ADÉLIA PRADO

A SIMPLICIDADE DE UM ESTILO 

Por Ramon Mello (Revista SaraivaConteúdo – 2010)

Adelia Prado / Foto de Marcos DantasA poeta Adélia Prado tem profundo respeito pela criação, principalmente no que se refere a sua produção poética. Há dez anos sem publicar um livro de poemas, Adélia lança A duração do dia (Record, 2010), marcado por versos que transmitem desejos, frustrações, sonhos e amor.

Para a autora de 75 anos, nascida em Divinópolis, interior de Minas Gerais, a poesia e a fé são manifestações de revelação da realidade através de um processo divino, a mesma fonte da graça. “O poeta é o cavalo da poesia”, já afirmou.

A lírica de Adélia Prado, ao contrário do que se pensa, nada tem de uma pacata mulher do interior. Pelo contrário, estamos diante de uma intelectual, no sentido de que ela, ao seu modo simples e apaixonado, estuda, reflete acerca de ideias. Uma lente muito pessoal, que conquista pela simplicidade de uma bagagem de vida inteira.

Adélia Prado – (…) Tudo é ficção, viu? Tudo.

A duração do dia, seu novo livro, acaba de ser lançado pela editora Record. Por que dez anos sem publicar um livro de poemas? Como funciona sua experiência poética com a escrita?

AP – Não tem mistério nenhum e tem todo o mistério. Porque passo dez anos sem fazer poesia… Mas nesse intervalo eu fiz prosa, fiz um livro infantil. Eu podia estar num deserto criativo, né? Uma noite escura que não desse conta de nada, já me aconteceu. E também acho que é um processo natural, quer dizer, a musa está dormindo (risos). Qualquer coisa assim. Você não é uma usina permanente, nenhum autor é, em nenhuma categoria de arte. Nesses dez anos, o que eu estava fazendo? Tratando de viver o melhor possível. Então, eu tinha poemas, fragmentos de experiências… Experiências que estavam em algum fragmento de natureza poética, que eu falei: “Isso aqui é matéria de poesia.” Estava guardada. E, de repente, eu começo: “Deixa eu ver minhas coisas de poesia.” Nesse tempo, fiz alguns poemas muito novos, bem recentes, e outros antigos, que falei: “Que poema, gosto desse poema!”, sabe? Outros precisavam só de corte. Corte e costura. Foi assim, não tem esse mistério, não. Acho que isso acompanha a vida da gente. Enfim, quando comecei Bagagem, eu escrevi assim… Eu estava até a tampa, né?

Você estreou com Bagagem (Imago), em 1976, depois de enviar os originais para o poeta e crítico Affonso Romano de Sant’Anna, que repassou para o poeta Carlos Drummond de Andrade…

AP – Pois é. Aos 40 anos fiz Bagagem. Então tinha muita coisa. Depois de Bagagem veio Solte os cachorros (1979), O coração disparado (1978), Terra de Santa Cruz (1981). Depois o vulcão dá uma pausa. Mas fiquei feliz por ele não estar extinto.

Você encontra alguma relação entre Bagagem (1976) e A duração do dia (2010)?

AP – Absolutamente, encontro sim. Bagagem é um livro solar, feliz, alegre… A própria dor em Bagagem tem um ritmo diferente, uma percussão diferente. Esse aí (A duração do dia), nessa altura da vida eu sinto que é — do ponto de vista da fundação poética e de fazer um livro de poesia — a mesma alegria de fundação que a gente sente. É absolutamente igual. Mas tenho aí experiências que eu nem sonhava ter em Bagagem, que foram experiências marcantes e tudo. Mas são experiências de outra natureza que Bagagem. Enquanto livro e poesia é uma coisa só. Eu vou fazer um livro só a minha vida inteira. Eu quero escrever Bagagem a vida inteira, a vida inteira. Por causa do limite da gente, né? Eu só tenho essa “vozinha”, eu só tenho esse quadradinho para olhar o mundo. É com essa lente limitada, finita, que eu vou, enfim, experimentando o mundo. E, naquilo que ele tem de beleza, vira poesia. Às vezes.

Essa experimentação surge diretamente da religiosidade. Em entrevista ao Caderno de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles, você declarou: “Deus quer falar e me usa, no caso sou eu o oráculo.”

