigmas, por isso eu fiz esse livro, O enigma vazio (Rocco, 2008). Há enigmas que são cheios, o enigma de Édipo era um enigma cheio. Estava lá a Esfinge na entrada da cidade, o Édipo chegou, como chegaram outras pessoas, a Esfinge fazia uma pergunta. Quem sabia responder a Esfinge deixava passar, quem não sabia a Esfinge comia. Mas o enigma tinha um significado. Hoje, em nossa sociedade, têm uns enigmas que não significam nada. Ou seja, são falsos enigmas, pseudoenigmas.

Por exemplo?

ARS – Por exemplo: a nossa sociedade cultua muito a aparência, a imagem. E a maioria das pessoas é conduzida pela aparência, pela imagem. O que seria “conteúdo”, interior, estrutura, passa a não ter nenhuma importância. Não significa que a aparência não tenha nenhuma importância. Mas, já diziam os filósofos, na esteira de Heidegger, por exemplo, que o princípio mínimo de sabedoria é você entender o jogo entre a aparência e essência. Todas as coisas que existem, aparentam, têm aparência. Mas as coisas são mais do que a simples aparência que elas têm. A sociedade que nós temos hoje está levando as pessoas a ficarem presas no aspecto, no sentido “aspectual” da coisa. Elas se sentem confusas, leem jornais e não entendem o que está acontecendo. É uma tempestade de informações. Ou seja, ler o mundo não é uma tarefa fácil, não.

O que você diria para um jovem de 17 anos que o procurasse com o original de um livro? O que precisa para ser um autor?

ARS – Você sabe que isso até acontece? Volta e meia aparece um com alguma crônica que escrevi. “Olha eu li essa sua crônica…” Eles pensam que sou o Manuel Bandeira e tentam reproduzir o ritual (risos). Eu diria uma coisa muito simples: Primeiro, se você quer ser escritor, tem que ler. Se você não for leitor não pode ser escritor. A relação leitor/escritor é uma relação autoacumulativa. Borges é um exemplo disso: escritor/leitor. Machado era um escritor/leitor. Depois, o jovem tem que colocar na cabeça o seguinte: essa é uma relação em longo prazo. Nem todo mundo nasce pronto. Nem todo mundo é Rimbaud, faz o essencial. A corrida em longo prazo. Eu tive vários colegas que começaram comigo na literatura e tinham um talento incrível, mas não deram em nada. Entra outro problema: você tem que se estruturar também psicologicamente. O Allen Ginsberg tem aquele célebre poema: “Eu vi os melhores poetas da minha geração se perderem” (“Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus…”). É necessário até um certo discernimento entre esse negócio da aparência e da essência. A sociedade te chama para um brilho fácil. Se eu quiser tirar a roupa, em Paraty, vai fazer mais sucesso do que publicar um livro.

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