AP – Ele usa você também. Eu acho que todo artista. Toda obra, o objetivo dela é atingir o momento poético. Seja escultura, teatro, cinema, música. Ela só acontece quando ela vibra poeticamente, numa revelação absolutamente original, singular e única. Nesse sentido, você ou eu, qualquer autor é instrumento de algo que o suplanta, que é maior que ele. Você é realmente uma boquinha, um oráculo, para algo que está se dizendo, se expressando, através de você. Em nosso caso, através da palavra. Se eu for cineasta, vou fazer um filme de arrasar (risos). Mas para quê? Para tocar no outro aquilo que é a experiência poética. No caso, é a experiência do religioso — respondendo o outro lado da pergunta. Por uma razão muito simples: tanto a experiência poética quanto a experiência religiosa (vamos dizer, dos místicos ou, simplesmente, do fiel, do crente) remete a você a um centro de significação e sentido. Isso é religioso. A significação e o sentido são de natureza religiosa. Porque você toca em algo maior que você, melhor que você, mais bonito que você. Eterno, não é finito, que te provoca aquela sensação de sentido: “Minha vida tem um sentido! Por alguma razão estou aqui. Por alguma razão, o absurdo da vida pode ser explicado.” Quer dizer, é uma fé religiosa, mas é uma fé poética. Porque ela vem através da revelação do inusitado, da beleza, que é sempre jovem, maravilhosa. Eu não dou conta de associar isso a outra coisa que não seja o Divino. A gente fica assim mesmo diante disso… Vontade de escrever poesia um dia sim, outro também. Mas não tem jeito, é quando Ele quer, quando Ela quer.

Você saberia dizer o que é Deus?

AP – Não, não sei, não! Nossa Senhora! Nó! Nó! O que é D… Não… Você tende a ser atraído para uma coisa inominável, inefável. Mas é isso que dá sentido, esse empuxo na alma de todo ser humano. A alma quer adorar, ela quer prostrar-se, ela quer reverenciar algo maior do que nós. Tem graça eu me curvar diante de alguém do mesmo tamanho meu? Que tem o mesmo medo? (risos) O mesmo limite?! Eu preciso de algo maior do que eu, é isso que me dá segurança, que me consola, que me conforta. É por isso que falo: “Dá para esperar, dá para aguentar, né?” Acho que arte toca nisso aí. A despeito dos criadores que se dizem ateus. O Drummond tem um poema…

Drummond se dizia ateu.

AP – O Drummond nem era propriamente ateu. Ele achava demais. Para um mineiro, “ser ateu” era demais. Ele falava agnóstico. Tem um poema dele sobre uma postada da Igreja de São Francisco, não sei se em Ouro Preto ou São João Del Rei… Mas é maravilhoso. Ele quase que pede desculpa de estar querendo crer. Sabe? É muito bonito! É despeito do poeta que aquilo que é transcendente se manifesta. Não adianta, não adianta, eu não mando nisso. A vingança da poesia é essa: ela ser maior que a gente.

Neste novo livro, no poema “Tão bom aqui”, tem um verso assim: “Só quero saber do microcosmo.”

AP – (risos) Estou fazendo aula de física, agora. Física Quântica (risos).

Como é essa relação consciente com o microcosmo?

AP – É que, afinal, você percebe que tudo é basicamente igual. O que interessa mesmo é a tua vidinha. Porque você não tem mais que ela (risos). Você não tem mais do que as 24 horas do dia. Ninguém tem mais que isso. E é nessa experiência pequeninha, miserável, limitada, carente, que eu vou dar uma resposta ao absurdo da minha existência e do mundo. É esse microcosmo mesmo: a filinha do supermercado, a barra da calça… Não por isso que você é poeta do cotidiano ou poeta da metafísica. A metafísica está aí nessas coisas. Aquilo do (José) Ortega y Gasset (1883-1955, filósofo espanhol): “Admirar-se do que é natural é dom do filósofo.” É o dom do poeta! Todo mundo sai correndo para ver um fenômeno da natureza, sei lá o quê. Mas preocupar-se com aquilo que é absolutamente natural é a grande riqueza, aquilo que é o dado imediato da vida. E o dado imediato são nossas carências e obrigações cotidianas. Não tem nada tão grande porque tudo você pode amansar. Você nunca viu o palácio da Rainha da Inglaterra, fica lá um dia ou dois e amansa o lugar. “Só isso? Eu quero mais, eu quero mais.” Você está sempre querendo além do que você tem. E esse além é de natureza transcendente, é a fome da alma, a fome do espírito. É uma coisa impressionante porque você, limitado e finito, fala em conceitos loucos para nós que somos tão pequenos: o infinito. Infinitamente pequeno (risos). “Infinitamente pequeno” está me perturbando ultimamente (risos). Ele é perturbador mesmo, perturbador.

Você escreveu dois livros Manuscritos de Felipa (1999), de prosa, e Oráculos de maio (1999), de poesia, no mesmo período. O processo de escrita difere entre os gêneros?

AP – Ah, demais, demais. A poesia já vem com aquela laçada própria. Você sabe que aquela coisa que se quer dizer tem o ritmo próprio da poesia. A prosa não, ela exige o discurso. Agora, com uma diferença, se você pretende ser autor de verdade, se a sua prosa não tiver poesia, pode jogar ela fora também. A pretensão da prosa é atingir a mesma coisa que a poesia, mas só que ela, coitada, é mais pobre. Toda hora os teólogos falam isso. Os paradoxos da física e da teologia — lá vem a física de novo! — que, realmente dizem, são flashes. O resto a gente fica pelejando com sintaxe, aquela coisa toda para narrar. Se você ler uma obra-prima do Guimarães Rosa… Quantas páginas tem Grande sertão: veredas (1956)? Mas no final você fica só com aquilo. Só com aquela “suspiração” que ele provoca na gente (risos).

A Bíblia é poesia?

AP – Pura. Ela é uma metáfora. É um discurso religioso vazado em metáforas. Só por isso ela tem a duração que tem. Só por isso ela dura até hoje. Todos os grandes livros, fundadores das grandes religiões, são vazados em poesia. Salmos, Cânticos dos Cânticos. É poesia pura. O subtexto de um relato bíblico, por exemplo, é uma revelação Divina: “Deus nos ama. Deus morre por nós.” É isso tudo que está lá. Mas “vazado” como? Em linguagem poética. Porque fora dessa linguagem o religioso não se apresenta, ele é poético por natureza. Você pode fazer um poema sobre uma missa das 10 ou daquela pedra (aponta para a janela) saindo do mar, ambos religiosos se forem poéticos. E ambos poéticos se forem de fato religiosos. São fontes da mesma água, do mesmo rio. Separar isso é duma infantilidade, é gente muito verde que faz isso. Ou que recusa, por um orgulho profundo, o religioso. Porque o religioso, assim como arte, supõe do fiel, do crente, uma adesão. Você não aceita a fé, você adere. A arte é a mesma coisa. A natureza do religioso e da experiência poética é absolutamente igual.

Você tem um versículo preferido?

AP – É um versículo de um texto evangélico. Prefiro todos porque são maravilhosos demais. Mas tem um que, ultimamente tem me acompanhado, que é uma fala de Cristo, não sei em qual dos Evangelhos: “Não tenhais medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do Pai dar a vós o Reino” (Lucas 12, 32-48). Olha que maravilha! (risos) Você fica em pé de novo. Você fica em pé nas pedras. E diz: “Eu vou dar conta. Eu vou dar conta!”

“Não quero morrer nunca, porque temo perder o que desta janela se desdobra em tesouros” está escrito no poema “Viação São Cristóvão”, do livro Oráculos de Maio.

AP – Não quero morrer nunca. De vez em quando ainda acredito que não vou morrer (risos). Lá no fundo, lá no substrato do microcosmo da alma (risos) eu acredito que não. Porque acho que tem um sentido também, a aspiração humana de viver. O que quero é viver. Ninguém quer morrer. Isso aliado a uma fé que aceito, abraço e que me consola profundamente, que é a vida eterna. Acreditar na vida eterna. Porque se estou viva agora é evidente que posso viver o resto da vida. Isso é absolutamente consolador. E poético até não poder mais.

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